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segunda-feira, 19 de março de 2018

Edmund Gettier e os contra exemplos



É a crença verdadeira justificada conhecimento?


Nos últimos anos fizeram-se várias tentativas para estabelecer as condições necessárias e suficientes para que alguém conheça uma dada proposição. Essas tentativas têm sido muitas vezes tais que podem ser formuladas de modo semelhante ao seguinte:

a) S sabe que P se, e só se,

i. P é verdadeira, 
ii. S acredita que P e 

iii. S está justificado a acreditar que P1



Por exemplo, Chisholm defende que o que se segue fornece as condições necessárias e suficientes para o conhecimento:2
b) S sabe P se, e só se,

i. S aceita que P, 
ii. S tem provas adequadas para P, e 

iii. P é verdadeira



Ayer apresenta as condições necessárias e suficientes para o conhecimento da seguinte maneira:2
c) S sabe que P se e só se

i. P é verdadeira, 
ii. S está seguro que P é verdadeira 

iii. S tem o direito de estar seguro que P é verdadeira.



Irei argumentar que a é falsa, pois as condições dadas acima não constituem uma condição suficientepara a verdade da proposição de que S sabe que P. O mesmo argumento irá mostrar que b e c falham se substituirmos “tem provas adequadas para” ou “tem o direito de estar seguro que” por “está justificado em acreditar que”.
Irei começar por chamar a atenção sobre dois aspectos. Em primeiro lugar, se tomarmos “justificado” no sentido em que S está justificado em acreditar que P constitui uma condição necessária para que S saiba que P, então é possível que uma pessoa esteja justificada em acreditar numa proposição que é de facto falsa. Em segundo lugar, para toda a proposição P, se S está justificado em acreditar que P e P implica Q e S deduz Q de P e aceita Q como resultado desta dedução, então S está justificado em acreditar que Q. Tomando em consideração estes dois aspectos, irei passar a apresentar dois casos nos quais as condições estabelecidas em a se verificam para algumas proposições, apesar de ser ao mesmo tempo falso que a pessoa em causa conheça essa proposição.

Caso I

Suponha-se que Smith e Jones se tinham candidatado a um certo emprego. E suponha-se que Smith tem fortes provas a favor da seguinte proposição conjuntiva:
d) Jones é o homem que vai conseguir o emprego, e Jones tem dez moedas no bolso.
As provas que Smith tem a favor de d podem ser que o presidente da companhia lhe tenha assegurado que no fim Jones seria seleccionado e que ele, Smith, tenha contado as moedas do bolso de Jones há dez minutos. A proposição d implica:
e) O homem que vai ficar com o emprego tem dez moedas no bolso.
Suponha-se que Smith vê que d implica e e que aceita e com base em d, a favor da qual ele tem fortes provas. Neste caso, Smith está claramente justificado em acreditar que e é verdadeira.
Mas imagine-se que, além disso, sem Smith o saber, é ele e não Jones que vai ficar com o emprego. Imagine-se também que, sem o saber, ele próprio tem dez moedas no bolso. A proposição e é assim verdadeira, apesar de a proposição d, a partir da qual Smith inferiu e, ser falsa. Assim, no nosso exemplo, as seguintes proposições são verdadeiras: 1) é verdadeira, 2) Smith acredita que e é verdadeira e 3) Smith está justificado a acreditar que e é verdadeira. Mas é igualmente claro que Smith não sabe que e é verdadeira; pois e é verdadeira em virtude das moedas que estão no bolso de Smith, ao passo que Smith não sabe quantas moedas tem no bolso e baseia a sua crença em e no facto de ter contado as moedas do bolso de Jones, que ele erradamente acredita tratar-se do homem que irá ficar com o emprego.

Caso II

Suponha-se que Smith tem fortes provas a favor da seguinte proposição:
f) Jones tem um Ford.
As provas de Smith poderão ser que, desde que ele se lembra, Jones sempre teve um carro, e sempre foi um Ford, e Jones acabou de oferecer boleia a Smith enquanto estava ao volante de um Ford. Imaginemos agora que Smith tem outro amigo, Brown, ignorando por completo o seu paradeiro. Smith selecciona aleatoriamente três nomes de localidades e constrói as seguintes três proposições:

g) Ou Jones tem um Ford ou Brown está em Boston. 
h) Ou Jones teve um Ford ou Brown está em Barcelona. 

i) Ou Jones tem um Ford ou Brown está em Brest-Litovsk. 

implica cada um destas proposições. Suponha-se que Smith tem consciência de que f implica cada uma das três proposições que ele construiu e que procede à aceitação de g, h i com base em f. Smith inferiu correctamente g, h e i de uma proposição a favor da qual tem fortes provas. Smith está assim completamente justificado em acreditar em cada uma destas três proposições. Claro que Smith não faz ideia onde está Brown.
Mas imagine-se agora que se verificam mais duas condições. Em primeiro lugar, Jones não teve um Ford, mas andava a conduzir um carro alugado. Em segundo lugar, por uma grande coincidência, sem que Smith soubesse de nada, o lugar mencionado na proposição h é por acaso de facto o lugar onde Brown se encontra. Se estas duas condições se verificarem, então Smith não sabe que h é verdadeira, apesar de 1) h ser verdadeira, 2) Smith acreditar de facto na verdade de h e 3) Smith estar justificado a acreditar na verdade de h.
Estes dois exemplos mostram que a definição a não fornece uma condição suficiente para que alguém saiba uma dada proposição. Os mesmos casos, com as modificações apropriadas, serão suficientes para mostrar que nem a definição b nem a definição c fornecem tal condição.

Edmund Gettier
Originalmente publicado em Analysis 23:121-3 (1963), 
com o título “Is Justified True Belief Knowledge?”.)

Notas

  1. Platão parece estar a levar em consideração uma tal definição em Teeteto 291, e provavelmente aceita uma em Ménon 98.
  2. Roderick M. Chisholm, Perceiving: A Philosophical Study (Ithaca, NY, 1957), pp. 16.
  3. A. J. Ayer, The Problem of Knowledge (London, 1956).
Edmund Gettier
Tradução de Célia Teixeira
in Critica na rede




                                            Lola

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Edmund Gettier e os contra exemplos




Edmund Gettier e os contra-exemplos.



Tradicionalmente, define-se conhecimento como uma crença verdadeira justificada, definição tripartida, que diz respeito ao conhecimento proposicional, ou “de que”. Esta definição necessita, no entanto, de ser preenchida individualmente, ou seja, para que de facto haja conhecimento terá de haver a reunião das três condições supra referidas. Esta principal definição é focada, como sabemos, noTeeteto de Platão. 

 Gettier, põe em causa, num ensaio publicado em 1963, de modo conseguido esta tradicional definição tripartida, não com o objectivo de destruir esta definição, mas sim com o intuito de mostrar que a mesma é insuficiente. Gettier apresenta a sua contestação em relação à definição tradicional de modo sintético, dando origem, com seus exemplos contrários a uma problemática na definição tripartida. 

 Os contra-exemplos, que, como se indica no própria expressão, não reforçam a definição tripartida, ao invés pretendem demonstrar que a mesma é insuficiente, pretendem aperfeiçoar esta definição, dado que, como é referido, mesmo reunindo as três condições da definição tripartida, é possível que não haja conhecimento, ou que determinado sujeito não conheça determinado objecto.

 Apesar de as três condições serem aceites, estas carecem de algo que as complete. 

 Dois exemplos formulados por Edmund Gettier:

 Primeiro exemplo: 

 Smith e Jones candidatam-se ao mesmo emprego. Smith tem uma crença que o leva a formular a seguinte proposição: “Jones é o homem que ganhará o emprego e Jones tem dez moedas no bolso”. Esta proposição implica uma outra inferida por Smith, “o homem que ganhará o emprego tem dez moedas no bolso”. No final, é próprio Smith que ganha o emprego, e que por fruto da coincidência tem dez moedas no bolso. 

 Este exemplo apresenta assim um falso conhecimento, pois embora Smith esteja certo acerca da proposição que se infere, não é conhecimento. 

 Segundo exemplo: 

Suponhamos que Smith tem fortes indícios a favor da proposição seguinte: “Jones tem um Ford”. Infere também que ou Jones tem um Ford ou Jones está em Barcelona. Agora imagine-se que Jones tinha um Ford alugado, ou que, por mero acaso, Smith acertou ao inferir que Jones está em Barcelona. 

Mais uma vez se chega à conclusão de que Smith formula/detém um falso conhecimento, dado que, tendo em conta a definição tripartida, tem uma crença justificada, no entanto baseada em algo que se crê que seja verdade.
 Logo se evidencia um carácter rebuscado, nestes exemplos formulados por Gettier. 



Não obstante, há outros exemplos, que podem 

ser considerados equivalentes

 e talvez não menos rebuscados. 



Como é o enunciado por J. Dancy na obra "Epistemologia Contemporânea", o exemplo da "final de Wimbledon", formulado originalmente por Brian Garrett:

 «Um sujeito X assiste à final de Wimbledon na sua televisão, em que McEnroe vence Connors, o resultado é de dois a zero e match point para McEnroe, no terceiroset McEnroe ganha o ponto.» O sujeito X, que assiste ao jogo, crê que McEnroe é o campeão do ano presente, em Wimbledon. No entanto, terá havido uma falha na comunicação televisiva e a televisão começou a passar a gravação da competição do ano passado. Ao mesmo tempo que isto, e por puro acaso, McEnroe está prestes a ganhar o torneio, como havia feito o ano passado. 

 Outro exemplo, e este extremamente conhecido,  é o de Bertrand Russel, trata-se do exemplo do "relógio da igreja":

Um sujeito X, ao olhar o relógio da igreja, verifica que são, suponhamos, 10 horas, o que o sujeito não sabe é que o mesmo relógio havia parado o dia anterior, exactamente às 10 horas. 

 Mesmo em ambos os últimos exemplos, apesar de rebuscados, se denota o intuito de demonstrar fraqueza na teoria tradicional do conhecimento como crença verdadeira justificada. Poderíamos preencher cada uma das três condições, com os exemplos enunciados, e, ainda assim, seria difícil admitir que sujeito X conhece factualmente e verdadeiramente dado fenómeno.  

* Cf. The cow in the field, cenário formulado pelo filósofo Martin Cohen.


Luís Mendes





                                                                                  Lola

Edmund Gettier e os contra exemplos



Edmund Gettier e os contra exemplos

É a crença verdadeira justificada conhecimento?

Edmund Gettier

Nos últimos anos fizeram-se várias tentativas para estabelecer as condições necessárias e suficientes para que alguém conheça uma dada proposição. Essas tentativas têm sido muitas vezes tais que podem ser formuladas de modo semelhante ao seguinte:
a) S sabe que P se, e só se,
i. P é verdadeira,
ii. S acredita que P e
iii. S está justificado a acreditar que P1
Por exemplo, Chisholm defende que o que se segue fornece as condições necessárias e suficientes para o conhecimento:2
b) S sabe P se, e só se,
i. S aceita que P,
ii. S tem provas adequadas para P, e
iii. P é verdadeira
Ayer apresenta as condições necessárias e suficientes para o conhecimento da seguinte maneira:2
c) S sabe que P se e só se
i. P é verdadeira,
ii. S está seguro que P é verdadeira
iii. S tem o direito de estar seguro que P é verdadeira.
Irei argumentar que a é falsa, pois as condições dadas acima não constituem uma condição suficiente para a verdade da proposição de que S sabe que P. O mesmo argumento irá mostrar que b e c falham se substituirmos "tem provas adequadas para" ou "tem o direito de estar seguro que" por "está justificado em acreditar que".
Irei começar por chamar a atenção sobre dois aspectos. Em primeiro lugar, se tomarmos "justificado" no sentido em que S está justificado em acreditar que P constitui uma condição necessária para que S saiba que P, então é possível que uma pessoa esteja justificada em acreditar numa proposição que é de facto falsa. Em segundo lugar, para toda a proposição P, se S está justificado em acreditar que P e P implica Q e S deduz Q de P e aceita Q como resultado desta dedução, então S está justificado em acreditar que Q. Tomando em consideração estes dois aspectos, irei passar a apresentar dois casos nos quais as condições estabelecidas em a se verificam para algumas proposições, apesar de ser ao mesmo tempo falso que a pessoa em causa conheça essa proposição.

Caso I

Suponha-se que Smith e Jones se tinham candidatado a um certo emprego. E suponha-se que Smith tem fortes provas a favor da seguinte proposição conjuntiva:
d) Jones é o homem que vai conseguir o emprego, e Jones tem dez moedas no bolso.
As provas que Smith tem a favor de d podem ser que o presidente da companhia lhe tenha assegurado que no fim Jones seria seleccionado e que ele, Smith, tenha contado as moedas do bolso de Jones há dez minutos. A proposição d implica:
e) O homem que vai ficar com o emprego tem dez moedas no bolso.
Suponha-se que Smith vê que d implica e e que aceita e com base em d, a favor da qual ele tem fortes provas. Neste caso, Smith está claramente justificado em acreditar que e é verdadeira.
Mas imagine-se que, além disso, sem Smith o saber, é ele e não Jones que vai ficar com o emprego. Imagine-se também que, sem o saber, ele próprio tem dez moedas no bolso. A proposição e) é assim verdadeira, apesar de a proposição d, a partir da qual Smith inferiu e, ser falsa. Assim, no nosso exemplo, as seguintes proposições são verdadeiras: 
1) e) é verdadeira, 
2) Smith acredita que e) é verdadeira e 
3) Smith está justificado a acreditar que e) é verdadeira. Mas é igualmente claro que Smith não sabe que e) é verdadeira; pois e) é verdadeira em virtude das moedas que estão no bolso de Smith, ao passo que Smith não sabe quantas moedas tem no bolso e baseia a sua crença em e) no facto de ter contado as moedas do bolso de Jones, que ele erradamente acredita tratar-se do homem que irá ficar com o emprego.

Caso II

Suponha-se que Smith tem fortes provas a favor da seguinte proposição:
f) Jones tem um Ford.
As provas de Smith poderão ser que, desde que ele se lembra, Jones sempre teve um carro, e sempre foi um Ford, e Jones acabou de oferecer boleia a Smith enquanto estava ao volante de um Ford. Imaginemos agora que Smith tem outro amigo, Brown, ignorando por completo o seu paradeiro. Smith selecciona aleatoriamente três nomes de localidades e constrói as seguintes três proposições:
g) Ou Jones tem um Ford ou Brown está em Boston.
h) Ou Jones teve um Ford ou Brown está em Barcelona.
i)  Ou Jones tem um Ford ou Brown está em Brest-Litovsk.
implica cada um destas proposições. Suponha-se que Smith tem consciência de que implica cada uma das três proposições que ele construiu e que procede à aceitação de g, h i com base em f. Smith inferiu correctamente g, h e i de uma proposição a favor da qual tem fortes provas. Smith está assim completamente justificado em acreditar em cada uma destas três proposições. Claro que Smith não faz ideia onde está Brown.
Mas imagine-se agora que se verificam mais duas condições. 
Em primeiro lugar, Jones não teve um Ford, mas andava a conduzir um carro alugado. 
Em segundo lugar, por uma grande coincidência, sem que Smith soubesse de nada, o lugar mencionado na proposição h é por acaso de facto o lugar onde Brown se encontra. Se estas duas condições se verificarem, então Smith não sabe que h é verdadeira, apesar de 
1) h ser verdadeira, 
2) Smith acreditar de facto na verdade de h 
e
 3) Smith estar justificado a acreditar na verdade de h.



Estes dois exemplos mostram que a definição a não fornece uma condição suficiente para que alguém saiba uma dada proposição. Os mesmos casos, com as modificações apropriadas, serão suficientes para mostrar que nem a definição b nem a definição fornecem tal condição.
Edmund Gettier Universidade de Massachusetts Amherst
Tradução de Célia Teixeira
Originalmente publicado em Analysis 23:121-3 (1963), com o título "Is Justified True Belief Knowledge?".

Notas

  1. Platão parece estar a levar em consideração uma tal definição em Teeteto 291, e provavelmente aceita uma em Ménon 98.

  2. Roderick M. Chisholm, Perceiving: A Philosophical Study (Ithaca, NY, 1957), pp. 16.

  3. A. J. Ayer, The Problem of Knowledge (London, 1956).
In Critica

Texto original em inglês
http://fitelson.org/proseminar/gettier.pdf













                                             Lola

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