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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Acção e Acontecimento



Acção e Acontecimento


“Carta para Josefa, minha avó”


“Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo — e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água.

Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira — sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.

Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com  isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja.(Contaste-mo tu, ou terei sonhado que o contavas?)

Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém. Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos — e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti — e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava. Não teremos, realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas — e isso ainda é pior.

Mas porquê, avó, por que te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!»

É isto que eu não entendo — mas a culpa não é tua.”

José Saramago


Distinga, no texto, ACÇÕES e ACONTECIMENTOS.


Acção Humana é tudo aquilo que o homem faz de modo consciente, voluntário, deliberado e livre. O homem ao agir interfere e actua sobre a situação. O ser humano é o agente e o actor já que a acção humana parte do sujeito livre que, como tal, é responsável por aquilo que faz.

 Exemplo: ir visitar a avó Josefa!

 

Acto do homem embora tudo que realizamos faça parte do nosso comportamento, nem tudo o que realizamos constitui uma acção como é o caso dos actos do homem. Existem comportamentos que embora sejam conscientes não são controláveis pelo ser humano. Alguns dos nossos movimentos físicos são movimentos que o nosso corpo executa sem que os possamos evitar, embora tenhamos consciência deles – realizamo-los de forma mecânica e independentemente da vontade do sujeito. 

Exemplo: respirar.

 

Acontecimento é algo que se verifica num certo momento e num certo lugar. Em linguagem mais técnica, é um evento espácio – temporalmente enquadrado. Imaginemos que o João decide ir à praia. Tem de ir a uma praia situada num certo lugar – Vilamoura no Algarve, Portinho da Arrábida em Setúbal ou Praia do Castelo na Costa da Caparica – e num determinado momento - normalmente no Verão, de manhã ou de tarde. Ficaríamos muito surpreendidos se João dissesse que foi a uma praia em momento algum e que não ficasse em lado nenhum.

Exemplo: A avó Josefa tem 90 anos!

 

Todas as acções são acontecimentos. Por que razão nem todos os acontecimentos são acções?

Nem tudo o que acontece é uma acção, ou seja, se todas as acções são acontecimentos nem todos os acontecimentos são acções. Um furacão – uma tempestade, um raio de sol, o arco-íris, um tsunami - é um acontecimento mas não uma acção porque não tem carácter voluntário ou intencional. Uma acção é algo que acontece devido à vontade e intenção consciente de um sujeito.

Imaginemos que, inadvertidamente, escorrego numa casca de banana e acabo por entornar uma garrafa de Coca-Cola em cima do livro de um colega que estudava comigo no bar da escola. Sujar o livro do colega foi algo que eu fiz. 
Mas será isto uma acção?

Não, porque não tive intenção de sujar o livro do meu colega, não o fiz de propósito. Estamos perante algo que eu fiz sem querer e assim sendo o livro foi estragado pelo que me aconteceu e não propriamente por mim. Ter sujado o livro do meu colega nada tem de voluntário. O agente não o podia evitar.


Tente agora responder às questões seguintes:


Uma mulher residente em Macau que suspeitava da infidelidade do marido suicidou-se vestida de vermelho. Não foi por desgosto que ela fez o que fez, nem se tratou de um acto desesperado e impensado. Tratou-se, sim, de uma estratégia para garantir que o seu fantasma virá agora perseguir o marido e transformar-lhe a vida num inferno.

 

In Jornal Público

1. Considera que a protagonista do texto, ou seja, a mulher vítima da infidelidade do marido, realizou uma acção humana?

2. Intenção, motivo e agente são três dos conceitos que de um modo fundamental caracterizam a acção humana. Defina-os.



                                                 Lola

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Acção e acontecimento




Acção e acontecimento



Observe, atentamente, os seguintes vídeos e distinga acção de acontecimento!



Analise do vídeo A



                               
                                 Tirado daqui: https://www.youtube.com/watch?v=wYtnbpSC9vQ




Acção: todo o comportamento intencional que realizamos de forma consciente e voluntária.


- O rapaz a caminhar.                                                                                       
- Pôr a planta debaixo de água.
- O rapaz ajuda a senhora a levantar o carrinho.
- O rapaz foi almoçar.
- Divide a refeição com o cão.
- Ajuda uma menina.
- Ajuda uma velhinha.
- A menina voltou à escola.



Acontecimento:Algo que surge independentemente da nossa vontade. Ex: apanhar gripe, adoecer.


- Está sol.
- A caleira deita água.
- A planta está murcha.
- A senhora não consegue movimentar o carrinho.
- Aparece um cão.
- O cão segue o rapaz.
- A família é pobre.
- A velhinha é pobre.

- Viu a menina a regressar à escola.



Analise do vídeo B: 






Acção: todo o comportamento intencional que realizamos de forma             consciente e voluntária.

·      O rapaz roubou o medicamento;
·         O dono do restaurante ajudou-o
          Pagou os medicamentos 
          Deu-lhe uma sopa);
·         O rapaz fugiu;
·         A filha do dono da loja decidiu vender o estabelecimento;
·         O rapaz (médico) reconheceu o gesto de há 30 anos;
·         O medico  curou o senhor 
           O médico pagou a conta o hospital;


Acontecimento:Algo que surge independentemente da nossa vontade. Ex: apanhar gripe, adoecer.

·      O rapaz foi apanhado pela senhora;
·         A mãe do rapaz está doente;
·         O rapaz tornou-se neurocirurgião;
·         O dono da loja teve um AVC;
·         O senhor melhorou;
·         A filha ficou admirada pelo gesto do rapaz/ médico




                                                                                                        Lola

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Acção e Acontecimento






 Acção e Acontecimento
     TEXTO    
      “ Supunhamos que apanhei  o   ___________  e paguei o meu respectivo  ____________ .
        Durante o percurso vou distraído, pensando nas minhas coisas sem me dar conta de que brinco com o pedacito do cartão, enrolo-o e desenrolo-o, até que finalmente o atiro descuidadamente pela janela aberta. Nessa altura aparece-me o ___________ e pede-me o bilhete: desespero e provavelmente a multa. Posso apenas murmurar para me desculpar: “Atirei-o pela janela...sem me aperceber.” O revisor, que é também um pouco filósofo, comenta: ”Bom, se não se apercebeu do que estava a fazer, não pode dizer que o tenha atirado pela janela. É como se ele tivesse caído”. Mas eu não estou disposto a aceitar essa restrição : “Desculpe, mas uma coisa é que me tenha caído o bilhete e outra tê-lo atirado, mesmo que o tenha feito inadvertidamente”. Parece que esta discussão agrada mais ao revisor do que multar-me: “Veja, deitar fora o bilhete é uma acção, algo diferente de que nos caia, que é apenas uma desssas coisas que acontecem. Quando alguém faz uma acção é porque quer fazê-la, não é verdade? Mas em contrapartida as coisas acontecem sem querer. De maneira que como você não quis atirar o bilhete podemos dizer que na realidade ele lhe caiu”. Revolto-me contra esta interpretação mecanicista: “Não e não! Poderíamos dizer que o bilhete me tinha caído se eu tivesse adormecido, por exemplo, ou até se uma rabanada de vento mo tivesse arrancado da mão. Mas eu estava bem acordado, não fazia vento e o que acontece é que atirei o bilhete sem querer”. “Basta! – disse o revisor riscando o seu caderno com o lápis -. E se não o quis fazer, como é que sabe que foi você, exactamente você, quem o atirou? Porquê atirar uma coisa é fazer uma coisa e ninguém pode fazer uma coisa se não quiser fazê-lo”. “Pois sabe o que lhe digo? Atirei a porcaria do bilhete poque me deu na realíssima gana!” Venha a multa”.

Fernando Savater, As perguntas da Vida
Tarefa:

A.       Retire do texto uma ACÇÃO e um ACONTECIMENTO.
B.       Distinga no texto VOLUNTÁRIO e INVOLUNTÁRIO.
C.       O que é uma ACÇÃO HUMANA?
D.       Poderemos distinguir AGIR e FAZER?
E.        Podemos fazer uma coisa sem querer fazê-lo?
F.        O que poderá condicionar as nossas acções?
G.       Agir bem é agir por prazer ou por dever?
H.       O que é o Bem? E o Mal?
I.          O que vale na acção: a intenção ou o resultado?





Lola


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