sábado, 26 de março de 2022

Filosofia da Arte: os interditos


 Filosofia da Arte: os interditos


«O mundo da arte não requer procedimentos rígidos; admite e até encoraja a frivolidade e o capricho sem pôr em causa o seu propósito sério. Contudo, se não é possível cometer um erro na atribuição de estatuto envolvida na produção da arte, é possível cometer um erro ao conferir o estatuto de candidato à apreciação. Ao conferir um tal estatuto a um objeto, assume-se uma certa responsabilidade pelo objeto no seu novo estatuto. Apresentar um candidato à apreciação coloca-nos sempre perante a possibilidade de ninguém o apreciar e que em virtude disso a pessoa responsável pela atribuição perca a credibilidade. É possível fazer uma obra de arte a partir da orelha de uma porca, mas isso não a torna necessariamente uma bolsa de seda.»

         George Dickie, Introdução à Estética, 

Bizâncio, Lisboa, 2008, pp. 136-137.


1917 - Associação dos Artistas Independentes de Nova York

A “Fonte” é considerada por muito críticos a maior obra do século 20.

O que é arte? O que define um artista? 

As respostas para essas perguntas foram abaladas em 1917, quando o francês Marcel Duchamp trouxe um mictório (ou urinol) assinado como R. Mutt, para uma exposição da Associação dos Artistas Independentes de Nova York. 

A condição para expor era simples: pagar 6 dólares de inscrição. Os membros da associação só não esperavam por Fonte, algo que Duchamp chamaria de ready-made (“já pronto”). Objetos banais transformados em arte. A reação do conselho da associação, do qual Duchamp fazia parte, veio nesta declaração: “Pode ser um objeto muito útil em seu lugar, mas seu lugar não é em uma exposição de arte e ele não é, de forma alguma, uma obra de arte”.

O francês renunciou ao grupo. Para, pouco depois da abertura da mostra, descobrir que o urinol estava ali, escondido atrás de uma divisória. Fotografada em seguida por Alfred Stieglitz, a obra se perdeu, talvez no lixo. Ao menos parte das razões que levaram Duchamp ao urinol está no Salão dos Independentes de Paris, de 1912. 

É muito provável que a ideia para Fonte tenha surgido depois de um almoço de Duchamp com o pintor americano Joseph Stella e o colecionador Walter Arensberg. Na saída, os três foram até o fornecedor de produtos para encanamento JL Mott Iron Works, onde o francês escolheu um urinol. De volta ao estúdio, ele virou a peça em 90 graus e assinou: R. Mutt, 1917. Segundo o próprio Duchamp: “Mutt veio de Mott Works (...). Mas, como Mott era muito próximo, alterei para Mutt, também por causa da tira de quadrinhos diária Mutt and Jeff, que havia aparecido na época”.

Ele não faria mais arte normal. Por Fonte e Roda de Bicicleta, de 1913, Duchamp é um pioneiro do dadaísmo e um artista à frente de seu tempo. Suas obras são (trocadilho intencional) a grande fonte da arte contemporânea, onde o ato de fazer arte pode ser mais importante que o objeto produzido, ou nem produzido, como no caso dele.

Em 1964, Duchamp afirmou que uma das razões para ter escolhido um urinol foram as poucas chances de a peça ser apreciada. “Eu estava chamando a atenção das pessoas para o fato de que a arte é uma miragem. Uma miragem, exatamente como um oásis aparece no deserto. É muito bonito, até que, claro, você está morrendo de sede. Mas você não morre no campo da arte. A miragem é sólida.”

As réplicas expostas hoje em museus foram encomendadas ou autorizadas por Duchamp entre as décadas de 1950 e 1960. Atitude coerente com o pensamento do ready-made e a falta de sentido, nesse caso, para a autenticidade de uma obra. De acordo com o museu londrino Tate Modern, para Duchamp, a produção de réplicas levaria mais pessoas a ver o trabalho, aumentando as chances de que as ideias ali representadas sobrevivessem.


4 de Abril de 2017 – Centenário de “A Fonte” de Marcel Duchamp

 

Museus de todo o mundo celebram centenário do urinol de Duchamp

Museus de todo o mundo vão celebrar, a partir de domingo, o centenário da peça icónica de Marcel Duchamp "A Fonte", um urinol de porcelana considerado pela crítica "a obra de arte mais influente de todos os tempos".

Museus de todo o mundo vão celebrar, a partir de domingo, o centenário da peça icónica de Marcel Duchamp "A Fonte", um urinol de porcelana considerado pela crítica "a obra de arte mais influente de todos os tempos".

De acordo com a publicação The Artnewspaper, domingo assinala-se a data em que a obra foi apresentada pela primeira vez, em 1917, na Exposição Anual da Sociedade de Artistas Independentes, em Nova Iorque, e rejeitada pelo comité de seleção. "A Fonte", urinol de porcelana branco, é também considerada uma das obras mais representativas do dadaísmo em França. Com esta obra, Duchamp quis questionar o conceito da palavra arte, apresentando um objeto já feito ('ready made') para lançar o debate de forma provocatória. Na celebração mundial vão entrar museus de dez países: Estados Unidos, Alemanha, Japão, China, Israel, Reino Unido, França, Suécia, Holanda, Suíça. Nesta iniciativa, os visitantes que chegarem aos museus entre as 15:00 e as 16:00 de domingo terão entrada gratuita se disserem Richard Mutt, o pseudónimo com o qual Duchamp assinou a obra em 1917. Alguns destes museus, como o Staedel Museum, em Frankfurt, e o Philadelphia Museum of Art—home, nos Estados Unidos, que reúnem a maior coleção de obras de Duchamp, vão escolher algumas casas de banho para fazer leituras e performances. O Museu Berardo, em Lisboa, possui três obras de Duchamp: "Boîte", Série C, montada por Iliazd em 1958, "Le Porte-bouteilles" (1914-1964) e "Plan du Porte Bouteilles" (1964).






3 de Julho de 2012 – Centquatre, Paris

 

Joana Vasconcelos mostra "A Noiva" em Paris

A escultura "A Noiva", peça criada pela artista plástica Joana Vasconcelos com milhares de tampões higiénicos, vai ser exibida no Centquatre, em Paris, a partir de quarta-feira, anunciou o atelier da criadora.

Criado a partir de 2001, o lustre com cinco metros viria a ser terminado em 2005, ano em que foi exibido como peça principal na Bienal de Arte de Veneza por convite da organização do certame mundial dedicado à arte contemporânea.

Atualmente, Joana Vasconcelos tem em exposição de 17 obras no Palácio de Versalhes, em Paris, mas "A Noiva" foi recusada pela organização com a justificação de que não se adequava ao espaço. No entanto, a artista foi convidada a expor a peça no centro cultural Centquatre, também em Paris, cuja programação inclui exposições e espetáculos de teatro, música e dança.

Contactada pela Lusa, fonte do gabinete de imprensa do atelier Joana Vasconcelos contabilizou a participação de "A Noiva" em 13 exposições - a segunda em Paris - tornando-a na peça mais vezes apresentada publicamente até hoje.

O lustre de cinco metros, criado com tampões higiénicos femininos já foi mostrado em Lisboa, Cascais, Elvas, Budapeste, Corunha, Vigo, Paris, Veneza, Walsall (Reino Unido) e Istambul.

A exposição individual de Joana Vasconcelos no Centquatre, com "A Noiva", vai ser inaugurada às 19:00 de quarta-feira, abre ao público na quinta-feira, e ficará patente a 30 de Setembro.



La Noiva de Joana Vasconcelos au Cent-quatre


La Noiva de Joana Vasconcelos au Cent-quatre, un lustre fait de tampons hygiéniques. Une oeuvre controversée refusée pour l'exposition de Versailles.
Du 5 juillet au 6 août et du 27 août au 30 septembre




18 de Setembro de 2012 – Château de Versailles


OBRA DE JOANA VASCONCELOS VETADA EM VERSAILLES

Uma obra prima, linda de morrer como tudo que a artista portuguesa Joana Vasconcelos faz, acaba de chegar ao Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo. 

O motivo é bastante curioso:  A obra que já passou pela Bienal de Veneza seria exposta no Palais de Verssailes, mas os responsáveis vetaram! Joana é a primeira mulher e primeira portuguesa a expor em Versailles e certamente a primeira a ter uma obra barrada: trata-se de um lustre gigantesco todo feito a partir de absorventes.

O lustre conhecido como "A Noiva" já havia sido vetado anteriormente em outros lugares. É curioso pensar que haja esse tipo de censura na arte, ainda mais se tratando de um caso como esse, onde o problema em questão é um objeto indispensável na vida de qualquer mulher e que deveria ter deixado de ser um tabú há muito tempo! 

A artista usou mais de 25 mil O.B.'s para fazer o lustre. Joana é conhecida por abordar assuntos femininos através da arte. 

 


A exposição "Ciclo" no CCBB traz artistas que usam materiais reciclados em seus trabalhos, e por isso a ideia de importar "A Noiva" de Joana Vasconcelos. 


10 de Junho de 2012 – Château de Versailles


Versalhes proíbe lustre de tampões de Joana Vasconcelos

"A Noiva" não foi considerada adequada para ser exposta no palácio de Versalhes em França

A Noiva foi uma das primeiras peças em que Joana Vasconcelos pensou quando foi convidada para expor em Versalhes, ela que vai ser a primeira mulher a ter tal honra e a primeira portuguesa. O lustre de tampões, que é uma das suas obras emblemáticas, adequava-se, no entender de uma das mais conceituadas artistas contemporâneas da atualidade, como nenhuma outra à estética do palácio francês, ao luxo do local, ao cunho que vai dar a toda a sua exposição.

Mas a peça foi "censurada". Joana Vasconcelos apenas explica que lhe disseram que não se adequava ao local. Não ficou chocada porque não é a primeira vez que o seu lustre é recusado. "A Noiva tem o condão de ficar solteira", brinca mesmo, dizendo apenas que esta recusa prova que "há ainda muita coisa para fazer" enquanto o tampão for "um objeto vetado pela sociedade" e sinta que há "locais" onde "não é correto" ser apresentado, porque significa uma libertação da mulher.

A exposição, que inaugura no dia 19, contará, contudo, com outras peças importantes na carreira de Joana Vasconcelos, como os sapatos Marilyn, feitos de panelas e tampas das mesmas, ou os Corações Independentes, o vermelho e o preto, feitos com garfos de plástico a imitar filigrana. E, claro, a artista criou várias outras instalações com as quais espera surpreender um público sempre muito exigente: um helicóptero de plumas dourado, a Perruque, um móvel tipo ovo Fabergée, feito na Fundação Espírito Santo, coberto de postiços de cabelo que irá para o quarto de Maria Antonieta; o Vitral, uma tapeçaria gigante, feita na fábrica de Portalegre; as três Valquírias, peças que ficarão suspensas sobre a sala das Batalhas, cobertas com vários tecidos (a Royale Valquíria, com tecidos de Versalhes, a Golden Valquíria, toda dourada, e a Rural Valquíria, com tecidos de Nisa), e ainda estátuas de leões tapados de renda vinda dos Açores.

Joana Vasconcelos visitou várias vezes Versalhes e contou com uma equipa de cerca de cem pessoas (incluindo os artesãos nacionais) para montar esta exposição, que inaugura dia 19.




Joana Vasconcelos expõe “A Noiva”, o lustre feito com tampões, em Paris

Lusa

3 de Julho de 2012, 13:41

 

"A Noiva" foi recusada em Versalhes com a justificação de que não se adequava ao espaço 

Criado a partir de 2001, o lustre com cinco metros viria a ser terminado em 2005, ano em que foi exibido como peça principal na Bienal de Arte de Veneza por convite da organização do certame mundial dedicado à arte contemporânea.

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Actualmente, Joana Vasconcelos tem em exposição 17 obras no Palácio de Versalhes, em Paris, e “A Noiva” foi recusada pela organização com a justificação de que não se adequava ao espaço.

No entanto, a artista foi convidada a expor a peça no centro cultural Centquatre, também em Paris, cuja programação inclui exposições e espectáculos de teatro, música e dança.

Contactada pela Lusa, fonte do gabinete de imprensa do atelier Joana Vasconcelos contabilizou a participação de “A Noiva” em 13 exposições - a segunda em Paris - tornando-a na peça da artista mais vezes apresentada publicamente até hoje.

O lustre de cinco metros, criado com tampões higiénicos femininos já foi mostrado em Lisboa, Cascais, Elvas, Budapeste, Corunha, Vigo, Paris, Veneza, Walsall (Reino Unido) e Istambul.

Em 2007, Joana Vasconcelos também apresentou uma exposição paralela à Bienal de Veneza, no Palazzo Nani Bernardo Lucheschi, onde mostrou, entre outras, a peça “Dorothy”, um sapato gigante criado com dezenas de típicos tachos portugueses, e uma colcha de sete metros feita em crochet manual, que ficou pendurada na fachada do antigo edifício.

No mês passado, a Secretaria de Estado da Cultura anunciou que a artista vai representar oficialmente Portugal na próxima Bienal de Arte de Veneza, em 2013.

Nascida em Paris, em 1971, Joana Vasconcelos mostrou em 2010, no Museu Colecção Berardo, em Lisboa, a primeira exposição antológica, intitulada “Sem Rede”, com 37 obras.

A exposição individual de Joana Vasconcelos no Centquatre, com “A Noiva”, que vai ser inaugurada às 19h de quarta-feira, abre ao público na quinta-feira, e ficará patente até 18 de Setembro de 2012.


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https://www.vogue.pt/obras-arte-proibidas

Lola

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