domingo, 20 de fevereiro de 2022

Senso Comum e Conhecimento Cientifico: Textos




Senso Comum e Conhecimento Cientifico: 

Textos


Texto — O senso comum

Estamos bem equipados para a vida quotidiana com sentidos que nos dão informação sobre muitos aspetos do mundo que nos afetam diretamente. Podemos ver o tigre emboscado na savana e ouvir a sua cauda a agitar-se no ar. Sobretudo, podemos transmitir informação através da linguagem: podemos gritar para que os outros saibam onde se esconde o tigre e podemos dizer aos nossos filhos onde é que os tigres costumam esconder-se. Estas capacidades evoluíram de modo a permitir que animais como nós sobrevivessem e, se elas não fossem minimamente certas, a nossa espécie não teria conseguido sobreviver. É claro que há muitos aspetos perigosos que escapam aos nossos sentidos: [por exemplo,] não nos apercebemos de radiações que podem provocar-nos cancro […]. Apesar disso, muitas culturas humanas continuaram por muitas gerações sem sentirem que era preciso alterar o que sabiam sobre o mundo. 

O senso comum é o conjunto de capacidades para reunir conhecimento e tomar decisões e de crenças partilhadas que permite às pessoas resolverem os problemas da vida quotidiana. Obviamente, este conjunto varia, dentro de certos limites, de uma época e um lugar para outra época e outro lugar, mas talvez varie bastante menos do que habitualmente supomos, porque há um conhecimento de base muito vasto que todos estamos predispostos a descobrir através da psicologia humana normal. A esta categoria pertence muito do que é designado por “psicologia popular”, [isto é,] as capacidades e as crenças usadas pelos seres humanos para compreenderem as ações e os motivos dos outros. Isto é muito importante para o senso comum, pois a competência para interpretar os outros permite que as comunidades floresçam e que a informação seja transmitida e preservada no seu interior, constituindo o ponto de partida do conhecimento comum. Sem esta competência, cada ser humano estaria sozinho de facto, apenas podendo contar com a sua própria experiência para adquirir conhecimento.

Adam Morton, “Common sense”, in D. Papineau (ed.), 

Western Philosophy – An Illustrated Guide,  Oxford, 

Oxford University Press, 2004, p. 102


Texto — A ciência na nossa vida

 

Se ninguém se tivesse dedicado de uma maneira sistemática à investigação empírica da natureza, hoje não beneficiaríamos dos muitos avanços tecnológicos que caracterizam os nossos estilos de vida, como a vacinação, as medidas preventivas para os terramotos e os telemóveis.

Quase tudo o que nos rodeia – o vestuário, os alimentos, os edifícios – não estaria aqui (pelo menos na sua forma atual) se não tivesse havido pessoas a investir o seu precioso tempo e os seus poucos recursos a fazer ciência.

E, no entanto, a investigação científica não tem afetado apenas o estilo de vida de muitos seres humanos. Os seus resultados também moldaram as nossas crenças sobre o mundo, ao alterarem o que pensamos sobre nós próprios e sobre as diferenças entre os seres humanos e outros seres vivos na Terra. Influenciando os nossos sistemas de crenças, elementos importantes do chamado método científico alimentaram o estilo e a forma da nossa maneira quotidiana de pensar. Acreditamos que a racionalidade exige que prevejamos acontecimentos futuros com base nos conhecimentos atuais. Valorizamos explicações para os acontecimentos que observamos se estas forem abrangentes e consistentes com os indícios disponíveis. Quando nos deparamos com problemas, encontramos soluções que se baseiam na nossa experiência passada e, com o tempo, vamo-nos tornando melhores a resolvê-los. Até mudamos de ideias quando a experiência não apoia as nossas crenças iniciais. Ainda que raramente ou nunca reflitamos sobre a forma como formamos opiniões e explicamos os factos que são para nós importantes, registamos informações, aprendemos com os nossos erros, revemos as nossas crenças e melhoramos o poder preditivo e explicativo das nossas teorias. Num sentido fraco, todos somos – ou tentamos ser – cientistas no dia a dia.

Lisa Bortolotti, Introdução à Filosofia da Ciência, 

Lisboa, Gradiva, 2013, pp. 13-14


Texto  — Galileu e o método científico

 

É impossível exagerar a importância de Galileu no estabelecimento do método científico para a investigação do mundo. […]

Foi Galileu quem estabeleceu a noção de experiências científicas, bem como a ideia de testar hipóteses sujando as mãos ao investigar o mundo […]. Esta abordagem experimental foi entusiasticamente abraçada por Isaac Newton e, muito antes do final do século XVII, foi adotada como o método científico. Tudo o mais – da lei da gravidade à física quântica, dos buracos negros à compreensão da estrutura do ADN e do código genético – se seguiu a partir dessa altura.

Tal como Stephen Hawking afirmou:

Galileu, possivelmente mais do que qualquer outro indivíduo, foi responsável pelo nascimento da ciência moderna. Ele foi um dos primeiros a defender que o Homem podia aspirar a compreender o modo como o mundo funciona e, mais importante ainda, que poderíamos fazer isso através da observação do mundo real.

John e Mary Gribbin, Galileu em 90 Minutos, 

Mem Martins, Editorial Inquérito, 1997, pp. 71-74

 

Texto  — Newton e a ciência moderna

Isaac Newton foi o maior cientista de todos os tempos. Apesar de os primeiros passos terem sido dados por Galileu Galilei, foi Newton quem aperfeiçoou a técnica moderna da investigação científica, no âmbito da qual as ideias são testadas e aperfeiçoadas com base na experiência, e não elaboradas a partir do nada, sob a forma de especulações mais ou menos inspiradas.

Apesar de as descobertas e invenções diretas de Newton no campo da ciência terem sido notáveis – ele descobriu a lei da gravidade e as leis do movimento, fez progressos importantes na compreensão da luz, concebeu e construiu com as suas próprias mãos um novo tipo de telescópio e inventou a técnica matemática do cálculo –, foi a sua forma de fazer ciência que tanto tornou isto tudo possível como transformou a investigação do mundo natural.

Newton tinha uma noção bastante clara da importância que a sua abordagem tinha para a ciência e do modo como esta diferia da abordagem adotada pela maioria dos seus contemporâneos

Uma vez, escreveu:

O modo mais correto e mais seguro de filosofar parece ser, em primeiro lugar, investigar de forma diligente as propriedades das coisas e determinar as referidas propriedades através de experiências e, em seguida, avançar lentamente para a colocação de hipóteses, que expliquem as ditas propriedades. Porque, na verdade, as hipóteses só deverão ser empregadas para explicar as propriedades das coisas mas nunca para determiná-las; a não ser na medida em que elas possam fundamentar experiências.

Este é o cerne da ciência moderna. Ou seja, se a ideia predileta de alguém sobre a natureza do mundo não estiver de acordo com os resultados da experiência, então é porque está errada. […]

Em grande medida graças à sua abordagem científica dos problemas e ao seu intelecto superior, Newton fez desaparecer a necessidade de invocar a magia ou o sobrenatural para explicar o funcionamento do Universo. Apesar de Nicolau Copérnico ter sugerido que a Terra girava à volta do Sol e de Galileu ter reunido uma série de indícios que provavam que era assim que real- mente sucedia, antes de Newton ninguém sabia o que conservava os planetas nas suas órbitas ou o que mantinha as estrelas na sua posição no céu. Com efeito, foi Newton quem demonstrou que o Universo funciona segundo normas ou leis precisas. Os movimentos dos planetas e dos cometas – e, indiretamente, até mesmo das estrelas – podiam ser explicados pelas mesmas leis que se aplicavam à queda de uma maçã ou ao voo de uma bala de canhão aqui na Terra.

A lei da gravitação e as leis do movimento são leis universais que se aplicam em todo o lado e em todos os momentos. […]

O trabalho de Newton tornou claro que […] o Universo obedece a leis simples, que são inteligíveis para a mente humana. São estas leis simples que interagem entre si de forma a gerar a complexidade do mundo que vemos à nossa volta. E essa perceção, juntamente com o método experimental, constitui o fundamento de toda a ciência moderna.

John e Mary Gribbin, Newton em 90 Minutos, 

Mem Martins, Editorial Inquérito, 1997, pp. 7-1


Texto — O Método Experimental

 

Um dos mais importantes traços distintivos da ciência moderna, quando comparada com a ciência de períodos anteriores, é a sua ênfase naquilo a que se chama “método experimental”. […] Todo o conhecimento empírico depende […] de observações, mas estas observações podem ser obtidas de duas formas muito diferentes. Na forma não experimental, desempenhamos um papel passivo. Limitamo-nos a olhar para as estrelas ou para algumas flores, a reparar em semelhanças e diferenças, e a tentar descobrir regularidades que possam ser expressas como leis. Na forma experimental, desempenhamos um papel ativo. Em vez de sermos espetadores, fazemos uma coisa que produzirá resultados observacionais melhores do que aqueles que obtemos quando apenas nos limitamos a olhar para a natureza. Em vez de esperarmos que a natureza nos apresente casos para nós observarmos, tentamos criar tais casos. Numa palavra, fazemos experiências.

O método experimental tem sido extraordinariamente produtivo. O impressionante progresso da Física nos últimos duzentos anos, sobretudo nas décadas mais recentes, não teria sido possível sem o método experimental. Dito isto, é legítimo perguntar: por que razão não é o método experimental aplicado em todos os ramos da ciência? Em alguns ramos, não é tão fácil de aplicar como é na Física. Na Astronomia, por exemplo, não podemos empurrar um planeta numa certa direção para ver o que lhe acontecerá. Os objetos astronómicos não estão ao nosso alcance; apenas podemos observá-los e descrevê-los. […]

Razões completamente diferentes impedem os cientistas sociais de fazerem experiências com grupos alargados de pessoas. Os cientistas sociais fazem experiências com grupos, mas habitualmente são grupos restritos. […]

Há obstáculos às experiências nas ciências sociais até nos casos em que os cientistas estão convencidos de que nenhum dano social proviria da realização das experiências. O cientista social está, em geral, limitado àquilo que pode aprender a partir da História e a partir de experiências com indivíduos ou com grupos restritos.

Rudolf Carnap, Uma Introdução à Filosofia da Ciência, 

Nova Iorque, Dover, 1995, pp. 40-41

 

A RELAÇÃO ENTRE A CIÊNCIA E O SENSO COMUM – DESCONTINUIDADE OU CONTINUIDADE?

 

A humanidade, desde os seus primórdios, progrediu apenas com o senso comum. Os desenvolvimentos  do  período  pré-histórico  e  todas  as  civilizações  antigas  devem-se  ao  senso  comum.               

A ciência é uma realização muito recente. O espírito científico surgiu na Grécia dos séculos VII-VI a. C.,   e a ciência como a conhecemos hoje – a ciência moderna – teve o seu início no Renascimento, consolidando-se nos séculos seguintes.

O surgimento da ciência representa um desenvolvimento do senso comum, ou constitui uma nova forma de compreensão, oposta ao senso comum? 

Será a ciência um tipo de conhecimento desenvolvido na continuidade do senso comum, ou será a ciência um tipo de conhecimento desenvolvido contra o senso comum?

1. Os argumentos dos defensores da hipótese da descontinuidade

Os erros do senso comum são frequentes e os procedimentos do senso comum favorecem a persistência dos erros.

Os erros frequentes do senso comum têm origem na predominância de induções precipitadas e de analogias fundadas em semelhanças irrelevantes. Além disso, os princípios do senso comum assentam em evidências factuais superficiais. Por exemplo, interpretando a anemia como uma falta de cor no sangue, formou-se a convicção de que a ingestão de morangos podia curar a anemia.

Face a evidência contrária às crenças existentes, o senso comum compatibiliza os dados factuais novos com essas crenças, considerando que tais dados são irrelevantes, ou que são exceções que confirmam a regra. Por exemplo, a crença segundo a qual “todos os políticos são exclusivamente movidos pela ambição pessoal” poderá ser mantida, ainda que exista um político cujas ações mostrem ausência de ambição pessoal. O comportamento desse político pode ser interpretado como o comportamento de alguém que verdadeiramente não é um político. As suas ações poderão se interpretadas como ações que no fundo também são justificadas por ambição pessoal. A compatibilização também poderá ser conseguida pelo apelo ao princípio da exceção que confirma a regra.

Em contrapartida, na ciência existe uma metodologia de revisão das crenças que favorece a eliminação do erro. A contrastação empírica das hipóteses, a exigência de compatibilidade entre as diferentes teorias e a cultura crítica são três aspetos dessa metodologia. 

Os hábitos mentais do senso comum são anti científicos e constituem um obstáculo ao pensamento científico. O senso comum coleciona convicções desorganizadas sobre a Natureza e o mundo, aceita as conclusões de raciocínios indutivos selvagens, assenta em evidências superficiais e no testemunho não examinado, aceita a contradição entre os dados factuais e as conclusões gerais.

Verificando-se uma oposição entre ambos, não é possível compreender como se faria uma transição gradual do senso comum para a ciência. Ao contrário, o desenvolvimento do raciocínio científico exige a rutura com os hábitos mentais do senso comum.

A hipótese da continuidade entre o senso comum e a ciência parece ser favorecida pela continuidade da história, concebida como uma sucessão de acontecimentos, entre os quais se encontrariam as descobertas científicas. Segundo a hipótese da continuidade, a ciência e as descobertas científicas emergiriam gradualmente do senso comum, do mesmo modo que, nos Estados, instituições sociais mais justas emergem de instituições sociais menos justas. Mas é errado derivar o caráter contínuo das descobertas científicas do caráter contínuo da história, afirmamos defensores da hipótese da descontinuidade. As descobertas científicas não constituem um avanço em relação a uma forma de conhecimento mais primitiva, tal como muitas mudanças sociais não constituem um simples avanço em relação a um modelo social mais primitivo. Por exemplo, a monarquia não prepara a república, nem a república é um avanço a partir da monarquia: a instituição da república representa uma rutura com a monarquia. Igualmente, a sucessão das descobertas científicas é uma sucessão de ruturas quer com as convicções do senso comum, quer com os hábitos mentais do senso comum


2. Os argumentos dos defensores da hipótese da continuidade

A humanidade sobreviveu e prosperou com o senso comum. As tecnologias tradicionais, as descrições da Natureza e do mundo feitas antes do desenvolvimento da ciência e a sofisticação das civilizações clássicas mostram que o senso comum assegura a nossa compreensão do mundo.

Muitos filósofos recordam-nos que os erros do senso comum são frequentes, mas os erros da ciência também são frequentes. Se a existência de erros num processo de produção de conhecimento fosse uma razão suficiente para recusá-lo, ou para nos tornarmos céticos, teríamos de recusar tanto o senso comum como a ciência.

Poderíamos, por precaução, dizer que os erros do senso comum são mais frequentes e mais clamorosos do que os erros da ciência. Mas não é claro que assim seja.

Consideremos a convicção de senso comum segundo a qual a Terra permanece imóvel, enquanto o Sol viaja de oriente para ocidente. Se a tomarmos como uma descrição do sistema solar, esta convicção é errada. Todavia, se a tomarmos como uma orientação para o nosso comportamentoela é um conhecimento valioso, apesar da sua imprecisão. Se nos perdermos, poderemos guiar-nos pelo movimento do Sol. Decidir a direção a tomar foi o uso que os nossos antepassados deram à evidência de que o Sol viaja de oriente para ocidente. Os nossos antepassados teriam errado bastante mais se não tivessem observado o movimento do Sol, nem tivessem inferido a sua regularidade.

O senso comum, ou o bom senso, é a competência para considerar a evidência. A ciência resultado desenvolvimento da nossa competência para considerar e obter a evidência. A evidência científica é considerada e obtida metodicamente.

Os cientistas necessitam da evidência empírica para testarem as suas teorias, mas escolhem e preparam as condições mais adequadas para obtê-la: conduzem as suas experiências em laboratório, selecionam e controlam as variáveis, medem e quantificam os resultados, utilizam métodos matemáticos na análise dos resultados, recorrem a instrumentos sofisticados de observação, ampliando os seus sentidos. Além disso, os cientistas analisam as consequências das suas teorias e verificam a sua compatibilidade com as outras teorias e com aquilo que sabem acerca do mundo, ou seja, consideram sistematicamente a evidência disponível. Deste modo, o seu sentido de evidência é mais apurado do que o do homem comum.  


(O sublinhado é nosso)


Lola

 

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