Mostrar mensagens com a etiqueta Karl Popper. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Karl Popper. Mostrar todas as mensagens

domingo, 19 de janeiro de 2020

Karl Popper




Karl Popper



1. Indução

Uma linha de resposta bastante diferente para o problema da indução deve-se a Karl Popper. Popper olha para a prática da ciência para nos mostrar como lidar com o problema. Segundo o ponto de vista de Popper, para começar a ciência não se baseia na indução. Popper nega que os cientistas começam com observações e inferem depois uma teoria geral. Em vez disso, primeiro propõem uma teoria, apresentando-a como uma conjetura inicialmente não corroborada, e depois comparam as suas previsões com observações para ver se ela resiste aos testes. Se esses testes se mostrarem negativos, então a teoria será experimentalmente falsificada e os cientistas irão procurar uma nova alternativa. Se, pelo contrário, os testes estiverem de acordo com a teoria, então os cientistas continuarão a mantê-la não como uma verdade provada, é certo, mas ainda assim como uma conjetura não refutada.

Se olharmos para a ciência desta maneira, defende Popper, então veremos que ela não precisa da indução. Segundo Popper, as inferências que interessam para a ciência são refutações, que tomam uma previsão falhada como premissa e concluem que a teoria que está por detrás da previsão é falsa. Estas inferências não são indutivas, mas dedutivas. Vemos que um A é não-B, e concluímos que não é o caso que todos os As são Bs. Aqui não há hipótese de a premissa ser verdadeira e a conclusão falsa. Se descobrirmos que um certo pedaço de sódio não fica laranja quando é aquecido, então sabemos de certeza que não é o caso que todo o sódio aquecido fica laranja. Aqui o facto interessante é que é muito mais fácil refutar teorias do que prová-las. Um único exemplo contrário é suficiente para uma refutação conclusiva, mas nenhum número de exemplos favoráveis constituirá uma prova conclusiva.

2. A Falsificabilidade

Assim, segundo Popper, a ciência é uma sequência de conjeturas. As teorias científicas são propostas como hipóteses, e são substituídas por novas hipóteses quando são falsificadas. No entanto, esta maneira de ver a ciência suscita uma questão óbvia: se as teorias científicas são sempre conjeturais, então o que torna a ciência melhor do que a astrologia, a adoração de espíritos ou qualquer outra forma de superstição sem fundamento? Um não-popperiano responderia a esta questão dizendo que a verdadeira ciência prova aquilo que afirma, enquanto que a superstição consiste apenas em palpites. Mas, segundo a conceção de Popper, mesmo as teorias científicas são palpites — pois não podem ser provadas pelas observações: são apenas conjeturas não refutadas.

Popper chama a isto o "problema da demarcação" — qual é a diferença entre a ciência e outras formas de crença? A sua resposta é que a ciência, ao contrário da superstição, pelo menos é falsificável, mesmo que não possa ser provada. As teorias científicas estão formuladas em termos precisos, e por isso conduzem a previsões definidas. As leis de Newton, por exemplo, dizem-nos exatamente onde certos planetas aparecerão em certos momentos. E isto significa que, se tais previsões fracassarem, poderemos ter a certeza de que a teoria que está por detrás delas é falsa. Pelo contrário, os sistemas de crenças como a astrologia são irremediavelmente vagos, de tal maneira que se torna impossível mostrar que estão claramente errados. A astrologia pode prever que os escorpiões irão prosperar nas suas relações pessoais à quinta-feira, mas, quando são confrontados com um escorpião cuja mulher o abandonou numa quinta-feira, é natural que os defensores da astrologia respondam que, considerando todas as coisas, o fim do casamento provavelmente acabou por ser melhor. Por causa disto, nada forçará alguma vez os astrólogos a admitir que a sua teoria está errada. A teoria apresenta-se em termos tão imprecisos que nenhumas observações atuais poderão falsificá-la.

3. Ciência e pseudociência

O próprio Popper usa este critério de falsificabilidade para distinguir a ciência genuína não só de sistemas de crenças tradicionais, como a astrologia e a adoração de espíritos, mas também do marxismo, da psicanálise de várias outras disciplinas modernas que ele considera negativamente como "pseudociências". Segundo Popper, as teses centrais dessas teorias são tão irrefutáveis como as da astrologia. Os marxistas preveem que as revoluções proletárias serão bem sucedidas quando os regimes capitalistas estiverem suficientemente enfraquecidos pelas suas contradições internas. Mas, quando são confrontados com revoluções proletárias fracassadas, respondem simplesmente que as contradições desses regimes capitalistas particulares ainda não os enfraqueceram suficientemente. De maneira semelhante, os teóricos psicanalistas defendem que todas as neuroses adultas se devem a traumas de infância, mas quando são confrontados com adultos perturbados que aparentemente tiveram uma infância normal dizem que ainda assim esses adultos tiveram que atravessar traumas psicológicos privados quando eram novos. Para Popper, estes truques são a antítese da seriedade científica. Os cientistas genuínos dirão de antemão que descobertas observacionais os fariam mudar de ideias, e abandonarão as suas teorias se essas descobertas se realizarem. Mas os teóricos marxistas e psicanalistas apresentam as suas ideias de tal maneira, defende Popper, que nenhumas observações possíveis os farão alguma vez modificar o seu pensamento.



David Papineau"Methodology" em A. C. Grayling (org.), 
Philosophy: A Guide Through the Subject,
 Oxford University Press, 1998




                                                Lola

domingo, 3 de junho de 2018

Karl Popper





Karl Popper


«Um homem empurra uma criança para a água com a intenção de a afogar; e outro homem sacrifica a vida numa tentativa de salvar a criança. Cada um destes casos radicalmente diferentes de comportamentos pode-se facilmente explicar em termos freudianos – e, por acaso, em termos Adlerianos também. Segundo Freud, o primeiro dos dois homens sofria de recalcamento […] ao passo que o segundo atingira a sublimação […]. Segundo Adler, o primeiro sofria de sentimentos de inferioridade (que talvez produzissem a necessidade de provar a si mesmo que era capaz de ter a audácia de cometer um crime); e o mesmo para o segundo homem (cuja necessidade era a de provar a si mesmo que era capaz de ter a audácia de arriscar a vida).
Não consigo pensar em nenhum caso concebível de comportamento humano que não pudesse ser interpretado em termos quer de uma quer de outra teoria e que não pudesse ser reivindicado, por cada uma das teorias, como “verificação” […].
perspectiva verificacionista da ciência é, de certo modo, algo como isto: de um modo ideal, a ciência consta de todos os enunciados verdadeiros. Como nós não os conhecemos a todos, tem, pelo menos, de constar de todos os que nós tenhamos verificado […].
A atitude falsificacionista é diferente. Para ela, a ciência consiste em arriscarem-se hipóteses explicativas – “arriscar” no sentido em que essas hipóteses afirmam tanto que facilmente se podem revelar como falsas. E dá o seu melhor para as criticar, esperando detectar e eliminar candidatos defeituosos ao estatuto de teoria explicativa, esperando também, através disso, alcançar mais compreensão.»

K. Popper, “A demarcação entre ciência e metafísica”,
In M. M. Carrilho (org.) 
Epistemologia: Posições e Críticas, FCG, Lisboa.




                                           Lola


terça-feira, 29 de maio de 2018

Karl Popper



 Karl Popper

La inducción es innecesaria

“Nunca es posible «justificar» o verificar las teorías científicas. Mas, a pesar de ello, una hipótesis determinada, A, puede aventajar bajo ciertas circunstancias a otra, B: bien sea porque B esté encontradicción con ciertos resultados de la observación -y, por tanto, quede «falsada» por ellos-, o porque sea posible deducir más predicciones valiéndose de A que de B. Lo más que podemos decir de una hipótesis es que hasta el momento ha sido capaz de mostrar su valía, y que ha tenido más éxito que otras: aun cuando, en principio, jamás cabe justificarla, verificarla ni siquiera hacer ver que sea probable. Esta evaluación de la hipótesis se apoya exclusivamente en las consecuencias deductivas (predicciones) que pueden extraerse de ella:
no se necesita ni mencionar la palabra «inducción»”

Racionalismo crítico

“Existe un único método al que podría llamarse «el único método de la filosofía». Pero no es característico solamente de ésta, sino que es, más bien, el único método de toda discusión racionaly, por ello, tanto delas ciencias de la naturaleza como de la filosofía: me refiero al de enunciar claramente los propios problemas y de examinar críticamente las diversas soluciones propuestas. He escrito en cursiva las palabras

 Popper,
La lógica de la investigación científica,
Tecnos, Madrid1977, p. 293. Citado en el
 Diccionario Herder




                                            Lola

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Karl Popper


 Karl Popper

1. Indução

Uma linha de resposta bastante diferente para o problema da indução deve-se a Karl Popper. Popper olha para a prática da ciência para nos mostrar como lidar com o problema. Segundo o ponto de vista de Popper, para começar a ciência não se baseia na indução. Popper nega que os cientistas começam com observações e inferem depois uma teoria geral. Em vez disso, primeiro propõem uma teoria, apresentando-a como uma conjectura inicialmente não corroborada, e depois comparam as suas previsões com observações para ver se ela resiste aos testes. Se esses testes se mostrarem negativos, então a teoria será experimentalmente falsificada e os cientistas irão procurar uma nova alternativa. Se, pelo contrário, os testes estiverem de acordo com a teoria, então os cientistas continuarão a mantê-la não como uma verdade provada, é certo, mas ainda assim como uma conjectura não refutada.
Se olharmos para a ciência desta maneira, defende Popper, então veremos que ela não precisa da indução. Segundo Popper, as inferências que interessam para a ciência são refutações, que tomam uma previsão falhada como premissa e concluem que a teoria que está por detrás da previsão é falsa. Estas inferências não são indutivas, mas dedutivas. Vemos que um A é não-B, e concluímos que não é o caso que todos os A são B. Aqui não há hipótese de a premissa ser verdadeira e a conclusão falsa. Se descobrirmos que um certo pedaço de sódio não fica cor-de-laranja quando é aquecido, então sabemos de certeza que não se dá o caso de todo o sódio aquecido ficar cor-de-laranja. Aqui o facto interessante é que é muito mais fácil refutar teorias do que prová-las. Um único exemplo contrário é suficiente para uma refutação conclusiva, mas nenhum número de exemplos favoráveis constituirá uma prova conclusiva.

2. Falsificabilidade

Assim, segundo Popper, a ciência é uma sequência de conjecturas. As teorias científicas são propostas como hipóteses, e são substituídas por novas hipóteses quando são falsificadas. No entanto, esta maneira de ver a ciência suscita uma questão óbvia: se as teorias científicas são sempre conjecturais, então o que torna a ciência melhor do que a astrologia, a adoração de espíritos ou qualquer outra forma de superstição sem fundamento? Um não-popperiano responderia a esta questão dizendo que a verdadeira ciência prova aquilo que afirma, enquanto a superstição consiste apenas em palpites. Mas, segundo a concepção de Popper, mesmo as teorias científicas são palpites — pois não podem ser provadas pelas observações: são apenas conjecturas não refutadas.
Popper chama a isto o “problema da demarcação” — qual é a diferença entre a ciência e outras formas de crença? A sua resposta é que a ciência, ao contrário da superstição, pelo menos é falsificável, mesmo que não possa ser provada. As teorias científicas estão formuladas em termos precisos, e por isso conduzem a previsões definidas. As leis de Newton, por exemplo, dizem-nos exactamente onde certos planetas aparecerão em certos momentos. E isto significa que, se tais previsões fracassarem, poderemos ter a certeza de que a teoria que está por detrás delas é falsa. Pelo contrário, os sistemas de crenças como a astrologia são irremediavelmente vagos, de tal maneira que se torna impossível mostrar que estão claramente errados. A astrologia pode prever que os escorpiões irão prosperar nas suas relações pessoais à quinta-feira, mas, quando são confrontados com um escorpião cuja mulher o abandonou numa quinta-feira, é natural que os defensores da astrologia respondam que, considerando todas as coisas, o fim do casamento provavelmente acabou por ser melhor. Por causa disto, nada forçará alguma vez os astrólogos a admitir que a sua teoria está errada. A teoria apresenta-se em termos tão imprecisos que nenhumas observações efectivas poderão falsificá-la.

3. Ciência e pseudociência

O próprio Popper usa este critério de falsificabilidade para distinguir a ciência genuína não só de sistemas de crenças tradicionais, como a astrologia e a adoração de espíritos, mas também do marxismo, da psicanálise de várias outras disciplinas modernas que ele considera negativamente “pseudociências”. Segundo Popper, as teses centrais dessas teorias são tão irrefutáveis como as da astrologia. Os marxistas prevêem que as revoluções proletárias serão bem-sucedidas quando os regimes capitalistas estiverem suficientemente enfraquecidos pelas suas contradições internas. Mas, quando são confrontados com revoluções proletárias fracassadas, respondem simplesmente que as contradições desses regimes capitalistas particulares ainda não os enfraqueceram suficientemente. De maneira semelhante, os psicanalistas defendem que todas as neuroses adultas se devem a traumas de infância, mas quando são confrontados com adultos perturbados que aparentemente tiveram uma infância normal dizem que ainda assim esses adultos tiveram de atravessar traumas psicológicos privados quando eram novos. Para Popper, estes truques são a antítese da seriedade científica. Os cientistas genuínos dirão de antemão que descobertas observacionais os fariam mudar de ideias, e abandonarão as suas teorias se essas descobertas se realizarem. Mas os marxistas e psicanalistas apresentam as suas ideias de tal maneira, defende Popper, que nenhumas observações possíveis os farão alguma vez modificar o seu pensamento.
David Papineau
Retirado de “Methodology”, in Philosophy: A Guide Through the Subject, 
org. A. C. Grayling (Oxford University Press, 1998)
Tradução de Pedro Galvão


                                            Lola



Karl Popper

  1.  
  2. Karl Popper

  3. Karl Popper (1902-1994) 
  4. Filósofo britânico nascido na Áustria. A sua indiscutível reputação como pensador está fundamentalmente associada à sua filosofia da ciência, mas também às teses que sustentou em filosofia política. Popper partilha com os positivistas lógicos do círculo de Viena o interesse pela distinção entre a ciência e outras atividades, mas opõe-se-lhes ao rejeitar a possibilidade de a ciência ser mais verificável, por exemplo, que a ética ou a metafísica. As suas ideias inovadoras e audaciosas transformaram-no num dos maiores pensadores da filosofia da ciência do século XX.

  5. O problema da indução 
  6. Sobretudo as ciências empíricas recorrem a métodos indutivos, passando de afirmações particulares para afirmações universais-como as hipóteses e as teorias o são. Mas este processo carece de justificação lógica, resultando daqui o chamado problema da indução. Para Popper, a logica da pesquisa científica não é indutiva, mas sim hipotético-dedutiva, uma vez que o princípio da indução leva a inconsistências. Para este o teste de teorias científicas deve basear-se em procedimentos dedutivos.
  7. Popper considera que a indução conduz-nos a inconsistências, propondo em alternativa o processo dedutivo. São deduzidas da teoria afirmações singulares, que Popper chama de previsões. Popper propõe a educação como alternativa á indução, e a falsificação á verificação. “Não devemos aceitar sem qualificação o princípio de tolerar os intolerantes senão corremos o risco de destruição de nós próprios e da própria atitude de tolerância.” 
  8. Karl Popper Questiona o valor preditivo da indução

  9. Que método propõe Karl Popper? 
  10. Para testar a teoria, Popper propõe: Comparação logica das conclusões para testar a consistência interna do sistema; O estudo da forma logica da teoria para averiguar se se trata de uma teoria empírica ou científica; Comparação com outras teorias; A aplicação empírica das conclusões que dela podemos derivar, ou seja, averiguar as novas consequências da teoria.

  11. O problema da Demarcação 
  12. O problema da demarcação, discutido em filosofia da ciência, é o seguinte: qual é o critério que possibilita distinguir ciência de não-ciência? Há pelo menos três critérios a partir dos quais se pode tentar resolver o problema equacionado: 
  13. 1. o critério de verificabilidade;
  14.  2. o critério de confirmabilidade; 
  15. 3. o critério de falsificabilidade. Este último foi proposto por Karl Popper

  16. Karl Popper e o Falsificacionismo 
  17. Uma hipótese é cientifica se puder ser falsificada, se puder ser sujeita a testes e refutada FALSIFICACIONISMO
  18. Para Karl Popper, o problema central da filosofia da ciência reduz-se em grande parte ao problema da demarcação: o que permite distinguir uma teoria cientifica de uma não cientifica? Popper era um realista. Para ele, o realismo significava que o mundo existe e que essa existência é de alguma forma independente de nós. O objetivo da ciência era situar essa realidade. Baseava-se numa teoria que correspondia à verdade, acreditando que esta era possível mas nunca tendo a certeza de ter chegado a esta.

  19. Contributo de Popper Karl Popper contribuiu para o desenvolvimento da “epistemologia evolucionista”. De acordo com esta perspetiva, o conhecimento humano, tal como de qualquer organismo, resulta da adaptação de uma conjetura ao ambiente por intermédio da experiência.

  20. O Falsificacionismo de Popper 
  21. O método apontado por Popper é o da refutação ou falsificação. Popper é da opinião que “o chamado método da ciência consiste neste tipo de crítica”. A falsificabilidade é o critério de demarcação para se considerar uma teoria científica: uma teoria é científica na medida em que se possibilita ser submetida a testes que a refutem.

  22. O método das conjecturas e das refutações 
  23. Aquilo que para todos se mostrava como força da teoria, representava para Popper uma fraqueza. Para este, uma teoria só é científica se for refutável, ou seja, se for possível conceber testes que a declarem falsa. Todo o progresso científico é resultado de um permanente processo de conjecturas e refutações. O progresso da ciência deve ser concebido como aberto a sucessivas reformulações e revoluções.

  24. Critério de validade 
  25. O sistema de Popper tem o mérito de evidenciar o valor provisório da verdade e as deficiências da indução. Tal como o problema da demarcação é o ponto de partida da filosofia da ciência, o princípio metodológico da falsificação é a resposta proposta. Com o critério da demarcação, Popper tem como objetivo mostrar que os cientistas procedem de forma racional e argumentada, aceitando a revisão das suas convicções em função das críticas que recebem.

  26.  “Penso que só há um caminho para a ciência ou para a filosofia: encontrar um problema, ver a sua beleza e apaixonar-se por ele; casar e viver feliz com ele até que a morte vos separe a não ser que encontrem um outro problema ainda mais fascinante, ou, evidentemente, a não ser que obtenham uma solução. Mas, mesmo que obtenham uma solução, poderão então descobrir, para vosso deleite, a existência de toda uma família de problemas-filhos, encantadores ainda que talvez difíceis, para cujo bem-estar poderão trabalhar, com um sentido, até ao fim dos vossos dias.”
  27.  Karl Popper


                                            Lola

Karl Popper


Karl Popper 

O princípio da indução


De acordo com uma tese amplamente aceite - e a que aqui nos oporemos -, as ciênclas empíricas podem caracterizar-se pelo facto de empregarem os chamados métodos indutivos. Segundo esta perspectiva, a lógica da investigação científica seria idêntica à lógica indutiva, ou seja, à análise lógica de tais métodos indutivos.É habitual chamar “indutiva” a uma inferência quando passa de aflrmações singulares (por vezes chamadas “particulares”), tais como descrições dos resultados de observações ou de experiências, para afirmações universais, tais como hipóteses e teorias.Ora bem, de um ponto de vista lógico, está longe de ser óbvio que a inferência de afirmações universais a partir de afirmações particulares, por mais elevado que seja o seu número, esteja justificada; pois qualquer conclusão a que cheguemos por esta via, corre sempre o risco de um dia se tornar faisa: seja qual for o número de exemplares de cisnes brancos que tenhamos observado, isso não justifica a conclusão de que todos os cisnes sejam brancos.A questão de saber se as inferências indutivas estão justificadas, ou sob que condições o estão, é conhecida como o problema da indução.
0 probiema da inducão pode também ser formulado como a questão de saber como estabelecer a verdade de afirmações universais baseadas na experiência, como as hipóteses e os sistemas teóricos das ciências empíricas. Pois multas pessoas acreditam que a verdade destas afirmações universais é “conhecida por experiência”; contudo, é claro que a informação obtida de uma experiência – uma observação ou o resultado da experimentação - pode, em primeiro lugar, ser apenas uma afirmação singular e nunca uma universal. Por isso, aqueles que dizem que sabemos pela experiência a verdade de uma afirmação universal, habitualmente querem dizer que a verdade desta afrmação universal pode de algum modo ser reduzida à verdade de outras afirmações, as quais são singulares, e que sabemos que estas afirmações singulares são verdadeiras pela experiência; o que equivale a dizer que a afirmação universal se baseia na inferência indutiva. Assim, perguntar se há leis naturais que sabemos serem verdadeiras parece ser apenas outra maneira de perguntar se as inferênclas indutivas estão logicamente justificadas.
Mas se queremos encontrar uma maneira de justificar as inferências indutivas, temos antes de mais de tentar estabelecer um princípio de indução. Um princípio de indução seria uma afirmação com a ajuda da qual poderíamos apresentar as ditas inferênclas numa forma logicamente aceitável. Aos olhos dos partidários da lógica indutiva um princípio de indução da maior importância para o método científico: “[…] este princípio, diz Reichenbach, determina a verdade das teorias científicas. Eliminação da ciência significaria nada menos que privá-la do poder de decidir sobre a verdade ou falsidade das suas teorias. É evidente que sem ele a ciência perderia o direito de distinguir as suas teorias das criações fantasiosas e arbitrárias da imaginação dos Poetas” (Erkenntnis 1, 1930, p. 186).
Alguns dos que acreditam na lógica indutiva precipitam-se, juntamente com Reichenbach, a assinalar que “o princípio da indução é aceite sem reservas pela totalidade da ciência e que nenhuma pessoa pode, tão pouco, duvidar seriamente dele na sua vida quotidiana” (Ibidem, p, 67). Supondo, não obstante, que fosse assim - pois, afinal de contas, a “totalidade da ciência”, pode laborar em erro - eu continuaria a defender que o princípio da indução é supérfluo e que leva forçosamente a inconsistências lógicas.
Que facilmente podem surgir inconsistências em conexão com o princípio da induoção deveria ser claro a partir de Hume; e também que so com muita dificuldade podem ser evitadas, se é o que o podem. Pois o principio da indução tem de ser, por sua vez, uma afirmação universal. Assim, se tentarmos encarar a sua verdade como algo que é conhecido com base na experiencia, então os mesmos problemas que motivaram a sua introdução surgirão outra vez. Para o justificar, temos de empregar inferências indutivas; e para justificar estas últimas deveremos ter de pressupor um princípo indutivo de uma ordem superior; e assim por diante. Assim, a tentativa de basear o princípio da indução na experiência não dá em nada, pois tem de conduzir a uma regressão infinita. (…)


Karl Popper, Lógica da Investigação Científica (1959).



Lola

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Karl Popper



Karl Popper (1902-1994)
Como progride a Ciência?


Karl Popper é um filósofo austríaco especialista em epistemologia.
Escreveu obras como: Conjecturas e Refutações e Lógica da Pesquisa Cientifica.
É defensor de uma teoria denominada Falsificacionismo.
Este rejeita o método indutivo porque…
     … a observação é seletiva (os cientistas não observam de forma imparcial e metódica, pois é impossível)
      … a indução não garante a verdade e a cientificidade

critério de demarcação das teorias científicas é a falsificabilidade (o não falseável é pseudociência ou dogma)
Uma teoria científica é tanto melhor quanto maior o seu conteúdo empírico, ou seja, é tanto melhor quanto maior o número de possibilidades de refutação.

O Método Científico segue os seguintes passos:
 - Começa-se com um problema e uma hipótese explicativa.(A teoria tem primado sobre a observação)
- Deduzem-se as consequências da hipótese.
- Testam-se as aplicações empíricas deduzidas.
- Se 
... a previsão não se verificar, a teoria é abandonada (falsificada/refutada).
... a previsão se verificar, diz-se que foi corroborada, pelo que se entende que esta ganha credibilidade, mas não é provada, pois nada sabemos quanto ao futuro.

A verdade de uma proposição universal não é inferível através da investigação científica.
No entanto, quanto mais corroborada, mais verosimilhante.
A ciência é um processo contínuo de conjeturas e refutações.
As teorias científicas são sistemas dedutivos.
A ciência é uma luta contínua pela sobrevivência, em que apenas resistem as teorias não falseadas (mas falseáveis, já que possuem conteúdo empírico).
Novas teorias surgem quando o mundo dos fenómenos dependente da análise o exige.
A Ciência evolui por eliminação de erros, não por acumulação de verdades.
A ciência aproxima-se continuamente da verdade.
A verdade é um ideal regulador, mas as teorias científicas nunca devem ser consideradas verdadeiras.
O rigor do método garante uma aproximação contínua à verdade e à objetividade.
As conjeturas são formas de interrogar a natureza e as melhores teorias são as que se deixam testar, criticar e refutar.
 O progresso científico faz-se através da falsificação de teorias.
A descoberta de teorias científicas não é metódica, porque a ciência não é indutiva, a observação não é objetiva e as teorias são construções do espírito.
O método científico não contempla a verificação de teorias, nem da sua probabilidade.
O facto de serem falseáveis é o que torna as teorias científicas superiores aos dogmas e à pseudociência


Link útil
Karl Popper, Science, and Pseudoscience: CrashCoursePhilosophy #8:



Ideias Centrais

*Critica ao método indutivo
*Critério de Demarcação
*Ciência como processo contínuo
* Falsificacionismo
*A Ciência evolui por conjeturas e refutações
Refutar e não verificar
*Corroboração
Método Hipotético-dedutivo
* Melhoria das teorias pressupõe eliminação de erros
* Teorias devem ser falsificáveis
* Ciência como aproximação sucessiva à verdade
*Verdade como ideal regulador da ciência
*Conhecimento objectivo é possível através do método de falsificação de teorias ou falsificacionismo




                                                Lola

domingo, 6 de maio de 2018

Karl Popper



Karl Popper
Indução e Falsificabilidade


1. Indução

Uma linha de resposta bastante diferente para o problema da indução deve-se a Karl Popper. Popper olha para a prática da ciência para nos mostrar como lidar com o problema. Segundo o ponto de vista de Popper, para começar a ciência não se baseia na indução. Popper nega que os cientistas começam com observações e inferem depois uma teoria geral. Em vez disso, primeiro propõem uma teoria, apresentando-a como uma conjectura inicialmente não corroborada, e depois comparam as suas previsões com observações para ver se ela resiste aos testes. Se esses testes se mostrarem negativos, então a teoria será experimentalmente falsificada e os cientistas irão procurar uma nova alternativa. Se, pelo contrário, os testes estiverem de acordo com a teoria, então os cientistas continuarão a mantê-la não como uma verdade provada, é certo, mas ainda assim como uma conjectura não refutada.

Se olharmos para a ciência desta maneira, defende Popper, então veremos que ela não precisa da indução. Segundo Popper, as inferências que interessam para a ciência são refutações, que tomam uma previsão falhada como premissa e concluem que a teoria que está por detrás da previsão é falsa. Estas inferências não são indutivas, mas dedutivas. Vemos que um A é não-B, e concluímos que não é o caso que todos os As são Bs. Aqui não há hipótese de a premissa ser verdadeira e a conclusão falsa. Se descobrirmos que um certo pedaço de sódio não fica laranja quando é aquecido, então sabemos de certeza que não é o caso que todo o sódio aquecido fica laranja. Aqui o facto interessante é que é muito mais fácil refutar teorias do que prová-las. Um único exemplo contrário é suficiente para uma refutação conclusiva, mas nenhum número de exemplos favoráveis constituirá uma prova conclusiva.


2. Falsificabilidade
Assim, segundo Popper, a ciência é uma sequência de conjecturas. As teorias científicas são propostas como hipóteses, e são substituídas por novas hipóteses quando são falsificadas. No entanto, esta maneira de ver a ciência suscita uma questão óbvia: se as teorias científicas são sempre conjecturais, então o que torna a ciência melhor do que a astrologia, a adoração de espíritos ou qualquer outra forma de superstição sem fundamento? Um não-popperiano responderia a esta questão dizendo que a verdadeira ciência prova aquilo que afirma, enquanto que a superstição consiste apenas em palpites. Mas, segundo a concepção de Popper, mesmo as teorias científicas são palpites — pois não podem ser provadas pelas observações: são apenas conjecturas não refutadas.
Popper chama a isto o "problema da demarcação" — qual é a diferença entre a ciência e outras formas de crença? A sua resposta é que a ciência, ao contrário da superstição, pelo menos é falsificável, mesmo que não possa ser provada. As teorias científicas estão formuladas em termos precisos, e por isso conduzem a previsões definidas. As leis de Newton, por exemplo, dizem-nos exactamente onde certos planetas aparecerão em certos momentos. E isto significa que, se tais previsões fracassarem, poderemos ter a certeza de que a teoria que está por detrás delas é falsa. Pelo contrário, os sistemas de crenças como a astrologia são irremediavelmente vagos, de tal maneira que se torna impossível mostrar que estão claramente errados. A astrologia pode prever que os escorpiões irão prosperar nas suas relações pessoais à quinta-feira, mas, quando são confrontados com um escorpião cuja mulher o abandonou numa quinta-feira, é natural que os defensores da astrologia respondam que, considerando todas as coisas, o fim do casamento provavelmente acabou por ser melhor. Por causa disto, nada forçará alguma vez os astrólogos a admitir que a sua teoria está errada. A teoria apresenta-se em termos tão imprecisos que nenhumas observações actuais poderão falsificá-la.

3. Ciência e pseudociência
O próprio Popper usa este critério de falsificabilidade para distinguir a ciência genuína não só de sistemas de crenças tadicionais, como a astrologia e a adoração de espíritos, mas também do marxismo, da psicanálise de várias outras disciplinas modernas que ele considera negativamente como "pseudo-ciências". Segundo Popper, as teses centrais dessas teorias são tão irrefutáveis como as da astrologia. Os marxistas prevêm que as revoluções proletárias serão bem sucedidas quando os regimes capitalistas estiverem suficientemente enfraquecidos pelas suas contradições internas. Mas, quando são confrontados com revoluções proletárias fracassadas, respondem simplesmente que as contradições desses regimes capitalistas particulares ainda não os enfraqueceram suficientemente. De maneira semelhante, os teóricos psicanalistas defendem que todas as neuroses adultas se devem a traumas de infância, mas quando são confrontados com adultos perturbados que aparentemente tiveram uma infância normal dizem que ainda assim esses adultos tiveram que atravessar traumas psicológicos privados quando eram novos. Para Popper, estes truques são a antítese da seriedade científica. Os cientistas genuínos dirão de antemão que descobertas observacionais os fariam mudar de ideias, e abandonarão as suas teorias se essas descobertas se realizarem. Mas os teóricos marxistas e psicanalistas apresentam as suas ideias de tal maneira, defende Popper, que nenhumas observações possíveis os farão alguma vez modificar o seu pensamento.



David Papineau"Methodology" em A. C. Grayling (org.),

 Philosophy: A Guide Through the Subject,
 Oxford University Press, 1998



   Tradução de Pedro Galvão



1. Porque é que, segundo Popper, a Ciência não é indutiva?

2.  Que método propõe para  explicar a lógica das teorias científicas?

3. O que se entende Popper por critério de demarcação?

4. Distinga Ciência e pseudociência?





                                            Lola

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...