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quarta-feira, 16 de abril de 2014

Intimidade sem proximidade




 Intimidade sem proximidade

Aos estudos que punham a claro a importância da televisão e do computador como instrumentos privilegiados da informação e da comunicação entre as pessoas, muito especialmente entre as crianças e os jovens, juntam-se agora os que nos mostram o papel crescente que, também aqui, desempenha o uso do telemóvel.

Uma pesquisa recentemente feita em França evidencia que o telemóvel se tornou um meio imprescindível para a convivência juvenil já que serve, numa significativa percentagem de casos, para a transmissão de mensagens e de afectos que as inibições e o medo impedem que sejam expressos sem a sua mediação. É assim que 40% das chamadas entre adolescentes são feitas para colegas que residem num raio inferior a 10 Km e que 60% das mesmas são dirigidas a pessoas com as quais eles se encontram quotidianamente.

Sendo evidente que muitas vezes são as famílias que utilizam o telemóvel enquanto recurso precioso numa sociedade marcada pela sobreocupação, pela intensidade dos ritmos de vida e pela insegurança, é verdade também que muitos dos jovens indagados reconheceram que o telemóvel serve, com frequência, para transmitir sentimentos e receios que não conseguem comunicar directamente.
Assim, seja por razões pragmáticas, seja por preconceitos e temores, a verdade é que cada vez são mais numerosas e poderosas as instâncias que medeiam as relações entre as pessoas, sobretudo entre os mais novos, circunstância que ameaça tornar a tão propalada relação face-a-face um desígnio educativo remoto ou, talvez, quimérico ... Na verdade, a solidariedade tende a ter lugar apenas na medida em que o outro que será ocasião da minha entrega me chegue devidamente preparado, para me sensibilizar, através da imagem da televisão: uma solidariedade para que sou impelido e que, no fundo, não escolho; uma solidariedade instantânea, súbita, massificadora e, por isso, contraditoriamente, pública (aos meus ? aos nossos - olhos) e íntima (para os outros que não me vêem mas cuja privacidade eles me expõem). Os dramas dos meus vizinhos e até dos que vivem dentro da minha casa, esses, eu ignoro-os porque, afinal, a televisão não me deixa tempo, nem disposição, para com eles conversar. Só me vão interessar se um dia alguém os fizer aparecer no ecrã, prontos para me comoverem.
A internet permitiu, por seu turno, a criação de redes de contacto à distância, diálogos sem rostos e até com máscaras. Permitiu criar outras partilhas e, com elas, novas solidões. É cada vez mais possível estar com os outros à distância tanto quanto é indesejável estar com eles perto.
Entretanto, o toque melodioso de um telemóvel soa mais forte do que um grito: por ele, por causa dele, por causa daquele, interrompe-se uma conversa, uma refeição, suspende-se um silêncio ... do grito tem-se medo, suspeita-se e foge-se. Eu vou com o outro, lado a lado, mas não é com ele que eu falo, pelo menos enquanto ele estiver ao meu lado. Conversarei com ele quando ao meu lado estiver um outro e ele me telefonar.
(...)
Neste contexto, a escola corre o risco de ser um espaço social anómalo em que as crianças, os jovens e os adultos são obrigados a enfrentarem-se, a confrontarem-se, a conviverem numa proximidade pessoal real. Proximidade que, todavia, poderá ser pedagogicamente impulsionada e explorada. Apesar da burocratização pedagógica dos espaços e dos tempos escolares, estes proporcionam, mesmo assim, pontos de encontro em que é necessário tomar decisões, construir propostas, avaliar comportamentos, partilhar êxitos e fracassos, etc. Dentro de espaços que é preciso percorrer, saber utilizar e adaptar; por referência a tempos em que é necessário esperar e em que se tem de recordar ... e esquecer. A pedagogia do projecto ? esse desafio educativo pendularmente distorcido pelas ideologias administrativistas e pelo militantismo ideológico ? contém precisamente esta dissonância vivencial relativamente ao universo da sociedade mediatizada. Dissonância fecunda em termos ético-antropológicos que, sem pôr em causa a realidade tecnológica e humana dos nossos dias, poderá, todavia, possibilitar, desde que, de facto, educativamente aproveitada, a sua mobilização crítica. 
A escola asseguraria, deste modo, o aprofundamento da multidimensionalidade e da complexidade da sociedade contemporânea, potenciando-as, evitando a desumanização do seu afunilamento virtual e proporcionando, antes de mais, a construção de competências que permitam a cada um viver com os outros e não apenas junto deles. Ou, se se quiser também, que permitam a cada um não estar junto dos outros apenas quando não está com eles.
A comunicação, independentemente da forma de que se reveste, só é solidária se não constituir um fim em si e se, portanto, redundar em partilha crítica, consciente e consequente. Se não pactuar com o marketing da solidariedade-espectáculo e, afinal, indiferente.
A intimidade sem proximidade que as novas tecnologias da informação e da comunicação proporcionam, desemboca, no fundo, numa vergonha sem pudor,     numa distância que se tem medo de vencer por ser surpreendentemente curta.Desagua num bloqueio interpessoal que, no lugar de libertar, constrange e confrange.
Então, a educação escolar ? precisamente esta mais do que qualquer outra ? não pode permanecer indiferente...



Prof. Adalberto Dias de Carvalho
In Pagina da Educação, n° 120





                                                              Lola 

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