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terça-feira, 25 de março de 2014

Kant: o conhecimento




Kant e o conhecimento


“Não resta dúvida de que todo o nosso conhecimento começa pela experiência; efectivamente, que outra coisa poderia despertar e pôr em acção a nossa capacidade de conhecer senão os objectos que afectam os sentidos e que, por um lado, originam por si mesmos as representações e, por outro lado, põem em movimento a nossa faculdade intelectual e levam-na a compará-las, ligá-las ou separá-las, transformando assim a matéria bruta das impressões sensíveis num conhecimento que se denomina experiência? Assim, na ordem do tempo, nenhum conhecimento precede em nós a experiência e é com esta que todo o conhecimento tem o seu início.
Se, porém, todo o conhecimento se inicia com a experiência, isso não prova que todo ele derive da experiência. Pois bem poderia o nosso próprio conhecimento por experiência ser um composto do que recebemos através das impressões sensíveis e daquilo que a nossa própria capacidade de conhecer (apenas posta em acção por impressões sensíveis) produz por si mesma, acréscimo esse que não distinguimos dessa matéria-prima, enquanto a nossa atenção não despertar por um longo exercício que nos torne aptos a separá-los.
Há pois, pelo menos, uma questão que carece de um estudo mais atento e que não se resolve à primeira vista, vem a ser esta: se haverá um conhecimento assim, independente da experiência e de todas as impressões dos sentidos. Denomina-se a priori esse conhecimento e distingue-se do empírico, cuja origem é a posteriori, ou seja, na experiência.
Esta expressão não é, contudo, ainda suficientemente definida para designar de um modo conveniente todo o sentido da questão apresentada. Na verdade, costuma dizer-se de alguns conhecimentos, provenientes de fontes da experiência, que deles somos capazes ou os possuímos a priori, porque os não derivamos imediatamente da experiência, mas de uma regra geral que todavia fomos buscar à experiência. Assim, diz-se de alguém, que minou os alicerces da sua casa, que podia saber a priori que ela havia de ruir, isto é, que não deveria esperar, para saber pela experiência, o real desmoronamento. Contudo, não poderia sabê-lo totalmente a priori, pois era necessário ter-lhe sido revelado anteriormente, pela experiência, que os corpos são pesados e caem quando lhes é retirado o sustentáculo.
Por esta razão designaremos, doravante, por juízos a priori, não aqueles que não dependem desta ou daquela experiência, mas aqueles em que se verifica absoluta independência de toda e qualquer experiência. Dos conhecimentos a priori, são puros aqueles em que nada de empírico se mistura. Assim, por exemplo, a proposição, segundo a qual toda a mudança tem uma causa, é uma proposição a priori, mas não é pura, porque a mudança é um conceito que só pode extrair-se da experiência.”
I.Kant, Crítica da Razão Pura, Fundação Calouste Gulbenkian, pp. 36 e 37.


Agora responda:

- Posição de Kant face ao empirismo e racionalismo.
- Como entende Kant o conhecimento?
. Distinga conhecimento a priori de conhecimento a posteriori.






                                        Lola

domingo, 16 de março de 2014

Kant: o conhecimento



Kant (1724-1804)


 Todo o conhecimento inicia-se com a experiência, mas este é organizado pelas estruturas a priori do sujeito. Segundo Kant  o conhecimento é a síntese do dado na nossa sensibilidade (fenómeno) e daquilo que o nosso entendimento produz por si (conceitos). O conhecimento nunca é pois, o conhecimento das coisas "em si", mas das coisas "em nós". 


    "O que podemos conhecer?" 

Esta  questão  orientou a investigação filosofica em Kant. Porquê?

Se os racionalistas defendiam que a mente humana era constituída por um conjunto de estruturas inatas que recebiam, filtravam, davam forma e interpretavam as impressões externas, os empiristas acreditavam que a mente é uma "folha em branco" que se vai preenchendo com os dados vindos da experiência - unica fonte do conhecimento.


Quais as fontes de conhecimento para Kant?



     A -  Sensibilidade

A sensibilidade é uma faculdade que nos permite receber ou perceber objectos mediante impressões (sensações) através dos sentidos externos. Estas impressões são percepcionadas no espaço e no tempo, formas puras (vazias) que fazem parte das estruturas cognitivas inatas do sujeito. Elas são a condição indispensável para que possamos ter acesso ao conhecimento sensível (empírico). 

      B - Entendimento

         O entendimento é uma faculdade que nos permite dar forma, unificar e ordenar os dados recebidos da sensibilidade. Para produzir conhecimentos (juízos) utiliza as (doze) categorias cuja função é estabelecer relações entre fenómenos (julgamentos). Os juízos são pois operações de interpretação e organização dos dados sensoriais. 

O conhecimento resulta da aplicação destas categorias (conceitos puros) à experiência, produzindo juizos.

        

Hà três tipos de juízos em: 

        Juízos Analíticos. Ex. "O Homem é racional". O predicado está contido no sujeito. Trata-se de um juízo a priori, isto é, não  depende da experiência. 
Este tipo de juízo é universal e necessário.


        Juízos Sintéticos. Ex."A professora de Filosofia tem o cabelo vermelho". O predicado acrescenta algo ao sujeito que nele não estava contido. 
Trata-se de um juízo a posteriori, pois assenta em dados da experiência e carece da mesma como comprova. 
Este tipo de juízo é particular e contingente.


        - Juízos Sintéticos a priori (a  principal novidade da logica kantiana). Ex. "Uma recta é a menor distância entre dois pontos". Este juízo acrescenta algo de novo ao sujeito, mas não está dependente da experiência. 
Este tipo de juízo é universal e necessário. 
  
        C -  Razão

        A razão tem a função de sintetizar os conhecimentos, dando-lhes uma unidade mais elevada. Não Se relaciona com os dados sensoriais, mas com os juízos do entendimento.  produzindo "ideias" que  ultrapassam os limites da experiência. Exemplos de Ideias são: DEUS, ALMA e LIBERDADE - estes não são objecto da experiência possivel!
        
    
       A teoria do conhecimento de Kant estabelece uma clara distinção entre "fenómeno" e "númeno".

O que distingue Fenómeno/Númeno?


  O Fenómeno ("aquilo que se manifesta") corresponde à realidade empírica, produzindo nos nosso sentidos impressões (sensações). É o limite de todo o conhecimento possível. Kant neste ponto concorda com os empiristas.

  O Númeno ("noúmeno" ), isto é, a "coisa em si mesma" corresponde aquilo que os nossos sentidos não percebem, a nossa estrutura inata apenas nos permite aceder aquilo que delas se manifesta aos sentidos (o fenómeno). É impossível, conhecer as coisas que estão para além dos dados dos sentidos, como seja a alma, o mundo (como totalidade) ou Deus. A Metafísica é impossível como ciência.  Embora não tenhamos a possibilidade de conhecer as coisas em si mesmas, podemos todavia através da razão tentar compreendê-las.
       
 Esta distinção permitiu-lhe distinguir e delimitar os domínios da Ciência e os da Religião. 

A Ciência está confinada ao mundo físico, à experiência sensível, cabendo-lhe produzir o conhecimento. 

A Religião foi remetida para uma dimensão supra-sensível, o númeno. Não produz conhecimento, mas ajuda-nos a compreender o sentido da nossa existência e do mundo.  


 Que criticas se podem fazer à teoria do conhecimento de Kant?

 A teoria do conhecimento de Kant tem sido bastante contestada, num ponto central: a subjectividade do conhecimento. 
 Não admite um conhecimento puramente objectiva, pois o mesmo está sempre condicionado pela subjectividade do sujeito. Todo o nosso conhecimento está à partida condicionado pelas estruturas transcendentais (a priori), pelas intuições do espaço e do tempo, as formas mentais das nossas categorias do entendimento. Unicamente conhecemos o que com estas "formas" se objectiva.
 Limitativo?


  Kant e Piaget - que relação?

Jean Piaget defende que o conhecimento resulta de uma interacção entre o sujeito e a experiência. Porquê?

        Piaget,desenvolveu uma concepção construtivista do conhecimento. O conhecimento é indissociável da acção do sujeito. Não é pois uma simples registo feito pelo sujeito dos dados do mundo exterior. O sujeito apreende e interpreta o mundo através das suas estruturas cognitivas. Estas estruturas não são todavia inatas, mas são formadas pelo sujeito na sua acção. 
O conhecimento é assim um processo de construção de estruturas que permitem ao sujeito apreender e interpretar a realidade.  



Agora veja o documentàrio:




Lola

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