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sexta-feira, 8 de novembro de 2019

O Argumento Ontológico




O Argumento Ontológico

O argumento ontológico e o problema da possibilidade da existência de Deus

Introdução

No Proslogium, Anselmo de Aosta (1033-1109) apresentou um dos mais importantes argumentos a favor da existência de Deus da história da filosofia: o argumento ontológico. Este argumento sustenta a existência de Deus recorrendo unicamente a premissas conhecíveis a priori.1 Embora o argumento ontológico não seja propriamente um único argumento, mas, como escreve Rowe, “uma família de argumentos” (Rowe, p. 42), pois encontramos diferentes versões em filósofos como Descartes (1646-1716) e Leibniz (1646-1716),2 a versão de Anselmo é a mais importante. A sua importância resulta de levantar um número elevado de questões filosóficas fundamentais e de ter estimulado uma série de reflexões ao longo da história da filosofia. No entanto, não tenho a pretensão de expor todos os comentários e discussões referentes ao argumento de Anselmo. Tampouco me limito a considerações meramente histórico-filosóficas. O interesse do presente ensaio é mais específico: apresentarei o argumento a fim de discutir sua segunda premissa (“será Deus um ser possível?”). O objetivo é mostrar que o defensor do argumento ontológico está obrigado a admitir que Deus é um ser nomologicamente impossível (tais conceitos serão explicados ao longo do texto). E não só isto; pretendo sustentar também que não há boas razões para aceitar a segunda premissa do argumento. Se a crítica for correta, não podemos considerar o argumento de Anselmo uma prova sólida a favor da existência de Deus.

O argumento ontológico e o conceito anselmiano de Deus

Anselmo estava convencido de que, se aceitássemos apenas três premissas, estaríamos obrigados a aceitar a existência de Deus mediante uma reductio ad absurdum.3 Vejamos, então, quais são estas premissas:
  1. Deus existe no pensamento.
  2. Deus é um ser possível.
  3. Se algo existe no pensamento e podia existir na realidade, então podia ser maior do que é.
De início, precisamos examinar cada premissa em particular; posteriormente, apresentaremos o argumento como um todo. Não é surpreendente aqui o fato de haver conceitos ainda inexplicados. Portanto, convém elucidar a respeito de algumas noções importantes, tal como o conceito anselmiano de Deus. Que entende Anselmo sobre isto? O filósofo medieval define Deus como o ser maior do que o qual nenhum outro é pensado (ens quo maius cogitari nequit). No entanto, seguindo Rowe, é mais fácil compreender esta definição de Anselmo se fizermos uma ligeira alteração. Ao invés de utilizarmos a palavra “pensado”, entenderemos a expressão como “o ser maior do que o qual nenhum outro é possível”. Como afirma Rowe, “esta idéia diz que se um determinado ser é Deus, então nenhum ser possível pode ser maior que aquele” (Rowe, p. 44). Para tornar esta concepção mais clara, vejamos algumas propriedades comumente atribuídas ao Deus teísta. Ao afirmarmos ser Deus o maior de todos os seres possíveis, atribuímos-lhe as seguintes propriedades essenciais: onipotência, onisciência, suma bondade, eternidade, distância e independência do mundo e, finalmente, auto-existência. Destas propriedades essenciais acima elencadas destacaremos apenas alguns aspectos.
Onipotência é um conceito fundamental na concepção teísta. Dizer que Deus é onipotente significa afirmar que Deus pode fazer tudo aquilo no qual não envolva contradição nos termos (por exemplo, Deus não pode fazer um quadrado redondo), ademais, não pode fazer aquilo que seja contrário às suas propriedades essenciais (por exemplo, se Deus é sumamente bom, então não pode praticar o mal). O conceito de onisciência cumpre também um papel fundamental nesta concepção. Afirmar que Deus é onisciente significa dizer que Deus é infinitamente sábio (por exemplo, não possui limitações cognitivas como os seres humanos). Ser sumamente bom é praticar tão somente atos morais e a impossibilidade de praticar qualquer ato imoral (ou seja, as ações de Deus, moralmente falando, são as melhores possíveis). Ser eterno, distante e independente do mundo implica transcender as leis da física (por exemplo, Deus não está sujeito às leis do espaço e tampouco às leis do tempo; logo, pode ocupar dois lugares no espaço ao mesmo tempo e, além disso, estar presente em qualquer tempo — passado, presente e futuro. Por ser eterno, sempre existiu e jamais perecerá. Por ser auto-existente, não necessita da atividade causal de outros seres para existir (por exemplo, a existência da mesa depende da existência do marceneiro; Deus, ao contrário, basta-se a si mesmo).
Tais propriedades caracterizam seguramente a grandiosidade de Deus. É acaso possível haver ser maior? A grandiosidade de que fala Anselmo não é a grandeza física. Não se trata, por exemplo, de um grande prédio ou de um grande navio. Trata-se, antes, de um ser mais elevado e melhor, nomeadamente em termos cognitivos e morais.
Em termos cognitivos, pois é inegável a limitação cognitiva dos seres humanos. Mas Deus é onisciente, e por isso superior aos homens; ou seja, Deus certamente conhece tudo o que pode ser conhecido mas nós não conhecemos. Portanto, Deus supera os seres humanos, bem como os demais seres, em capacidades cognitivas.
Em termos morais, Deus também é maior do que os seres humanos; a sua suma bondade contribui para a sua grandiosidade. Pelo fato de ser sumamente bom, Deus não pode praticar o mal (ao contrário de nós, que somos suficientemente não sagrados para cometermos o mal).
Em suma, se elencarmos ponto a ponto as propriedades atribuídas ao Deus teísta que Anselmo tem em mente, veremos que se trata do melhor ser possível, e também o mais elevado. Trata-se portanto do ser maior do que o qual nenhum outro é possível, tal como definira Anselmo.

A primeira premissa

Uma vez explicado o conceito de Deus, podemos passar a discutir a primeira premissa do argumento de Anselmo (a saber, Deus existe no pensamento). Para melhor compreendê-la, é necessário estabelecer uma distinção entre coisas que existem tão somente no pensamento e coisas que existem na realidade. Que significa isso? Imagine, por exemplo, um ser qualquer — digamos, um dragão. Você pode concebê-lo como existente no pensamento; de fato, podemos imaginá-lo tal como é descrito nas narrativas de Tolkien e em demais obras literárias de ficção. Contudo, não podemos afirmar a existência de dragões na realidade, pois sabemos não ser este o caso. Do mesmo modo, podemos pensar em unicórnios e, no entanto, não lhes atribuir existência na realidade. Ao contrário das baleias e das girafas, os dragões e os unicórnios não existem na realidade. Na perspectiva de Anselmo, sempre que negamos a existência de algo, admitimo-la como existindo no pensamento. Não é surpreendente que os ateus afirmem ocorrer o mesmo com Deus. Com efeito, embora concebamos Deus como existente no pensamento, não o concebemos como existente na realidade, dirão os ateus: tratar-se-ia meramente de uma sofisticada invenção da imaginação humana. O ponto interessante a notar é que Anselmo está ciente do fato de, mesmo os ateus, admitirem a existência de Deus no pensamento. Por negar a existência divina na realidade, o ateu conseqüentemente tem de admitir a existência de Deus no pensamento (do mesmo modo, quando negamos a existência de dragões na realidade, estamos, segundo a perspectiva de Anselmo, a admitir sua existência no pensamento). Portanto, podemos justificar a primeira premissa de Anselmo com o seguinte argumento:
1.a. Quando alguém nega a existência de um ser na realidade, tem de admitir a existência do mesmo no pensamento.
2.b. Os ateus negam a existência de Deus na realidade.
Logo,
3.c. Os ateus têm de aceitar a existência de Deus no pensamento.
Entretanto, admitir a existência de Deus no pensamento parece trivial: o que de fato procuramos saber é se ele existe na realidade, afirmará o ateu. Vejamos, pois, como Anselmo procede a fim de persuadir-nos a aceitar a existência de Deus na realidade, e não meramente a aceitar sua existência no pensamento.

A segunda premissa

O segundo passo da estratégia de Anselmo consiste em afirmar a possibilidade da existência de Deus na realidade. Há pelo menos três sentidos diferentes em afirmar a possibilidade da existência de Deus na realidade. Podemos afirmar que é metafisicamente possível Deus existir na realidade. Também podemos afirmar que é nomologicamente possível Deus existir na realidade. E, finalmente, podemos afirmar que é logicamente possível Deus existir na realidade. Temos aqui, portanto, três sentidos diferentes de possibilidade, a saber, possibilidade metafísica, nomológica e física. Mas o que significa exatamente cada uma delas?
Metafisicamente possível é aquilo que é realmente possível. A possibilidade metafísica permite que algo seja possível se for consistente com as leis “metafísicas” — sejam elas quais forem. Por exemplo, se as leis metafísicas incluem as leis da lógica, afirmaremos ser metafisicamente impossível chover e não chover ao mesmo tempo, ou Sócrates não ser Sócrates. Por outro lado, se considerarmos as leis metafísicas de modo a incluir as leis das ciências, diremos que é metafisicamente impossível a água não ser H2O ou um objeto dar a volta à galáxia num microsegundo. Assim, Deus é um ser metafisicamente possível se, e somente se, for consistente com as leis metafísicas.
Por sua vez, algo é nomologicamente possível se for consistente com as leis da ciência. Por exemplo, é fisicamente impossível viajar mais depressa do que a luz, assim, é uma impossibilidade nomológica qualquer objeto viajar mais depressa do que a luz. Já Sócrates ter nascido no Egito, ao invés de ter nascido em Atenas, é uma possibilidade nomológica. Não há qualquer transgressão das leis científicas no fato de Sócrates poder ter nascido no Egito. Também não é uma impossibilidade nomológica alguém saltar de pára-quedas. Mas um ser humano dar um salto até à Lua é algo nomologicamente impossível. Tudo aquilo que não for permitido pelas leis da ciência é nomologicamente impossível. Positivamente, tudo aquilo que é permitido pelas leis científicas é nomologicamente possível.
Um âmbito de possibilidade certamente mais amplo é o da possibilidade lógica. Uma coisa só é logicamente possível se sua negação não é nem implica uma contradição. Todo o resto é logicamente possível. Não é uma impossibilidade lógica saltar até a Lua, a água não ser H2O, Sócrates não ser humano, etc. Mas disso não se segue que tudo seja possível. Há sem dúvida coisas que são logicamente impossíveis. Pense, por exemplo, no conceito de triângulo sem três lados. É sequer possível que tal coisa exista na realidade? Não há dúvidas de que responderíamos negativamente. Portanto, seguindo este raciocínio, negaríamos não só a existência, mas também a possibilidade de existirem quadrados redondos, solteiros casados, triângulos sem três lados, etc. Não podemos de modo algum — na perspectiva de Anselmo — aceitar a possibilidade de existirem coisas que sejam contradições nos termos. Mas o conceito de Deus não implica contradição nos termos. O ponto capital parece então ser o seguinte: se algo não é uma impossibilidade lógica (por exemplo, chover e não chover ao mesmo tempo, existir um solteiro que seja ao mesmo tempo casado), então não há problemas em afirmar que este algo possa existir na realidade. Como Deus, na perspectiva de Anselmo, não é um ser logicamente impossível, segue-se então que ele poderia existir na realidade. Assim, sustentaremos a segunda premissa com o seguinte argumento:
2.a. Se algo é logicamente possível, então é possível que exista na realidade.
2.b. Deus é logicamente possível.
Logo,
2.c. É possível que Deus exista na realidade.4

A terceira premissa e a reductio ad absurdum

Finalizaremos a primeira parte de nossa exposição com a terceira premissa do argumento de Anselmo, a saber, se algo existe no pensamento e podia existir na realidade, então podia ser maior do que é. Esta premissa pressupõe a noção de que a existência confere grandiosidade, ou seja, afirma que a existência de algo na realidade é maior do que a existência de algo meramente no pensamento. Por exemplo, na perspectiva de Anselmo, um dragão existente é maior (em termos de grandiosidade) do que um dragão inexistente, visto que o primeiro possui a qualidade de existência e o segundo não. As qualidades que conferem grandiosidade não são apenas as que atribuímos à concepção teísta de Deus. É claro que as propriedades essenciais desta concepção tornam Deus o maior ser (em termos de grandiosidade) de todos os possíveis (como vimos, a bondade e a sabedoria moral são características produtoras de grandiosidade). Mas a terceira premissa de Anselmo parece sugerir o seguinte: quando falamos de uma mesma coisa, se esta pode existir na realidade mas não existe, então poderia ser maior do que é. Por exemplo, supondo que seja possível um unicórnio existir na realidade, diremos que poderia ser maior do que é: um unicórnio existente na realidade é maior do que um unicórnio que existe meramente no pensamento.
Com Deus não é diferente. Como admitimos a possibilidade de Deus existir na realidade, admitiremos também que poderia ser maior do que é, caso aceitemos a terceira premissa. Contudo, tal afirmação leva-nos a uma conclusão surpreendente. Supondo que admitamos as premissas 1 a 3, temos de aceitar, como afirmou Anselmo, a existência de Deus na realidade. Lembremos que o Deus de Anselmo é o maior, em termos de grandiosidade, de todos os possíveis. Vejamos agora o argumento como um todo:
  1. Deus existe no pensamento.
  2. Deus é um ser possível.
  3. Se algo existe no pensamento e podia existir na realidade, então podia ser maior do que é.
Mas por que temos de aceitar a existência de Deus na realidade mediante unicamente estas três premissas? Como afirmei, ao invés de convencer-nos diretamente a aceitar a existência de Deus na realidade, Anselmo convida-nos a negar sua existência na realidade. Se supusermos que tal Deus não existe na realidade, ocorrerá o seguinte:
  1. Deus não existe na realidade (suposição da reductio).
  2. Se Deus não existe na realidade, então — dada a premissa 3 — poderia haver um ser maior do que ele.
Logo,
  1. Há um ser maior do que Deus. Ou melhor, há um ser maior do que o ser maior do que o qual nenhum outro é possível.
Dado que 6 é uma contradição, pois não é possível haver ser maior do que Deus justamente pelo fato de Deus ser o maior de todos os seres, concluímos:
  1. Deus existe na realidade bem como no entendimento.
Com esta reductio Anselmo pensa que prova a existência de Deus. Como podemos observar, o filósofo medieval pensa que, a partir de uma simples análise do conceito de Deus, podemos estabelecer a sua existência na realidade e, para tanto, oferece-nos este argumento. No entanto, foram muitas as críticas ao seu argumento desenvolvidas ao longo da história da filosofia. Infelizmente, não podemos expor toda a discussão e debate que se seguiu.5 O ataque que faremos ao argumento de Anselmo dirige-se à sua segunda premissa. Se conseguirmos negá-la, então não teremos de aceitar o argumento.

Possibilidade e existência de Deus

Sustentamos a segunda premissa com o seguinte argumento: se algo é logicamente possível, então é possível (ou seja, este algo é metafisicamente possível). Vejamos novamente como justificamos a segunda premissa:
2.a. Se algo é logicamente possível, então é possível que exista na realidade.
2.b. Deus é logicamente possível.
Logo,
2.c. É possível que Deus exista na realidade
Como Deus é logicamente possível, segue-se então que é de fato possível. Quando aplicamos este argumento a Deus parece não haver problema algum. Entretanto, alterando o exemplo, o argumento apresenta-se muito contra intuitivo.
Se algo é logicamente possível, então é realmente possível.
É logicamente possível que Sócrates tenha sido um cão.
Logo,
É realmente possível (ou metafisicamente possível) que Sócrates tenha sido um cão.
Como podemos observar, o defensor do argumento ontológico parece ter de sustentar que tudo o que é logicamente possível é metafisicamente possível. Isto porque Deus parece que é um ser nomologicamente impossível. Uma coisa só é nomologicamente possível se for consistente com as leis da ciência. Deus é nomologicamente possível se, e somente se, é consistente com as leis da ciência. Pelo fato de Deus ser capaz de estar em dois lugares ao mesmo tempo, por exemplo, não podemos considerá-lo como um ser nomologicamente possível. Além disso, a onipotência divina assegura que Deus pode fazer tudo aquilo no qual não envolva contradições. Não há qualquer contradição em afirmar que Deus viaja mais depressa do que a luz, ainda que seja fisicamente impossível viajar mais depressa do que a luz. Isto é suficiente para afirmarmos que Deus é um ser nomologicamente impossível.
Entretanto, ao considerar que a possibilidade lógica é uma possibilidade real (tal como observamos na premissa 2.a.) enfrentamos um problema: esta pressuposição viola uma de nossas intuições básicas: a de que nem toda a possibilidade lógica é uma possibilidade real. Será realmente possível que amanhã nos tornemos elefantes voadores? Que Wittgenstein, na verdade, tivesse sido uma raquete de tênis ao invés de um ser humano? Intuitivamente, responderíamos que não. Além disso, o problema não é somente o fato de violar uma de nossas intuições fundamentais. Quando afirmamos que Deus é um ser possível estamos a pressupor sem justificação que uma possibilidade lógica é uma possibilidade real. Por que devemos acreditar que tudo aquilo que é logicamente possível é de fato possível? O que o defensor do argumento ontológico teria de fazer é defender esta idéia ao invés de meramente pressupô-la. Se não há razões para aceitar que uma possibilidade lógica é uma possibilidade real, então podemos rejeitar a segunda premissa do argumento ontológico.
Além do mais, parece mais intuitivo supor que a possibilidade real seja a possibilidade nomológica. Se fizermos isto, não teremos de aceitar que Sócrates poderia ter sido um cão ou Wittgenstein uma raquete de tênis. Entretanto, se afirmamos que só o que é nomologicamente possível é metafisicamente possível, teremos de recusar a mera possibilidade de Deus existir na realidade, ou seja, Deus seria um ser metafisicamente impossível. Contudo, não precisamos defender esta idéia para negar o argumento ontológico. O que compete ao defensor do argumento ontológico é mostrar por que toda a possibilidade lógica é uma possibilidade real. Infelizmente não há razões para aceitar esta suposição. E se não a aceitamos, o argumento de Anselmo não é uma prova sólida da existência de Deus.

Uma possível objeção do defensor do argumento ontológico

Uma das maneiras de o defensor do argumento ontológico rejeitar minha objeção seria a seguinte: não é preciso pressupor que tudo o que é logicamente possível é realmente (ou metafisicamente) possível. Pode-se apenas pressupor que nem tudo o que é nomologicamente impossível é realmente impossível. Embora seja nomologicamente impossível viajar mais depressa do que a luz, não se segue que seja realmente impossível viajar mais depressa do que a luz, pois as leis da natureza podem ser metafisicamente contingentes. O teísta argumentaria a favor da possibilidade real de viajar mais depressa do que a luz, apesar de isso não ser nomologicamente possível. O defensor do argumento ontológico não precisaria assim de pressupor que tudo o que é logicamente possível é realmente (ou metafisicamente) possível; só teria de pressupor que algumas coisas que são nomologicamente impossíveis são realmente possíveis. Portanto, ficaria imune à minha crítica que questiona o primeiro pressuposto, defendendo que embora Deus seja nomologicamente impossível, daí não se segue que é metafisicamente impossível.
Mas se Deus é nomologicamente impossível e se o teísta não parte do pressuposto de que toda a possibilidade lógica é uma possibilidade real, terá de pressupor que Deus é um ser metafisicamente (ou realmente) possível. Mas este pressuposto, apesar de evitar a objeção por mim levantada, tem um grave problema para o teísta: afinal, não é óbvio que Deus seja metafisicamente possível. O defensor do argumento ontológico estaria a pressupor sem maiores razões que Deus é um ser realmente possível. Ao invés de justificar a segunda premissa, simplesmente a toma como óbvia: pressupõe algo que deveria justamente provar. Isto é suficiente para tornar o argumento — no mínimo — muitíssimo menos cogente. Nem mesmo neste caso o argumento ontológico poderia ser uma prova sólida a favor da existência de Deus. Esta suposição, que afirma a possibilidade metafísica de Deus existir, tornaria simplesmente o argumento menos cogente porque obrigaria a aceitar uma premissa muito menos plausível.6
Pedro Merlussi

Notas
  1. Um argumento é a priori quando todas as suas premissas são conhecíveis pelo pensamento apenas, ou quando não precisamos recorrer às nossas capacidades perceptivas. Ou seja, não precisamos recorrer à experiência para conhecer uma proposição como que dois mais dois é igual a quatro. No caso do argumento ontológico, não precisamos recorrer à experiência para conhecer suas premissas. Dos argumentos mais famosos a favor da existência de Deus (como o cosmológico e do desígnio), o ontológico é o único a priori.
  2. Observa-se outras formas do argumento ontológico em Descartes (nomeadamente na Meditação V), Espinosa (Ética, parte I, teoremas 7-11) e Leibniz (Nouveaux Essais sur l’Entendement Humain, livro IV, cap.10; Monadologia, seçs. 44-45).
  3. Reductio ad absurdum (lat., redução ao absurdo) “é um método indireto de demonstração que prova a verdade de uma proposição pela impossibilidade de aceitar as conseqüências que derivam de sua contraditória” (Mora 2004: 2476). Ao invés de demonstrar diretamente a existência de Deus, Anselmo supõe a inexistência de Deus. A partir disso, conclui o seguinte: se afirmamos que Deus não existe, teremos um resultado contraditório. Portanto, devemos aceitar a existência de Deus.
  4. Este argumento não está presente no texto de Anselmo, mas, infelizmente, o filósofo também não fornece razão para aceitar a segunda premissa. Mesmo que a segunda premissa seja verdadeira, devemos saber por que ela o é (e quanto a isso Anselmo não oferece razões). Portanto, o que parece mais plausível supor é que se uma coisa não implica contradições nos termos, então se segue que ela seja possível de existir na realidade. Ao aceitar este argumento parece que temos justificação para aceitar a segunda premissa.
  5. A primeira objeção ao argumento de Anselmo encontra-se no texto Livro em Favor do Insensato do monge Gaunilo de Marmoutiers. A resposta de Anselmo a esta objeção pode ser encontrada tanto em Obras Completas de San Anselmo, Madri, Biblioteca de Autores Cristianos, 1952–1953, vol. I, como também em Philosophy of Religion: A Guide and Anthology, Oxford, Oxford University Press, 2000. Uma crítica que muito mais tarde se tornou célebre pode ser encontrada em Kant, Crítica da Razão Pura. Além disso, para uma exposição clara e introdutória das diversas objeções cf. Rowe.
  6. Este trabalho foi realizado no âmbito da disciplina Filosofia da Religião, ministrada por Desidério Murcho na UFOP.

Bibliografia

·             Anselmo de Aosta, “Anselm argues that God cannot be thought not to exist”, in Philosophy of Religion: A Guide and Anthology. New York: Oxford University Press, 2000.
·             —— “Anselm replies to Gaunilo” in Philosophy of Religion: A Guide and Anthology. New York: Oxford University Press, 2000.
·             —— “Proslógion”, in Opúsculos Selectos de Filosofia Medieval, Trad. A.S. Pinheiro. Braga: Faculdade de Filosofia, 1984.
·             Branquinho, João; Murcho, Desidério; Gomes, Nelson (orgs), Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
·             Davies, Brian, “Ontological Arguments” in Philosophy of Religion: A Guide and Anthology. New York: Oxford University Press, 2000.
·             Murcho, Desidério, Essencialismo Naturalizado. Coimbra: Angelus Novus, 2002.
·             Rowe, William L. Introdução à Filosofia da Religião, Trad. Vítor Guerreiro. Revisão científica de Desidério Murcho. Vila Nova de Famalicão: Quasi, no prelo.

In Critica




                                                Lola

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Argumento ontológico






Argumento ontológico


O argumento ontológico pretende demonstrar a existência de Deus por meios puramente conceptuais. Primeiramente formulado por Anselmo de Aosta (1033-1109) no séc. XI, encontram-se diferentes variantes do mesmo em Tomás de Aquino (1225-1274), Descartes (1596-1650) e Leibniz (1646-1716). A estrutura do argumento é basicamente a seguinte:
1. Deus é o ser acima do qual nada de maior pode ser pensado.
2. A ideia de ser acima do qual nada de maior pode ser pensado existe na nossa consciência.
3. Se o ser correspondente a esta ideia não existisse, teria que faltar um predicado à ideia do mesmo, a saber, o predicado da existência, pelo que, nessas condições, essa ideia já não seria a do ser acima do qual nada de maior pode ser pensado, uma vez que seria lícito pensar-se num outro ser que tivesse exactamente os mesmos predicados que o anterior e, para além desses, também o da existência.
4. Logo, se a ideia de ser acima do qual nada de maior pode ser pensado existe, então o ser que lhe corresponde tem também que existir pois, se esse não for o caso, a ideia em causa deixa de ser a ideia que é, o que constitui uma contradição.
        
   Enciclopédia de termos lógico filosóficos




O primeiro a fazer esse tipo de objeção foi um monge contemporâneo de Anselmo, Gaunilo de Marmoutiers escreveu um livro  intitulado " Em defesa do tolo" onde parodiava o argumento de Anselmo substituindo Deus pela      " ilha perdida". A intenção de Gaunilo não é de demonstrar o erro do argumento, mas sim ao que aceitamos a lógica do argumento poderíamos  deduzir  uma variedade enorme de seres que saberemos que não existem.
Este  contemporâneo de Anselmo de Aosta, o monge Gaunilo de Marmoutiers, elaborou uma refutação do argumento de Anselmo por meio de uma reductio ad absurdum do mesmo. A reductio de Gaunilo tem o seguinte aspecto:
1. Perdida é a ilha paradisíaca mais perfeita e agradável que qualquer outra.
2. A ideia de ilha paradisíaca mais perfeita e agradável que qualquer outra existe na nossa consciência.
3. Se a ilha real a que esta ideia corresponde não existisse, teria que faltar um predicado à ideia, a saber, o predicado da existência, pelo que então essa ideia já não seria a ideia da ilha paradisíaca mais perfeita e agradável que qualquer outra, uma vez que seria possível pensar-se numa outra ilha que tivesse exactamente as mesmas propriedades de Perdida e ainda a propriedade da existência.
4. Logo, se a ideia de ilha paradisíaca mais perfeita e agradável que qualquer outra existe, então o objecto que lhe corresponde tem também que existir pois, se esse não for o caso, a ideia em causa deixa de ser a ideia que é, o que constitui uma contradição.


  PREMISSAS:
                                     ANSELMO    


  1. Deus é aquele ser do qual nada maior pode ser concebido.
  2. É maior a existir na realidade do que simplesmente como uma ideia.
  3. Se Deus não existe, podemos conceber um ser ainda maior, i um que faz existir.
  4. Portanto, Deus deve realmente existir na realidade.
  5. Portanto, Ele existe.
                                     GAUNILO
1.  A Ilha Perdida é algo do qual nada maior pode ser concebido.
2.  É maior a existir na realidade do que simplesmente como uma idéia.
3.  Se a Ilha Perdida não existe, é possível conceber uma ilha ainda maior, i um que faz existir.

4.  Portanto, a Ilha Perdida existe na realidade.


 A reformulação do argumento de Anselmo por Gaunilo mostra-nos as conclusões inaceitáveis que se podem extrair de uma tal estrutura argumentativa mas não diagnostica o vício subjacente ao mesmo. Um primeiro diagnóstico da natureza deste vício foi efectuado por Hume (1711-1776) e tornado célebre por Kant (1724-1804). Consiste na consideração de que o termo «existir» não é adequadamente utilizado no argumento, uma vez que ele é aqui tratado como se referisse um predicado quando a existência não é um predicado. Não sendo a existência um predicado, a atribuição de existência à ideia ou representação de um objecto ou ser não lhe acrescenta qualquer predicado pelo que a ideia ou representação de um dado objecto ou ser concebido como existente não pode ser considerada como maior ou mais perfeita, no sentido referido acima de reunidora de maior número de predicados, do que a mesma ideia ou representação concebida como sendo de um objecto ou ser inexistente. Daí que a ideia de Deus concebida como realizada num ser particular em nada possa diferir da mesma ideia de Deus concebida como não realizada por qualquer ser.
 Mais tarde, Frege (1848-1925), refinou a análise do conceito de existência, defendendo a tese de que a existência seria um predicado de 2.a ordem, isto é, um predicado que apenas poderia ser atribuído a conceitos e não a objectos ou seres. (Há porém autores modernos que defendem novas versões da tese tradicional) Deste modo, o que a proposição «Deus existe» faria seria atribuir aoconceito de Deus a propriedade de não ser vazio. Pressupondo a não contraditoriedade do conceito de Deus, uma decisão acerca da verdade de uma tal proposição só poderia ser alcançada por intermédio da descoberta de um processo por meio do qual fosse possível determinar empiricamente se algum ser satisfaria efectivamente todos os predicados de primeira ordem por meio da conjunção dos quais o conceito de Deus seria definido. Como a existência, enquanto predicado de 2.a ordem, não poderia ser um desses predicados, o contraste entre as duas ideias introduzidas no argumento de Anselmo não poderia, portanto, estabelecer-se e o argumento seria improcedente. Assim, a nova definição de existência introduzida por Frege não traz qualquer modificação à rejeição do argumento determinada por Hume e Kant.

António Zilhão
In. Enciclopédia de termos lógico filosóficos, (Dir. de João Branquinho e desidério Murcho), Gradiva, 2000

 2 DE NOVEMBRO DE 2007
In A Filosofia no Ensino Secundàrio




No início do século XI, Anselmo de Cantuária apresentou em seu livro Monologion um argumento em prol da existência de Deus – o Argumento Ontológico. Este argumento tem encontrado muitos críticos em quase mil anos, desde que foi escrito. Todavia, seu primeiro crítico, Gaunilo, foi quem levou Anselmo a aprimorá-lo a ponto de ele ser um argumento respeitado e usado ainda hoje por muitos como uma prova da existência de Deus.
Pretendo, em dois artigos, analisar o debate entre Anselmo de Cantuária e o monge Gaunilo em torno do Argumento Ontológico, o qual gira em torno da expressão anselmiana de Deus ser aquele sobre quem não se pode pensar nada maior. Segundo Alister McGrath, dentro do contexto da fé cristã, seu argumento tem ganhado o posto de um dos melhores argumentos acerca da existência de Deus.
Finalmente, veremos os desdobramentos futuros que o argumento ontológico possuiu. Analisaremos seu reflexo na academia filosófica e teológica. Concluiremos analisando alguns reflexos do Argumento Ontológico nas confissões de fé reformadas dos séculos XVI e XVII.
Quem foi Anselmo de Cantuária?

Anselmo de Cantuária nasceu na cidade italiana de Aosta, na região de Piemonte, no ano de 1033. Filho de Gondolfo e Ermenberga, Anselmo teve um berço nobre. Sua educação iniciou-se na Abadia de St. Leger onde um currículo clássico o treinou para a clareza de expressão que, mais tarde, seria característica em seus escritos. Embora seu pai desejasse para ele a carreira política, a decisão de Anselmo inclinava-se para o monastério.


Após uma juventude protegida e gasta nos estudos, Anselmo enfrentou a morte de sua mãe. Após isso, cruzou os Alpes e, depois de três anos, se fixou permanentemente na abadia de Bec, na Normandia, norte da França.
Em Bec, estudou aos pés de Lanfranc, renomado teólogo de então. Anselmo fez os votos monásticos e sucedeu seu famoso professor como prior em 1063. Tudo isso, devido a sua intelectualidade e piedade fora do comum. Mais tarde, de 1078 a 1093, se tornaria abade de Bec. Neste tempo, sob a liderança de Anselmo, o monastério e sua escola se tornaram um proeminente centro de ensino. É nesse período que Anselmo escreveu duas de suas principais obras: o Monologion e o Proslogion.
Em 1093, Anselmo é nomeado arcebispo de Cantuária pelo rei Guilherme II, o Ruivo. Embora esse fosse o desejo tanto do rei quanto do povo, Anselmo aceitou o arcebispado contra sua vontade pessoal. Segundo Matos, já de posse do principal cargo eclesiástico da Inglaterra, Anselmo “promoveu reformas na vida da igreja, lutando contra a simonia (comércio de cargos eclesiásticos), o nicolaísmo (casamento clerical) e as interferências dos governantes na vida da igreja. Por causa disso, Anselmo foi exilado duas vezes (1097-1100 e 1103-1107)”.
Após seu último período de exílio, Anselmo é recebido na Inglaterra com entusiasmo pelo rei e pelo povo. Mas, “ele voltou para casa para morrer”. Anselmo veio a falecer em 21 de abril de 1109.



A razão de Proslogion existir

A obra Proslogion (segundo McGrath, é praticamente impossível  traduzir-se esta palavra) foi escrita por volta do ano 1079. Seu primeiro título foi “A fé que procura a inteligência daquilo que crê”. Segundo Roque Frangiotti, “a pedido de Hugo e dos copistas”, a obra de Anselmo foi intitulada novamente para o que hoje conhecemos, Proslogion.


Segundo Anselmo, a razão pela qual ele se pôs a escrever Proslogion foi o de consolidar o argumento doMonologion (sua obra anterior). Segundo Richard William Southern, Anselmo quis que o Proslogion fosse “um suplemento para o Monologion”. Justo González argumenta que Anselmo, estando insatisfeito com o argumento proposto em Monologion, escreveu Proslogion com o objetivo de que este fosse menos complicado. E que, “após uma longa procura por um argumento mais simples, ele acreditou que o descobriu no que, mais tarde, seria chamado o ‘argumento ontológico’”. Alister McGrath resume o propósito de Anselmo como sendo a missão de “formular um argumento que levaria à crença na existência e no caráter de Deus como o bem supremo”. Tal argumento se valeria da afirmação de que Deus é o “ser do qual não é possível pensar nada maior”.


A exposição do argumento ontológico

É no Proslogion que Anselmo expõe o argumento ontológico. Uma frase desse livro que se tornaria conhecida é credo ut intelligam (creio para que possa compreender). Bengt Hägglund, em História da Teologia, diz que Anselmo baseia-se na tradução da Vulgata em Is 7.9: “Se não creres, não compreenderás” para embarcar na expressão agostiniana “compreender é a recompensa da fé”. No capítulo 1 do Proslogion, Anselmo afirma à Deus:


Não tento, ó Senhor, penetrar a tua profundidade: de maneira alguma a minha inteligência amolda-se a ela, mas desejo, ao menos, compreender a tua verdade, que o meu coração crê e ama. Com efeito, não busco compreender para crer, mas creio para compreender. Efetivamente creio, porque, se não cresse, não conseguiria compreender.
Assim começa a ser desenvolvida a argumentação de Anselmo na chamada prova anselmiana, ou, como Kant a chamou mais tarde, a prova ontológica da existência de Deus - ontologia é o braço da metafísica que lida com a natureza, ciência ou teoria do ser; aqui, no caso, o Ser de Deus.
O objetivo de Anselmo, em princípio, é chamar os seres humanos a buscarem a quietude para, nela, se encontrarem com Deus. “Eia, vamos homem!” é o início de sua chamada a que os homens fugissem de suas ocupações diárias, seus “pensamentos tumultuados”, suas preocupações com o dia a dia, e entrassem no esconderijo de suas mentes para, lá, se encontrarem com Deus. Na mente, os homens deveriam fugir de tudo, menos de Deus.
A mente é o objetivo de Anselmo. A sua prova acerca da existência de Deus busca satisfazer o intelecto daquele que crê. Anselmo não tenta satisfazer a mente do “insipiente”. Antes, faz uso da lógica para provar àquele que crê que Deus é, pelo fato de ele ser o Ser do qual não se pode pensar nada maior. E isso sem mencionar um versículo bíblico sequer.
McGrath registra que o argumento ontológico leva a dedução da existência de Deus a partir da afirmação de que Ele era “aquele sobre quem nada maior pode ser concebido”.
Hägglund resume o argumento ontológico de Anselmo como “a fé que concebe Deus como o ser mais elevado e mais perfeito”. Para Roque Frangiotti, Anselmo quis entreter-se com a questão da existência de Deus sobre todos os seus atributos buscando mostrar, em sua quietude, “que ele é tudo o que a fé nos ensina: eterno, imutável, todo-poderoso, imenso, incompreensível, justo, piedoso, misericordioso, verdadeiro, a verdade, a bondade, a justiça, e que tudo isso está nele como coisa única”.
Todo o argumento de Anselmo, os vinte e seis capítulos de Proslogion, foram escritos em forma de oração, lembrando em muito as Confissões de Agostinho de Hipona. Ao longo de sua piedosa argumentação, Anselmo demonstra, de duas formas, que Deus é aquele ser maior que podemos compreender. Primeiramente, Anselmo declara que, se existisse alguém maior que Deus, certamente nossa mente teria condições de imaginá-lo. E, se nossa mente tivesse condições de imaginar alguém maior que Deus, certamente Deus não seria o ser acerca de quem não se pode pensar nada maior.
Deus é uma realidade perfeita que, sendo perfeita, não pode existir apenas na ideia, mas também na realidade. De outra forma não seria perfeita. Em segundo lugar, Anselmo declara que Deus é “aquele ser que não podemos conceber como não-existente”. Para Anselmo, trata-se de uma contradição falar da “não existência de Deus”, pois o divino não pode deixar jamais de existir. E, se nossa mente é capaz de pensar na não-existência de um ser do qual tudo depende, nossa própria mente nos testemunha de sua realidade, visto que dEle tudo depende. Fosse Deus contingente, logo poderíamos pensar em sua não existência. Como essa não é a situação de Deus, logo, Ele deve existir.
Hägglund ousa dizer que, para Anselmo, tal pressuposto pode ser entendido intelectualmente até mesmo por aqueles que não creem na existência de um Deus. Isso porque o que é mais elevado do que tudo o que se pode conceber, não pode existir apenas no intelecto.
Sem dúvida, o valor de Proslogion encontra-se no “nítido apelo à razão em questões teológicas”, bem como na valorização do papel da lógica. É nesta obra que vemos antecipados os melhores aspectos da teologia escolástica, além de vermos cunhada uma expressão que passou a ser de uso geral naquele século: fides quaerens intellectum (a fé em busca do conhecimento).
Apesar de toda a argumentação de Anselmo no Proslogion ter sido contestada desde a sua concepção, McGrath afirma que, ainda hoje, ela é considerada um dos “componentes mais intrigantes da teologia-filosófica.”
Mediante a apresentação do argumento ontológico, rapidamente se levantaram refutações por parte de um monge beneditino de Marmotiers chamado Gaunilo. Este, de acordo com Boehner e Gilson, possuía uma notável agudeza de espírito. Apesar de admirar e elogiar em parte o trabalho de Anselmo, Gaunilo não se convenceu da validade da prova ontológica nela exposta. Gaunilo questionou o fato de que uma ideia ser ventilada no intelecto não garanta que ela exista na realidade.


Em decorrência disso, Gaunilo escreveu um livro chamado Em favor do tolo, ou, Defesa do tolo, como o traduz Justo González. Nele, Gaunilo acusa Anselmo de confundir duas coisas bem distintas. Elas seriam o esse in intellectu e o esse in re (o ser na inteligência, na mente, e, o ser na coisa, na realidade). Gaunilo dizia que o fato de possuirmos a ideia de algo não quer dizer que esse algo exista, de fato. Mesmo que a ideia que tenhamos seja uma ideia “perfeita”.
Vejamos como Gaunilo o coloca no sexto capítulo de sua objeção:
Alguns afirmam, por exemplo, que há uma ilha num ponto qualquer do oceano e que, pela dificuldade, ou melhor, a impossibilidade de achá-la, pois não existe, denominam de Perdida. Contam-se dela mil maravilhas, mais do que se narra a respeito das Ilhas Afortunadas [sic]: que, devido à sua inestimável fertilidade, ela está repleta de todas as riquezas e delícias e que, apesar de não haver lá nem proprietário nem habitantes, supera, em fartura de produtos, todas as terras habitadas pelos homens.
 Venha qualquer pessoa dizer-me que tudo isso existe e eu compreenderei facilmente, pois suas palavras não apresentam para mim nenhuma dificuldade. Mas se ainda essa pessoa quisesse acrescentar como consequência: tu não podes duvidar mais que essa ilha, a melhor de todas que há na terra, exista de verdade nalguma parte, porque conseguiste formar uma ideia clara da mesma na tua inteligência... acreditaria que estivesse brincando, ou não saberia distinguir qual de nós dois eu deveria julgar mais estulto.
Alister McGrath comenta que, para Gaunilo, a ideia de que algo exista não implica em sua real existência. Gaunilo dá o exemplo da ilha perfeita ou de certa quantia financeira. Pensar na ilha mais magnífica que podemos, e pensar que tal grande quantidade financeira está em nossa posse, não tornam tais coisas reais. Partindo dessas ilustrações, Gaunilo tenta fragilizar o argumento da existência de Deus, fazendo juízo do ser de Deus do mesmo modo como o faz de uma ilha.
Para Gaunilo, apesar de toda a força que nosso pensamento possa fazer para compreender a natureza de um ser, isso não resulta em que a conclusão tirada de tal pensamento gere a ideia de que o ser pensado encontra seu paralelo no mundo real. Barth analisa da seguinte maneira o questionamento de Gaunilo:
Deveria alguma palavra acerca de Deus ser mais do que um símbolo razoavelmente significativo de um ser humano, um desejo demasiado humano, que nunca é cumprido, para compreender o incompreensível? Estas são as questões que ele sentiu-se compelido a dirigir para Anselmo.
Para Karl Barth, foi um fato absolutamente notável que Gaunilo se tenha  sentido compelido a apelar diretamente a Anselmo.
Segundo o artigo de Timothy Stanley sobre Barth e Anselmo no periódico Modern Theology (Teologia Moderna), a controvérsia aqui é que Gaunilo entendeu mal a natureza noética do nome de Deus em Anselmo. Anselmo, nos diz Stanley, concordou que o nome de Deus permanecia escondido na objeção ontológica do próprio Deus, e que Deus é sempre incompreensível. “Como, então, nós sabemos que Deus é incompreensível?”, pergunta Barth. “Certamente, para Anselmo, como tudo o que nós conhecemos da Natureza de Deus, é seguido por fé e em fé”, responde o próprio Barth. Ou seja, para Gaunilo, não seria honesto da parte de Anselmo apelar à mente para convencer o insipiente acerca da existência de Deus.
Barth, em sua obra Anselm: Fides quaerens intellectum, comenta que, para Gaunilo, o artigo de fé acerca da existência de Deus, com respeito a sua validade epistemológica, não seria nada mais do que uma “vox vazia”.
O entendimento de Gaunilo quanto a uma palavra é que ela não passa de uma afirmação abstrata. Sons vazios que podem ser lançados dos lábios de qualquer pessoa sem que a ideia expressada pela palavra seja real, ou exista na realidade.
Gaunilo assim afirma no início do segundo capítulo de sua objeção:
A isso pode-se responder: se algo está na minha inteligência somente porque compreendo as palavras que o expressam, então não seria possível, também, afirmar o mesmo a respeito das coisas falsas ou absolutamente inexistentes, isto é, que se encontram na minha inteligência, porque, ao ouvir alguém falar nelas, eu as compreenderia?
Barth diz que Gaunilo ignorou “o fato dessa vox dever ser distinguida da inteligível vox Deus, simplesmente porque seu conteúdo é apenas de uma natureza noética e não ontológica”. Ou seja, a voz de Deus possui apenas uma natureza que contempla nosso pensamento, e não é capaz de nos levar à compreensão de sua real existência.
Nancy Levede, do Departamento de Estudos Religiosos da Universidade de Indiana (EUA), afirma em seu artigo Traces of History in St. Anselm (Traços da história em Santo Anselmo) que “a diferença entre Gaunilo e Anselmo, ambos dos quais disciplinariam seus pensamentos para o que eles poderiam conhecer em existência, é que, para Gaunilo, este exercício [de tentar compreender a Deus] é ostensivamente protetor do que realmente existe”. Levede comenta que, para Gaunilo, assim como Anselmo construiu a existência de Deus em sua mente, ilhas perdidas também podem ser construídas. Para Gaunilo, as ilhas perdidas são “construídas não de fantasias ociosas, mas do trabalho improvável do pensamento, dentro dos seus limites”.
Levede comenta também que, em Gaunilo, bem como “em todo o ceticismo, racionalismo e historicismo, há corpos e linguagens”, cada um tomando o seu caminho de acordo com suas leis e lógicas preordenadas.
Para Gaunilo, é impossível concluir sem nenhuma dúvida que Deus não exista. Boehner e Gilson nos lembram que Gaunilo “nega decididamente a possibilidade de pensar Deus como não existente”. Gaunilo, ao mesmo tempo que questionou a prova anselmiana contida no Proslogion, também não poupou elogios às demais considerações de Anselmo. O questionamento de Gaunilo foi e é tido como a objeção que melhor conseguiu “expor a séria fragilidade existente na argumentação de Anselmo”.


In Revista Teologia Brasileira






Lola

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