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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Os valores



Os valores

Podemos classificar os valores de um duplo ponto de vista: formal e material. 

Do ponto de vista formal, os valores dividem-se em:

1 - Positivos e negativos. Valor positivo é aquele que mais geralmente costumamos designar pela expressão pura e simples de “valor”. O conceito de “valor” é geralmente usado numa dupla acepção: umas vezes, entende-se por esta palavra o valor em geral, independentemente da polaridade valor-desvalor, como conceito neutro, outras vezes entende-se só o seu aspecto positivo contraposto ao negativo. Ao valor positivo contrapõe-se o negativo, chamando-se então a este mais propriamente “desvalor”. Esta polaridade pertence à própria estrutura essencial da ordem axiológica, que assim se distingue fundamentalmente da ordem do ser a que é estranha uma tal estrutura.

2 - Valores das pessoas e valores das coisas, ou valores pessoais e reais. Valores das pessoas ou pessoais são aqueles que só podem pertencer a pessoas, como os valores éticos. Reais (de res) os que aderem a objectos ou coisas impessoais, como os das coisas ditas valiosas, designadas mais geralmente pela expressão “bens”.

3 - Valores em si mesmo, ou autónomos e valores derivados de outros ou dependentes. O valor em si reside na sua mesma essência; possui esse carácter com independência de todos os outros valores; não depende deles; não é meio para eles.
Como todos os valores se acham referidos a um sujeito – o sujeito humano, o homem - e este é, antes de mais nada, um ser constituído por sensibilidade e espírito, daí o poderem classificar-se imediatamente todos os valores nas duas classes fundamentais de: valores sensíveis e valores espirituais. Os primeiros referem-se ao homem enquanto simples ser da natureza, os segundos ao homem como ser espiritual. 

A – Valores sensíveis.

A esta categoria pertencem:

1 – Os valores do agradável e do prazer, também chamados “hedónicos”. Ela abrange não só todas as sensações de prazer e satisfação, como tudo aquilo que é apto a provocá-las (vestuário, comida, bebidas, etc.). À ética que apenas conhece estes valores chama-se geralmente hedonismo.

2 - Valores vitais ou da vida. São aqueles valores de que é portadora a vida, no sentido naturalista desta palavra, isto é, Bios. Cabem aqui o vigor vital, a força, a saúde, etc. Como se sabe, foram estes os valores que Nietzsche reputou os mais elevados de todos na sua escala axiológica, como os únicos mesmo. E ao que se chama biologismo ético ou naturalismo.

3 - Valores de utilidade. Coincidem com os chamados valores económicos. Referem-se a tudo aquilo que serve para a satisfação das nossas necessidades da vida (comida, vestuário, habitação, etc.) e ainda aos instrumentos que servem para a criação destes bens. Distinguem-se dos restantes valores desta classe, nomeadamente dos sensíveis, para os quais aliás concorrem, por não serem, do ponto de vista formal, autónomos, mas derivados, no sentido que acima vimos.

B – Valores espirituais.
 
Estes distinguem-se dos valores sensíveis, no seu conjunto, não só pela imaterialidade que acompanha a sua perdurabilidade, como pela sua absoluta e incondicional validade. Muitos filósofos, que encaram os valores só por este último lado, identificando-os por isso com o conceito de simples “valor” ou validade formal, pretendem que só os valores espirituais são verdadeiros valores.Porém, quem se lembraria de negar aos economistas o direito de usarem também do termo e do conceito de valor? À categoria dos valores espirituais pertencem:

1- Os valores lógicos. Quando se fala de valores lógicos, é preciso ter presente que se podem entender por esta expressão duas coisas distintas: a função do conhecimento – o saber, a posse da verdade e o esforço para a alcançar - e o conteúdo do conhecimento. No primeiro sentido, é óbvio que podemos falar, com todo o direito, em valores lógicos ou no valor do conhecimento. Contrapor-se-lhe-ão, como desvalor lógico, a ignorância, o erro, a falta de interesse pela verdade, a ausência de esforço para a alcançar, etc. Mas a expressão “valor lógico” pode significar também o próprio conteúdo do conhecimento. E, neste segundo caso, é “valor lógico” tudo aquilo que cai dentro do par de conceitos verdadeiro-falso [...].

2 - Valores éticos: ou do bem moral. Destes podem dar-se as seguintes características:

a) Só podem ser seus portadores as pessoas, nunca as coisas. Só seres espirituais podem encarnar valores morais. Por isso o âmbito destes valores é relativamente restrito; muito mais, por exemplo, que o dos estéticos.

b) Os valores éticos aderem sempre a suportes reais. Também, por este lado, se distinguem dos valores estéticos, cujo suporte é constituído por algo de irreal, de mera aparência.

c) Os valores éticos têm o carácter de exigências e imperativos absolutos. Dele desprende-se sempre um categórico “tu deves fazer” ou “tu não deves fazer”, isto ou aquilo; exigem, imperiosamente, que a consciência os atenda e os realize. E nisto se separam também dos estéticos que não impõem nenhuma exigência desta natureza, nem se nos impõem incondicionalmente.

 d) Os valores éticos dirigem-se ao homem em geral, a todos os homens; são universais, a sua pretensão a serem realizados é universal. Os estéticos não estão neste caso, apenas dirigem o seu apelo a alguns homens, para que estes os realizem, e nem todos podem ser obrigados a dar-lhe acolhimento, a fazer arte, ou a cultivá-las de qualquer maneira. 

e) Além disso, é, pode dizer-se, ilimitada também a exigência que os valores éticos nos fazem: constituem uma norma ou critério de conduta que afecta todas as esferas da nossa actividade e da nossa conduta da vida. Esta acha-se sujeita, total e incondicionalmente, a eles na sua imperiosa jurisdição e validade. Nada deve ser feito que os contrarie. Poderia definir-se esta característica dos valores éticos chamando-lhes totalitários. Não assim os valores estéticos. Estes só reclamam de nós que os realizemos em certas situações e momentos da vida, permanecendo calados durante os restantes; não somos obrigados a ser estetas e, menos ainda, a toda a hora (…).

3 - Valores estéticos, ou do Belo. Incluímos aqui no conceito de belo, no mais amplo sentido desta palavra, o sublime, o trágico, o amorável, bonito outros.

4 - “Valores religiosos ou do”sagrado”. Já atrás aludimos ao que há de original nestes valores. A eles não adere propriamente nenhum “deve ser”. Não temos que realizar esses valores; nem isso é possível nem necessário. Não são valores de um “deve ser”, mas valores de um “ser”; Nisto se afastam dos valores éticos para se aproximarem dos estéticos com os quais estão numa relação muito íntima. Todavia, existe também entre eles e estes últimos uma diferença que cumpre salientar: a realidade do “sagrado”, não é, como a do “Belo”, apenas uma realidade aparente, mas uma realidade no mais eminente sentido desta palavra.

Johannes Hessen, Filosofia dos Valores,
 Ed. Arménio Amado; Coimbra. pp. 107-117



Lola

domingo, 2 de novembro de 2014

Os Valores





Os Valores



O que são?

Os valores definem-se como sendo entidades virtuais; não existem na realidade, não são propriedade dos objectos, são atribuídos às coisas, pessoas e situações  por um sujeito. Valor implica sempre uma relação de um sujeito com um objecto, pessoa ou situação  ao qual este atribui um determinado valor.
Também se apresentam como entidades ideais que representam a perfeição e o seu oposto. Na perseguição de valores, o Homem vai-se aperfeiçoando.

Como se caracterizam?

As características fundamentais dos valores são a hierarquia e a polaridade. Primeiro, os valores apresentam-se sempre numa escala que vai do menos para o mais. A esta ordenação qualitativa dos valores dá-se o nome de hierarquização e varia de pessoa para pessoa; cada um tem a sua escala de valores que vai influenciar as suas escolhas.
Por outro lado, os valores aparecem sempre com uma dupla face: positiva e negativa. A um pólo positivo (por exemplo: bonito) opõe-se sempre um pólo negativo (no exemplo: feio).

Juízos de Facto e Juízos de Valor

Existem juízos de facto e juízos de valor. Pelos juízos de facto entendemos os que são descritivos ou de existência. Descrevem e informam acerca da realidade concreta sem emitir preferências e apreciações. Podem ser facilmente considerados verdadeiros ou falsos, conforme se adequam ou não à realidade, e podem ser objecto de verificação empírica. Isto é, em relação ao juízo: "A árvore deu frutos.", que é um juízo de facto, eu posso olhar e verificar se é verdade ou não verdade.
Os juízos valorativos julgam factos e realidades em função de preferências axiológicas.Estes juízos não são verificáveis empiricamente e não são, normalmente, alvo de consensos. Podem ser de apreciação moral, estética, religiosa, vital, de utilidade, entre outros.

Valores e Acção Humana

Os valores são guias de acção, aquilo que “põe em movimento” os comportamentos, as condutas das pessoas. Na nossa vida estamos sempre a fazer juízos de valor e a guiarmo-nos por eles. Eles orientam a vida e marcam a personalidade; uma pessoa define-se, diz quem é, em função dos valores que tem.
Os valores orientam as nossas preferências; eu prefiro isto ou aquilo em função dos valores que tenho. Por exemplo, se a igualdade de direitos é um valor importante para mim, eu vou optar por não discriminar as pessoas pela sua raça.
Por causa dos valores as coisas apresentam-se-me de forma diferenciada. Ou seja, o mundo não é todo igual para mim, há coisas de que eu gosto e coisas de que eu não gosto; há coisas que eu admiro e coisas que não; há coisas que eu respeito e outras que não respeito. É em função deste colorido que os valores conferem ao mundo, que o Homem escolhe e age.
Assim, é o valor que confere sentido à vida, serve para a nossa orientação pessoal.

Serão os valores históricos ou perenes?

Em relação à axiologia, teoria dos valores, podemos observar a tese da subjectividade, que se opõe à da objectividade dos valores e a da historicidade, que se opõe à perenidade dos valores.
A tese da perenidade defende que o valor não depende da época histórica. A perenidade é do valor e não dos objectos em que ele se manifesta. Por exemplo, a honestidade e amizade sempre foram considerados valores ao longo do tempo, as suas manifestações, exemplos e realizações é que podem sofrer alterações.
A tese da historicidade defende que os valores mudam conforme a época histórica. Isto está ligado a uma ideia de relativismo axiológico que defende que o que é ou não valor é completamente relativo. Tudo muda e os valores também!

Como conciliar historicidade e perenidade dos valores?

Podemos afirmar, como tese intermédia, que apesar dos valores sofrerem obviamente uma influência do tempo, até surgem novos valores, há algo de perene nos valores; amizade será sempre um valor importante, embora o seu conceito sofra inevitavelmente alterações.

Serão os valores objectivos ou subjectivos?

As teses da subjectividade ou objectividade diferem porque uma defende que se gosta das coisas porque elas têm valor, o valor existe como algo de absoluto,independentemente das coisas e dos homens, que apenas os descobrem,
enquanto a outra afirma que as coisas assumem valor porque um sujeito gosta delas; assim o valor é sempre uma criação do Homem, sendo dependente da apreciação do sujeito. Está presente no ditado popular: "Quem feio ama, bonito lhe parece."

Como conciliar subjectividade e objectividade dos valores?

A tese que concilia as duas posições defende que os valores não existem independentemente das coisas, eles apenas valem, não têm existência independente. Mas são propriedade real das coisas que despertam os valores. No entanto, as coisas só são valiosas potencialmente, apenas adquirem realmente valor quando entram em interacção com o Homem. Só nesta relação é que os valores fazem sentido.

Haverá, hoje, uma crise de valores?

Finalmente, hoje em dia fala-se muito da crise de valores e da emergência de novas polarizações.
Vivemos uma época de grandes mudanças a todos os níveis. Por esse motivo, há também a emergência de novas polarizações de valores. Assim, numa fase de revisão daquilo que era considerado valor, a que muitos autores chamam Época de Crise, porque há questionamento, alterações drásticas, há enormes mudanças, e na mudança há sempre algo de instabilidade, o que é normal e salutar (crise em grego significa questionamento e decisão; não é um termo negativo). Surge a consciência de que aspectos que não faziam parte das nossas preocupações passam a fazer. Deste modo, não há apenas diferenças na hierarquia dos valores clássicos, mas há mesmo valores que não existiam e passam a existir. Estamos a referir-nos, por exemplo, à ecologia. Se o planeta não estava em risco é óbvio que as pessoas não andavam preocupadas com o assumir deste valor. Hoje, os riscos inerentes à tomada de atitudes pouco correctas são tais que há a necessidade de sensibilizar todo o mundo para esta questão. Assim, a ecologia apresenta-se como um valor contemporâneo.


Alguns exemplos de conflitos de valores na sociedade 
contemporânea:

Ø Defende-se o progresso industrial ou o ambiente?
Ø  Defende-se o ideal internacionalista ou o nacionalismo (patriotismo)’
Ø  Defende-se o valor da vida humana ou a interrupção voluntária da gravidez?
Ø  Como entender as sociedades descrentes e a proliferação de seitas religiosas?
Ø  União dos países ou diferença entre os países?
Ø  Progresso da Ciência e Técnica ou a fuga para sociedades paradisiacas (Caraíbas, Ilhas Fidgi, Cuba)?
Ø  Virgindade ou sexo antes do casamento?

Reflexões finais:
Poderemos interrogar se a denominada Crise de Valores é negativa e a resposta será NÃO. E porquê? A alteração  de valores reflecte uma transformação social e cultural pois iniciam-se novos valores e novas orientações. Nenhum valor em crise leva a um vazio pois é superado por um novo valor.
Todo o valor é dialéctico – se se recusa um valor, afirma-se outro!

...e um texto

Em verdade, os homens deram a si próprios todo o bem e todo o mal. Em verdade, eles não o encontraram, não lhes caiu como uma voz do céu.
Foi o Homem que deu às coisas o seu valor, a fim de se pôr em segurança; foi ele que lhes deu um sentido, um sentido humano. Por isso, ele é chamado homem – o medidor das coisas.
Avaliar é criar – escutai, ó criadores! São as vossas avaliações que transformam as coisas avaliadas em tesouros e em jóias.
Avaliar é criar valores: sem tal avaliação, a existência seria uma noz oca.”


F. Nietzsche, Assim falou Zaratustra.



                                            Lola
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