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terça-feira, 21 de novembro de 2017

Argumentação


Argumentação


Sócrates - Então vê, Protarco, em que consiste a tese de Filebo, cuja defesa vais fazer, e também a nossa, que terás de contestar, no caso de não a aprovares. Queres que recapitulemos as duas?
 Protarco - Perfeitamente. Sócrates - Ora bem: o que Filebo afirma, é que, para todos os seres animados, o bem consiste no prazer e no deleite, e tudo o mais do mesmo género. De nossa parte, defendemos o princípio de que talvez não seja nada disso, mas que o saber, a inteligência, a memória e tudo o que lhes for aparentado, como a opinião certa e o raciocínio verdadeiro, são melhores e de mais valor que o prazer, para quantos forem capazes de participar deles, e que essa participação é o que há de mais vantajoso para os seres presentes e futuros. Não foram esses pontos, Filebo, mais ou menos, que cada um de nós defendeu? Filebo - Isso mesmo, Sócrates; sem tirar nem pôr.
 Sócrates - E agora, Protarco, aceitas defender a tese que te confiamos?
Protarco - Sou obrigado a aceitar, uma vez que o belo Filebo já se cansou.
Sócrates – Examinemos, então, e julguemos a vida do prazer e a sabedoria, tomando cada uma em separado.
Protarco – Que queres dizer com isso?
Sócrates – Não admitamos nenhuma sabedoria na vida do prazer nem prazer na da sabedoria. Se um dos dois for o bem, não necessitará de mais nada, e se qualquer deles se revelar como carente de algo, só por isso, não poderá ser considerado o verdadeiro bem.
Sócrates – Permites que façamos essa experiência contigo?
Protarco – Perfeitamente;
Sócrates – Então, responde.
 Protarco – Podes falar.
Sócrates – Aceitarias, Protarco, passar a vida inteira no gozo dos maiores prazeres? Protarco – Por que não?
Sócrates – E achas que ainda te faltaria alguma coisa, se contasses com prazeres em abundância?
Protarco – Em absoluto. Sócrates – Reflete melhor. Não precisarias pensar, compreender e calcular o que te faltasse? Não virias a precisar de nada?
Protarco – Para quê? Com o prazer, teria tudo.
Sócrates – Vivendo desse jeito, desfrutarias, a vida inteira, dos maiores prazeres. Protarco – Sem dúvida.
Sócrates – Mas, para começar, sem inteligência nem memória, nem conhecimento, nem opinião verdadeira, forçosamente não poderias saber se desfrutavas ou não de algum prazer, já que não terias discernimento.
 Protarco – Sem dúvida.
Sócrates – Da mesma forma, desprovido de memória, é claro que não apenas não poderias recordar-te de que havias tido algum prazer, como também passaria sem deixar rastro o prazer do momento presente, Como não tendo  opinião verdadeira, nunca poderias dizer que sentias prazer no instante em que o sentisses, e como és carente de reflexão, não poderias calcular os prazeres que o futuro te ensejasse. Não seria vida de gente, mas de algum pulmão marinho, ou desses animais do mar provido de conchas. Será assim mesmo, ou precisamos fazer do caso ideia diferente?
Protarco – Como fora possível?
Sócrates – E tal vida seria aceitável?
Protarco – Tua argumentação, Sócrates, deixou-me  sem fala.


Tarefa:
  1. Identifique o tema, o problema, a tese, os argumentos e a conclusão:
  2. Relacione Filosofia e Argumentação.



Platão, Filebo



Lola

segunda-feira, 10 de março de 2014

Argumentação, verdade e ser




Argumentação, verdade e ser




  1.  O que é a realidade?
  2.  O que é a verdade?
  3.  Será que a podemos conhecer?
  4.  Existem ou não diferentes discursos sobre a realidade?
  5. Como é considerada a verdade na sociedade actual? 
  6. Comente “A verdade é biodegradável” de Edgar Morin. 
  7.  Explique o conceito “realidade” em filosofia.
  8.  Explique as  oposições filosofia/retórica e verdade/opinião.
  9.  Defina as  concepções “racionalidade argumentativa” e “nova retórica”.
  10. O que podemos entender por auditório universal e qual o seu objectivo?
  11.  Confronte “auditório universal” com “estabelecer consensos”.
  12.  Será a  racionalidade  um conceito universal?
  13. Qual a nova concepção da racionalidade para Chaim Perelman?
  14. Qual a relação entre argumentação e pluralismo? 
  15. Relacione verdade, ser e argumentação;







Lola


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Argumentação, Persuasão e Manipulação.

Foto André Teixeira


Argumentação, Persuasão e Manipulação

Argumentação e Persuasão

A argumentação é distinta da persuasão. Se podemos dizer que todo o discurso argumentativo é persuasivo, o contrário não é verdadeiro, pois nem todo o discurso persuasivo é argumentativo.
A argumentação para poder ser convincente tem que fazer apelo à razão, ao julgamento de quem participa ou assiste ao confronto de ideias.
A persuasão está ligada à sedução. A adesão de alguém a certas ideias é feita através de gestos, palavras ou imagens que estimulam nela sentimentos ou desejos ocultos, acabando por gerar falsas crenças. Através da persuasão o orador reforça os seus argumentos despertando emoções, de modo a criar uma adesão emotiva às suas teses. Na persuasão ao contrário da argumentação faz-se apelo a processos menos racionais. Como veremos, os actuais meios de comunicação de massas, veiculam discursos publicitários que utilizam sofisticadas técnicas de persuasão dirigidas a públicos-alvo bem determinados.

Chaim Perelman questiona este critério de distinção. Segundo este autor, o critério de distinçãonão assenta na dicotomia razão/emoção, mas sim na dimensão do auditório: os discursos argumentativos dirigem-se a públicos particulares, capazes de avaliarem as teses em confronto. Os discursos persuasivos dirigem-se a públicos universais, pouco versados nos tema em discussão e por isso mais receptivos à sedução.




 Persuasão e Manipulação

Persuadir não é a mesma coisa que manipular. A grande diferença reside na intenção do orador. No caso da persuasão o objectivo é apenas provocar a adesão, apelando a factores racionais e emocionais. No caso da manipulação, existe uma intenção deliberada de desvalorizar os factores racionais, apelando a uma adesão emocional. O próprio discurso é baseado em falácias, onde é patente a intenção de confundir o auditório.

As técnicas de persuasão (manipulação ) ensinadas pelos sofistas, apesar da sua eficácia, podem ser consideradas muito rudimentares face às aplicadas no século XX para manipularem milhões de pessoas.
A persuasão dos sofistas estava muito confinada às capacidades manifestadas pelo orador. A palavra tinha ainda uma lugar central. As técnicas de persuasão actuais, ornaram os oradores parte de uma vasta encenação, onde se recorre a uma enorme variedade de mais para seduzir, persuadir e manipular.
O ditador Adolfo Hitler, foi o primeiro a integrar a retórica em gigantescos espectáculos de propaganda, produzindo um poderoso efeito hipnótico sobre os auditórios.
Os discursos Hitler eram cuidadosamente ensaiados. Modelações no tom de voz, gestos dramáticos, olhares acutilantes, e expressões faciais acentuavam os momentos mais importantes nos seus discursos. Os discursos abordavam de forma muito emocional quase sempre os mesmos temas: o ódio aos judeus, o desemprego e o orgulho ferido da Alemanha. Os locais eram decorados de forma a acentuar a sua presença. As paradas militares, bandeiras e símbolos conferiam à sua figura e palavras uma dimensão sobrenatural.


4. Novas Formas de Manipulação
As práticas de manipulação são milenares. Estão intrinsecamente ligadas à vontade de domínio. Há manipulação sempre que alguém procura controlar o conhecimento de outro tendem em vista condicionar ou alterar o seu comportamento. As formas de manipulação ligadas ao poder político são as mais conhecidas, mas não são as únicas existentes.



Formas Directas de Manipulação

As formas manipulação mais conhecidas são as realizadas pelos regimes ditatoriais. Podemos neste caso identificar facilmente quem as faz, com que objectivos e os meios que utiliza. Trata-se de um manipulação com rosto, que coloca desde logo os cidadãos de sobreaviso em relação àqueles que as planeiam e executam. A censura, a propaganda e a violência repressiva sobre os "desviantes" são os seus meios privilegiados .


Censura: a informação é manipulada não apenas tendo em vista omitir factos relevantes, mas também deformar o conteúdo da informação veiculada de modo a que a mesma se ajuste às ideias dos censores. Em Portugal a censura foi um dos instrumentos mais utilizados pela ditadura (1926-1974) para a manipulação da opinião pública: a informação que era autorizada era previamente mutilada. A restante era simplesmente proibida.



Propaganda: a informação é forjada de forma provocar a uma adesão imediata a certos estímulos, explorando para tal as emoções ou os medos das pessoas. Durante a 1ª. Guerra Mundial (1914-1945), as técnicas de propaganda aos serviços dos Estados tornaram-se enormes máquinas de mobilização de massa, dotadas de enormes recursos técnicos, que foram depois eficazmente aplicados e desenvolvidos pelos diferente regimes totalitários.
Em Portugal, uma das primeiras acções da ditadura (1926-1974) foi a de criar importantes orgãos de propaganda do regime ( consultar ). O regime de nazi, foi contudo aquele mais desenvolveu as técnicas de propaganda e as aplicou com grande êxito. No Congresso de Nuremberg, em 1936, Hitler afirmou: "a propaganda conduziu-nos ao poder, a propaganda permitiu-nos conservar depois o poder, a propaganda, ainda, dar-nos-à a possibilidade de conquistar o mundo". Uma das suas acções mal conquistou o poder foi criar um Ministério da Propaganda, dotando-o de enormes recursos. A propaganda nazi assentava em ideias muitos simples, que podia ser facilmente apreendidas pelas pessoas. Estas ideias apelavam à emoção, estimulando reacções de medo, ódio, violência e desejo de vingança.


Formas Difusas Manipulação

Os processos de manipulação da informação são todavia mais amplos, e estão largamente disseminados nas sociedades democráticas ocidentais, utilizando-se técnicas muito sofisticadas, mas não menos eficazes, nomeadamente porque os cidadãos estão desprevenidos.




Televisão: Um Perigo para a Democracia ?
Karl Popper, no início da década de 90, acusou a televisões de estarem a destruir os regimes democráticos. Afirmando:
1. A finalidade das televisões não é a educação ou a melhoria das pessoas, mas apenas o lucro.
2. Aquilo que oferecem às pessoas não é o que é melhor para a sua educação, mas apenas aquilo que as seduz e as mantém presas aos ecrans de televisão, fazendo desta forma subir as audiências. A receita que utilizam é sempre a mesma: sexo, violência, sensacionalismo, etc. Uma receita que cansa, por isso mesmo obriga-as a um reforço continuo das suas doses diárias (mais sexo, mais violência, mais sensacionalismo…).
3.Com o aumento do número de canais de televisão, cresceu também o número de pessoas mediocres ou gente sem escrúpulos ligadas à produção de programas televisivos. Gente que apesar da sua enorme influência social, trabalha na mais completa impunidade e sem qualquer controlo democrático.
4. As pessoas mais vulneráveis a esta influência nefasta da televisão são as que possuem um nível de formação e maturidade insuficiente para estabelecerem uma distinção entre a ficção e a realidade.



Exemplos de Manipulação
A - Os meses que precederam a ocupação do Iraque, em 19 de Março de 2003, assistiu-se a uma campanha de manipulação da informação a nível mundial.
As principais agências de comunicação social divulgavam informações provenientes das mais diversas fontes e origens todas num único sentido: sustentarem a tese dos EUA de que a o ditador do Iraque possui armas de destruição maciça .
Em vários países, como Portugal, muitos jornalistas e especialistas em questões militares apoiaram activamente esta campanha preparando a opinião pública para aceitar a inevitabilidade de uma intervenção no Iraque, a fim de acabar com os arsenais e a produção das alegadas armas de destruição maciça.
Um ano depois da ocupação, os governos dos EUA e da Grã-Bretanha reconheciam que estas armas não existiam e que haviam enganado a opinião pública. Acusaram na altura os seus serviços de espionagem de lhes terem fornecido de informações forjadas.
Objectivo da manipulação: o controlo das enormes reservas de petróleo existentes no Iraque.



B - Logo após o atentado de Madrid de 11 de Março de 2004, o governo espanhol procurou deliberadamente manipular a comunicação social, veiculando informações no sentido de fazer crer à população que a ETA era a autora do atentado ( A ETA é uma organização fundada em finais dos anos 50 do século XX e que luta pela Independência do país Basco (Euskadia). O próprio primeiro-ministro da altura (José Maria Aznar) pressionou directamente directores de jornais para veicularem uma informação que sabia ser falsa.

Objectivo da manipulação: vencer uma disputa eleitoral.




Lola





segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Argumentação, Verdade e Ser



Argumentação, Verdade e Ser


Na     Na perspectiva de Paul Watzlawick a realidade o possui dois aspectos fundamentais:


· o primeiro relacionado com as propriedades físicas e ligado a uma percepção sensorial ou senso comum e à verificação objectiva e científica.


· o segundo aspecto consiste na atribuição de valores às coisas, baseando-se na comunicação. (o conhecimento  não é exclusivo de um filósofo).


·  A realidade, que é ela própria um conceito plural, apresenta-se em diferentes contextos e com diferentes significados, existindo variados discursos sobre a realidade correspondendo cada um a uma interpretação do real que visa  ser verdadeira.


· “A controvérsia da verdade não pode ser eliminada”, a verdade actual tem um estatuto diferente da verdade na antiguidade.

Segundo Edgar Morin a verdade é biodegradável, pois esta existe em condições e limites de existência dados, como se tivesse uma validade a prazo.


    A Filosofia é a procura da verdade


· Na concepção clássica (Grécia antiga) o ser é identificado como tudo o que existe, independentemente da maneira que o conhecemos ou dizemos e a verdade é unívoca, absoluta e universal, correspondendo ao conhecimento absoluto do ser. A realidade é considerada absoluta, perfeita e imutável (concepção Socrático-Platónica)


· Na concepção contemporânea o ser é plural, diz-se de diferentes maneiras e só pode ser conhecido por intermédio da linguagem e a verdade nem é unívoca ou absoluta, é renovável.


· Com a nova concepção de conhecimento, nasce também um novo modelo de razão, que é entendida como faculdade humana plural, portadora de conhecimento de várias vertentes, plurìvoca,em que poderemos integrar a racionalidade argumentativa (conhecimento não reduzido á lógica e proposições válidas).


· As teses são tanto mais universais quanto mais adesão provocarem por serem as mais plausíveis, aquelas que melhor explicam a realidade ao auditório universal, tendo em vista o entendimento, sendo o discurso sempre plural.


· O pluralismo que a racionalidade encerra é o reconhecimento que se pode conhecer o real de diferentes maneiras. 

Actualmente, quando um filósofo expõe uma verdade possível, esta tem de vir aliada à crítica, atitude de abertura e questionamento do real.


·A razão (argumentativa) tem em vista descobrir a verdade e é através da argumentação que os filósofos manifestam a sua atitude de “tudo repor constantemente questão” (Antero de Quental).


Lola

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Argumentação, Demonstração e Racionalidade





"Tanto a demonstração como a argumentação são manifestações da racionalidade. 

Mas tratam-se de usos diferentes da razão

no caso da demonstração, a razão é usada para estabelecer verdades universais que se apresentam como conclusões de raciocínios formalmente válidos e assentes axiomas (princípios) universais e cientificamente verdadeiros. Na demonstração não há auditório, ou seja, quem demonstra fá-lo seguindo procedimentos racionais e objetivos, sendo indiferente, do ponto de vista demonstrativo, saber quem irá tomar conhecimento da demonstração.

No caso da argumentação, os seus axiomas são estabelecidos caso a caso, consoante o auditório. De facto, a argumentação versa sobre o que é verosímil, provável ou desejável. Nela não está presente o pressuposto de que tem que haver uma verdade universal, estabelecida de forma objectiva e independentemente do contexto sócio-cultural em que se desenrola a argumentação. Os axiomas da argumentação resultam de um acordo, tácito ou estabelecido de forma consciente, entre o orador e o auditório. Assim, o que é verosímil num contexto, pode não o ser noutro, o mesmo se passa com o provável e o desejável. Por exemplo, numa sociedade dominada por crenças de carácter mítico-religioso, pode ser verosímil que um homem de fé consiga caminhar sobre as águas, para um determinado grupo social pode ser desejável a subida das taxas de juro, enquanto que para outros isso pode ser visto como uma calamidade. Para certos auditórios pode ser provável a visita de extraterrestres, enquanto que para outros isso pode ser encarado como uma crença sem sentido. E o orador tem que estar atento a essas diferenças.




Isto porque na argumentação o que importa são os efeitos do discurso (seja qual for a sua forma) sobre o auditório, pois o objetivo central do ato de argumentar, é provocar um efeito em determinado auditório, conseguir a sua adesão e, em muitos casos, levá-lo a tomar esta ou aquela atitude face a determinados objectos culturais ou sociais (e não só), conduzi-lo a efectuar um determinado comportamento, como no caso de um discurso eleitoral, o seu objectivo e levar os membros do auditório a votarem num partido ou num candidato. Se os membros do auditório votarem noutro partido ou não votarem, os objetivos da argumentação não foram alcançados.

A argumentação é uma forma de ação, de ação comunicativa. A demonstração não é uma ação, em sentido próprio, nem procura mover à ação, ela é neutra do ponto de vista comunicativo, pois a verdade lógica e científica não tem a ver com a subjectividade, nem se move dentro dum universo axiológico (valorativo). A argumentação lida com valores, os valores são o seu elemento de eleição. Estamos perante algo com que já nos confrontámos quando demos a distinção entre juízos de fato e juízos de valor: os juízos de fato pertencem por direito ao campo científico, o mesmo da demonstração, enquanto os juízos de valor encontram na vida prática o seu elemento de manifestação e estão ligados à ação, em todos os seus níveis e em todas as suas áreas.
Outra característica fundamental da demonstração, é que ela usa linguagens formalizadas, não contaminadas pela polissemia da linguagem natural. Cada símbolo, cada termo, cada enunciado, têm apenas um significado e uma interpretação possível. Por isso a definição dos conceitos é um procedimento fundamental em ciência, pois qualquer ambiguidade mata o rigor e a objectividade.

No caso da argumentação, já não é assim, pois nela a razão apoia-se na linguagem natural, nas línguas tal como são faladas no contexto cultural a que pertence o auditório. E isso permite uma explosão em termos de expressão e de comunicação, pois um orador pode jogar com a ambiguidade, pode explorar as palavras para infundir o riso, ou para usar a ironia. Há um mundo de possibilidades que é praticamente inesgotável.
Não é possível demonstrar que determinado candidato à Presidência da República será mau Presidente, se eleito. Mas é possível persuadir um auditório dessa probabilidade e de levá-lo a aceitar como verosímil essa tese, conduzindo-o a concluir que a eleição desse candidato não é desejável.
Ora, na demonstração utilizam-se argumentos lógico-matemáticos, com um rigor lógico inquestionável (nós demos o silogismo como um exemplo, ainda que bastante rudimentar, de demonstração lógica). Mas na argumentação também se usam argumentos (como não poderia deixar de ser, pois, caso contrário, o termo “argumentação” estaria desajustado), mas estes argumentos são mais abertos nas suas possibilidades de exploração.
A argumentação (legítima) deve ser coerente, ou seja, não pode violar os princípios lógicos da razão, nem usar argumentos falaciosos. E os argumentos que podem ser utilizados como instrumentos retórico-argumentativos, são de três tipos:

1. Argumentos quase-lógicos. Estão ligados ao domínio do pensável, do que pode ser pensado e do que deve ser pensado. Quando um orador afirma que uma tese oposta à sua (ou um argumento) não tem sentido, não tem sustentabilidade lógica, está a usar um argumento quase-lógico. O mesmo se passa se utilizar enunciados lógicos para sustentar uma tese, apelando à sua razoabilidade interna (à sua racionalidade, à sua aceitabilidade racional).

2. Argumentos sobre a estrutura do real. Trata-se de argumentos que têm uma radicação ontológica: referem-se ao que existe, ao que é real e ao que não é admissível como fazendo parte da realidade. E há que partir do princípio que o real é o que é admitido pelo auditório como existente. Assim, há auditórios que consideram reais entidades que são irreais para outros auditórios: para um auditório de pessoas crentes o demónio pode ser real, enquanto que para um auditório de advogados, isso já não é verdade. Por isso o orador deve referir-se à realidade tal como esta é vista pelo auditório
.
3. Argumentos que fundam a estrutura do real. São argumentos que se referem ao que torna possível a realidade, têm, para usarmos uma terminologia filosófica, uma dimensão metafísica (é de notar que a ontologia e a metafísica podem ser considerados termos sinônimos). Para um cristão, o mundo pode ter a estrutura que tem porque Deus o criou assim, da mesma forma o mal existe por causa do pecado de Adão. Mas para outro auditório estas explicações não terão sentido."

in: http://www.espanto.info/av/ad.htm







Lola



terça-feira, 5 de novembro de 2013

Argumentação

   
 Filme "Advogado do Diabo"

Argumentação


Quando usamos a argumentação?
No nosso quotidiano usamos constantemente a linguagem: das conversas entre amigos às
intervenções nas aulas, das pequenas mensagens SMS aos trabalhos escolares, a língua é o instrumento
permanentemente usado. E se é verdade que a maior parte desses actos de comunicação tem um carácter
informativo, não é menos verdade que um bom número deles tem um carácter argumentativo. Quando
queremos defender um ponto de vista, quando apresentamos a nossa opinião, quando propomos uma
solução para um problema ou quando queremos convencer os outros a aceder a um pedido nosso, temos que
argumentar. Na verdade, pensando bem, argumentamos muito e muito frequentemente. Por vezes
enfrentamos a oposição dos outros e então temos que argumentar ainda melhor para os convencer. E
argumentar bem é um acto de inteligência que, para ser eficaz, tem as suas regras.

O que é argumentar?

Argumentar é, pois, expressar uma convicção, um ponto de vista, que é desenvolvido e explicado
de forma a persuadir o ouvinte/leitor. Para isso, é necessário que apresentemos um raciocínio coerente e
convincente, baseado na verdade, e que influencie o outro, levando-o a pensar/agir em conformidade com
os nossos objectivos.

Argumentar é o mesmo que persuadir?

Argumentar é persuadir racionalmente, mas nem toda a persuasão é racional. Há a persuasão
emocional, muito usada, por exemplo, em publicidade. (Quando um anúncio publicitário nos convence a
comprar um determinado produto, não pelas qualidades desse produto que responde a necessidades nossas,mas porque, ao associar essa marca a um determinado padrão de vida, nos leva a crer que adquirindo aquele artigo passaremos a usufruir desse padrão de vida). A diferença entre a persuasão racional e a emocional reside no facto de, na primeira, se fazer apelo à razão, enquanto na segunda, se apelar a desejos, sentimentos,medos, emoções, frustrações.

O que é um texto argumentativo?

O texto argumentativo é, então, o que visa convencer, persuadir ou influenciar o ouvinte/leitor, ao qual se apresenta um ponto de vista - uma tese - cuja veracidade se demonstra e prova. Como? Começando por apresentar a tese, a partir da qual se desenvolve o raciocínio, a argumentação, constituída por um conjunto de argumentos logicamente encadeados, sustentados em provas e, normalmente, ilustrados e credibilizados por exemplos. E o que é um argumento? Argumento é uma quantidade de informação ou de
dados organizados – as premissas – que sustentam o ponto de vista e conduzem à conclusão da veracidade da tese que se pretende defender.

Quando temos que construir um texto argumentativo?

Na vida escolar, na vida profissional, e no exercício da nossa cidadania, precisamos, com frequência, de elaborar textos argumentativos.
A dissertação, o comentário, a exposição escrita, mas também um simples artigo de opinião ou uma crítica de cinema ou de música exigem a elaboração de um texto argumentativo bem estruturado,segundo um esquema lógico. 
Do mesmo modo, a intervenção num debate ou numa reunião, uma campanha para a associação de estudantes, um discurso político ou uma alegação judicial obrigam a
uma construção argumentativa muito cuidada.







Para que serve argumentar?

Algumas pessoas pensam que argumentar é apenas expor os seus preconceitos de uma forma nova. E por isso que muita gente considera que argumentar é desagradável e inútil, confundindo argumentar com discutir. Dizemos por vezes que discutir é uma espécie de luta verbal. Contudo, argumentar não é nada disso.
Neste livro "argumentar" quer dizer oferecer um conjunto de razões a favor de uma conclusão ou oferecer dados favoráveis a uma conclusão. Neste livro argumentar não é apenas a afirmação de determinado ponto de vista nem uma discussão. Os argumentos são tentativas de sustentar certos pontos de vista com razões. Neste sentido, os argumentos não são inúteis; na verdade, são essenciais. Os argumentos são essenciais, em primeiro lugar, porque constituem uma forma de tentarmos descobrir quais os melhores pontos de vista. Nem todos os pontos de vista são iguais. Algumas conclusões podem ser defendidas com boas razões e outras com razões menos boas. No entanto, não sabemos na maioria das vezes quais são as melhores conclusões. Precisamos, por isso, de apresentar argumentos para sustentar diferentes conclusões e, depois, avaliar tais argumentos para ver se são realmente bons.
Neste sentido, um argumento é uma forma de investigação. Alguns filósofos e activistas argumentaram, por exemplo, que criar animais só para produzir carne causa um sofrimento imenso aos animais e que, por tanto, é injustificado e imoral. Será que têm razão? Não podemos decidir consultando os nossos preconceitos. Estão envolvidas muitas questões. Por exemplo, temos obrigações morais para com outras espécies ou o sofrimento humano é o único realmente mau? Podem os seres humanos viver realmente bem sem carne? Alguns vegetarianos vivem até idades muito avançadas. Será que este facto mostra que as dietas vegetarianas são mais saudáveis? Ou será irrelevante, tendo em conta que alguns não vegetarianos também vivem até idades muito avançadas? (E melhor perguntarmos se há uma percentagem mais elevada de vegetarianos que vivem até idades avançadas.) Terão as pessoas mais saudáveis tendência para se tomarem vegetarianas, ao contrário das outras? Todas estas questões têm de ser apreciadas cuidadosamente, e as respostas não são, à partida, óbvias.
Os argumentos também são essenciais por outra razão. Uma vez chegados a uma conclusão baseada em boas razões, os argumentos são a forma pela qual a explicamos e defendemos. Um bom argumento não se limita a repetir as conclusões. Em vez disso, oferece razões e dados suficientes para que as outras pessoas possam formar a sua própria opinião. Se o leitor ficar convencido de que devemos realmente mudar a forma como criamos e usamos os animais, por exemplo, terá de usar argumentos para explicar como chegou a essa conclusão: é assim que convencerá as outras pessoas. Ofereça as razões e os dados que o convenceram a si. 
Ter opiniões fortes não é um erro. O erro é não ter mais nada.

Anthony Weston, A arte de argumentar, pp. 13 e 14, Gradiva

1. Explique porque motivo, segundo o texto, argumentar é para muita gente algo de desagradável e inútil.
2. Concorda com a ideia de que "argumentar é, essencialmente, uma forma de investigação".







A quem interessar:

Do filme " Prova de Amor"
  


                                                                                                                                        LOLA

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