Jean-Paul Sartre
A Idade da Razão – Sartre: Que é o homem? Que é a
moral?
Jean-Paul Sartre, filósofo, romancista e
dramaturgo
O romance A Idade da Razão, publicado por Jean-Paul Sartre em 1946, é uma obra de cunho filosófico-existencialista que trata da
problemática da liberdade, da consciência e da moralidade na constituição do
homem, através da história de Mathieu Delarue, um professor de filosofia que,
por defender a ideia de uma liberdade individual irrestrita, despreza qualquer
tipo de compromisso. A narrativa se passa em Paris, às vésperas da Segunda
Guerra Mundial, e tem como foco o relacionamento entre Mathieu e sua
companheira Marcelle. Com este ensaio, faremos uma articulação entre a
problemática do ser e uma análise crítica do romance, abordando conceitos da
ontologia fenomenológica e da filosofia existencialista propostas por Sartre,
partindo da primeira indagação contida no título desta reflexão – que é o
homem?, para que, a partir de então, possamos responder a segunda – que é a
moral?
O livro apresenta aos leitores alguns
dias da vida de Mathieu, no período em que o personagem recebe a notícia de que
sua namorada Marcelle está grávida. Não querendo ser pai por acreditar que ser
livre consiste em não se comprometer com nada, ele passa a buscar alternativas
para a resolução do problema, uma vez que a paternidade implicaria em assumir a
sua companheira e ter responsabilidades diante do filho. Tal concepção de
liberdade exerce forte influência em sua vida cotidiana, uma vez que ele não
assume sua namorada, resiste ao fato de ser pai, possui poucos amigos e não se
engaja em movimentos políticos e sociais, dentre outras condutas da mesma
natureza. Desse modo, a narrativa desenvolve-se de tal maneira que a sua ideia
de liberdade defronta-se constantemente com o que a liberdade é na sua
realidade, realidade esta que, no romance, reflete o conceito de liberdade
proposto por Sartre ao longo de sua vasta obra filosófica.
“Bem, a tua famosa lucidez. Tu és
divertido, meu velho. Tens um medo tão grande de te iludir a ti próprio que
recusarias a mais bela aventura do mundo para não te arriscares a uma
mentira…”: a fala de Marcelle, que aparece em uma de suas conversas com Mathieu,
ilustra a conduta cuidadosa e calculista do companheiro, que sempre busca um
distanciamento daquilo que lhe é estranho em defesa da cotidianidade
estabelecida. Desse modo, o personagem tem uma vida previsível, sem muitas
emoções e com poucos riscos, em benefício da sua ideia de que ser livre é não
se comprometer. Contudo, com o desencadear dos fatos, tal concepção por ele
pensada passa a contradizer-se com aquilo que ele observa na sua vida e passa a
modificar-se.
“És livre. Mas para que te serve a liberdade, senão para tomar uma posição?
Levaste trinta e cinco anos na limpeza, e o resultado dela é o vácuo. És um
corpo estranho, sabes?”2. Na articulação de Brunet direcionada a Mathieu, seu amigo de longa data,
observa-se um forte traço do existencialismo sartriano, posto que, se a
existência precede a essência, é somente através da projeção da sua vontade no
mundo, isto é, do seu engajamento, que o homem pode se definir como sendo algo.
Se, para Mathieu, ser livre significa não se engajar, ele se encontra numa
postura de má-fé, uma vez que, ao agir assim, ele já se
encontra engajado num projeto: o de ser inteiramente livre. Noutras palavras, é
impossível se falar em uma liberdade que não carregue o engajamento e a
responsabilidade em seu âmago. “Renunciaste a tudo para ser livre. Dá mais um
passo, renuncia à própria liberdade. E tudo te será devolvido.”, escreve o
autor. Com isso, Brunet, personagem que traduz fortemente a compreensão
existencialista de liberdade, quer dizer que a liberdade não precisa ser
entendida como um fim para que possa existir, posto que ela é a condição
ontológica do homem e nada pode ofuscá-la.
Para a realidade
humana, ser é escolher-se: nada lhe vem de fora, nem tampouco de dentro, que
possa receber ou aceitar. Está inteiramente abandonada, sem auxílio de nenhuma
espécie, à insustentável necessidade de se fazer ser até ao mais ínfimo
pormenor. Assim, a liberdade não é um ser: é o ser do homem, quer dizer, o seu
nada de ser. (…) O homem não pode ser ora livre, ora escravo; ele é inteiramente
e sempre livre, ou não é. [SARTRE, O ser e o nada: ensaio de fenomenologia
ontológica].
“Talvez não possa ser de outro modo;
talvez seja preciso escolher: não ser nada ou representar o que é. Isso seria
terrível, essa trapaça com a nossa própria natureza”. Ao fazer essa reflexão,
Mathieu aborda uma condição intransponível do homem: o nada. A consciência,
enquanto um ser “para si”, só existe na medida em que existem as coisas, os
seres “em si”, uma vez que, partindo do pensamento husserliano, toda consciência
é consciência de alguma coisa. Isto é, não existe uma consciência que não seja
imbricada com o mundo. O “para si” caracteriza-se pela sua negatividade, pela
sua possibilidade de ser, que sempre busca
atingir a positividade do “em si”, o que é impensável, pois justamente por não
ser um “em si” a consciência torna-se possível.
A condição é uma
representação para os outros e para mim, o que significa que só posso sê-la em
representação. Porém, precisamente, se represento, já não o sou: acho-me separado
da condição tal como o objeto do sujeito – separado por nada, mas um nada que
dela me isola, impede-me de sê-la, permite-me apenas julgar sê-la, ou seja,
imaginar que sou. Por isso, impregno de nada essa condição [SARTRE, O ser e o
nada: ensaio de fenomenologia ontológica].
O homem projeta-se no mundo e cria uma
imagem de si, imagem esta que é um objeto tal qual qualquer outro, um “em si”.
Isto é, tal representação de modo algum revela a verdade do ser, posto que este
ser é um nada, uma vez que o homem é uma questão para si próprio. Não existe
nada de anterior a escolha, a não ser a estrita liberdade. O homem é o
que é porque se faz de determinado modo, e não o
contrário, isto é, faz-se de certo jeito porque é de determinado modo. Nesse
sentido, o homem encontra-se só e sem desculpas, inteiramente responsável pelo
seu ser e sem critérios a priori que possam nortear suas escolhas; somente a
ele cabe estabelecer tais critérios.
Aqui, podemos pensar numa moral pautada
na existência concreta do homem, sem o uso de ferramentas metafísicas. Não
havendo valores inscritos na eternidade, o homem é sempre conclamado a pôr em
questão a moralidade, pois esta só adquirirá sentido se compreendida em seu
espírito, se entendida como relevante para a existência humana, pois, se não
for, torna-se perfeitamente dispensável. O homem que credita a sua conduta
moral a fatores externos age de má-fé, pois não existe nada que possa eximi-lo
da tarefa de escolher por essa ou aquela escala de valores.
Diante da gravidez de Marcelle, nada de
externo pode vir em auxílio a Mathieu para decidir por ele o que escolher.
Sendo um sujeito que preza pelo descompromisso, logo de imediato pensa que a
melhor solução é o aborto, pois assim não tem de se casar com ela e nem se
responsabilizar diante do filho. Contudo, ao mesmo tempo em que valoriza o
descompromisso, ele também gosta de Marcelle e não quer que ela passe a
odiá-lo. O que fazer nesta situação? Teria ele de medir os valores, para que,
depois de então, pudesse dar um veredito? Poderia ele perguntar-se: “o que mais
prezo: minha liberdade ou Marcelle”? Mas como é possível definir tal medida?
Para que possamos afirmar que um valor é maior do que este ou aquele outro, é
preciso escolher. Nessa perspectiva, o homem encontra-se na sua angústia, pois,
sem fundamentos prontos para a sua escolha, ele tem de fazer-se. Só depois da
escolha o valor é afirmado, sendo a angústia o que é anterior a essa escolha.
Escolher ser isto ou
aquilo é afirmar ao mesmo tempo o valor do que escolhemos, porque nunca podemos
escolher o mal, o que escolhemos é sempre o bem, e nada pode ser bom para nós
sem que o seja para todos. [SARTRE, O Existencialismo é um Humanismo].
Se ao escolhermos algo criamos um modelo
de homem que outros podem seguir, de imediato tornamo-nos responsáveis também
por todos os homens; eis o princípio de uma moral existencialista. Por
buscarmos sempre o bem, estamos constantemente anunciando caminhos,
jurisprudências, que outros podem seguir e, levando em consideração que o homem
necessita dos outros para definir-se enquanto representação, o cuidado ao abrir
tais caminhos apresenta-se como essencial. Noutras palavras, é pensando em si
que o homem deve construir a moral, sem que, por outro lado, caia num
solipsismo, pois o olhar do outro sempre carrega um segredo a seu respeito.
Lola
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