Jean-Paul Sartre
O problema do ser em Jean-Paul Sartre
Fortemente
influenciado pelo pensamento de Heidegger e Husserl, Sartre, ao desenvolver sua
fenomenologia existencial, assume importante papel na compreensão da
consciência e do ser em sua totalidade, e para melhor compreendermos a sua
filosofia, é fundamental que entendamos, antes de qualquer coisa, alguns de
seus principais conceitos.
Jean-Paul Sartre,
influente filósofo existencialista do século XX
Para Sartre, a realidade humana pode ser
compreendida como um constante fazer-se. Não há nada que possa satisfazê-la
inteiramente, pois a incompletude é sua própria substância, de modo que a
liberdade é sua essência, visto que o que define um indivíduo são suas
escolhas; desse ponto de vista, verificamos que, em Sartre, podemos descartar a
ideia de uma personalidade em si mesma, posto que o ser enquanto
ser é um nada de ser. A liberdade, para o
pensador francês, não pode ser concebida da mesma forma que as demais
características do ser, mas sim como o fundamento de todas elas; portanto, está
contida no âmago do ser. Não há nada que justifique essa ou aquela ação, a não
ser a própria liberdade, o que confere ao homem a total
responsabilidade diante de seus atos.1
“Para a realidade
humana, ser é escolher-se: nada lhe vem de fora, nem tampouco de dentro, que
possa receber ou aceitar. Está inteiramente abandonada, sem auxílio de nenhuma
espécie, à insustentável necessidade de se fazer ser até ao mais ínfimo
pormenor. Assim, a liberdade não é um ser: é o ser do homem, quer dizer, o seu
nada de ser. (…) O homem não pode ser ora livre, ora escravo; ele é
inteiramente e sempre livre, ou não é.” – [Sartre, J.-P., O Ser e o Nada].
Portanto, podemos concluir que Sartre
contrapõe-se às noções deterministas tanto internas, negando, desta forma, a
teoria psicanalítica, no que diz respeito às determinações inconscientes que
norteariam a vida consciente de um indivíduo, como externas, desconsiderando,
além das influências metafísicas, as condições econômicas e sociais que, embora
possam exercer certa influência, não são determinantes na vida de um indivíduo.
“Assim, a liberdade não é um ser: é o ser do homem, quer dizer, o seu nada
de ser.”Ao lermos esta frase, podemos lançar a seguinte pergunta: o que seria este
nada de ser? Para responder esta pergunta, é fundamental que apresentemos os
conceitos de ser-Em-si e ser-Para-si:
O Em-si é tudo aquilo que possui essência definida, ou seja, todo o tipo de
representação objetiva existente. Assim, podemos dizer que um homem é um
ser-Em-si para os outros, já que estes só têm
acesso ao que é objetivado. Para o outro, não há outro modo de
captá-lo senão do mesmo modo que se capta a realidade de uma porta, de uma
cadeira ou de uma mesa; isto é, através do que é manifestado objetivamente.
Já o Para-si pode ser definido como a relação do ser consigo próprio, na medida em
que é consciência de ser. O ser enquanto ser resume-se a ser infinidade de possibilidades e conflito
de sentimentos; representa-se, para si próprio, como um vir-a-ser,
que ainda não é; ou seja, nada mais é que um nadade
ser.2
“A condição é uma
representação para os outros e para mim, o que significa que só posso sê-la em
representação. Porém, precisamente, se represento, já não o sou: acho-me
separado da condição tal como o objeto do sujeito – separado por nada, mas um
nada que dela me isola, impede-me de sê-la, permite-me apenas julgar sê-la, ou
seja, imaginar que sou. Por isso, impregno de nada essa condição”. [Ibid.]
Transpondo para um ponto de vista mais
pragmático, podemos constatar as conclusões sartrianas na frequente e perene
insatisfação do homem que, na tentativa de atingir um ser pleno e dotado de
pura positividade – um Em-si -, age de forma incessantemente. Como todas as suas
tentativas fracassam, já que, como vimos, o Em-si só pode ser apreendido
pelo outro, ele tenta novamente e, de novo,
fracassa; desta forma, a plenitude nunca é alcançada e este ciclo de movimento
nunca cessa.
“O ser da consciência
não coincide consigo mesmo em uma adequação plena… A característica da
consciência é que ela é uma descompressão do ser. É impossível, com efeito,
defini-la como coincidência consigo própria. Desta mesa, posso dizer que ela é
pura e simplesmente esta mesa. Mas de minha crença (por exemplo), não me posso
limitar a dizer que é crença: minha crença é consciência de crença.” [Ibid.]
Assim sendo, essa descompressão de ser é
o fundamento do agir humano na medida em que é o fundamento da própria
consciência. Somente um ser desprovido de consciência pode estar em
coincidência consigo mesmo, pois ele apenas é, sem que, por outro lado, se constitua como consciência de si. Essa não
consciência de ser gera uma compressão de ser infinita, dado que o fato de
ser sem fundamentar-se condiciona a
coincidência consigo mesmo. Por outro lado, o ser que, além de ser,
fundamenta-se, isto é, constitui-se como consciência de si, torna-se incapaz de
coincidir consigo próprio, pois a estrutura de ser e a estrutura que o fundamenta se anulam, restando ao
ser apenas o seu próprio nada, ou seja, a sua descompressão de ser de forma
manifesta.
Deste modo, com as estruturas
ontológicas apresentadas aqui, captamos a própria essência do agir humano, ao
passo que o homem entende-se, mesmo que subjetivamente, como sendo um nada de
ser, e a partir desta compreensão, passa a projetar-se nos outros, buscando
coletar fragmentos para a formação de uma representação própria; no
entanto, como vimos anteriormente,
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