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segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Gilles Lipovetsky





Gilles Lipovetsky:


”O luxo do futuro vai ser o luxo do amor por aquilo que fazemos”




O filósofo francês Gilles Lipovetsky fotografado no atelier da artista portuguesa Joana Vasconcelos. (PAULO SPRANGER/Global Imagens


O filósofo francês Gilles Lipovetsky esteve em Lisboa à conversa com Joana Vasconcelos. Um fim de tarde desafiante para a plateia plena e atenta no atelier da artista, onde se falou de beleza, de prazer, de sonho. E de como o luxo está sempre presente nas nossas vidas.

Há décadas que Gilles Lipovetsky pensa os tempos que vivemos. Ele vê coisas antes dos outros, escreve-as, conta-as. Este ser que ao mesmo tempo vive e assiste ao correr das sociedades, tenta entender fenómenos. Como o do luxo, o pretexto que o trouxe aqui, a Lisboa, mais precisamente ao atelier da artista plástica Joana Vasconcelos.
Numa conversa promovida no âmbito do lançamento das 11ª e 12ª edições do Programa Executivo de Gestão do Luxo da Católica Lisbon Business & Economics (que se iniciam a 27 de setembro em Lisboa e a 3 de Outubro no Porto), moderada pela diretora Mónica Seabra Mendes, Gilles e Joana partilharam cumplicidades. E o mestre, deu uma lição.
“Se tivermos uma abordagem antropológica e histórica, não conhecemos nenhuma sociedade sem formas de luxo. Todas as comunidades desenvolveram formas de gastar muito dinheiro de alguma forma”, refere Lipovetsky
Contou que o luxo sempre existiu, e que há várias formas de o encarar. Para um “espírito moralista, o desaparecimento do luxo seria positivo porque alguns têm tudo e mais que tudo, e gastam fortunas enquanto outros morrem à fome. O luxo é escandaloso”. Mas Lipovetsky acrescenta uma nova camada de análise: “se tivermos uma abordagem antropológica e histórica, não conhecemos nenhuma sociedade sem formas de luxo. Todas as comunidades desenvolveram formas de gastar muito dinheiro de alguma forma”, refere, dando como exemplo os quadros, as esculturas, as catedrais. “Enquanto o povo morria à fome, havia este tipo de luxo”.
Gilles Lipovetskye Joana Vasconcelos conversaram sobre Luxo, Moda e Arte

 Por isso, para o filósofo francês, que por estes dias cumpre 75 anos, o importante não é eliminar o luxo – que implicaria eliminar igrejas ou velhas cidades, como Veneza, que é “uma demonstração de luxo”. Nem sequer a arte e a sua “inutilidade” – “neste amor pela arte celebramos a virtude da criação humana, do Homem fazer coisas que não têm utilidade material imediata. Isto é uma fome de luxo”. O importante é que toda a gente tenha a acesso à arte. E isto parte da inversão daquilo que é o luxo aos olhos da sociedade de consumo, da posse de um objeto. “O importante não é a posse das obras. A felicidade é mesmo a partilha, a felicidade de todos os consumidores que vão aos museus. Devemos trabalhar para que esse amor pelo luxo dentro da arte seja acessível a cada vez mais pessoas”, disse o pensador. Na sala, várias peças da artista. Na primeira fila da plateia, a ministra da Cultura, Graça Fonseca.
Para Gilles Lipovetsky, “o luxo do objeto vai continuar, mas vai haver o espaço e o tempo, a relação com nós próprios. Estas perspetivas vão tornar-se uma experiência de luxo”
Joana Vasconcelos considera que “o luxo é uma necessidade essencial do ser humano que não pode existir sem o ideal de beleza, sem a representação do sonho”. A artista portuguesa e o filósofo francês concordam em muita coisa, como foram pontuando. “O luxo é muito importante na ideia de desejo, de algo que não existe no dia a dia”, disse Joana Vasconcelos. A diferença é que “alguns extratos sociais podem comprar o sonho. Alguns podem sonhar em comprar esse luxo. Mas queremos todos viver noutro mundo”.
A conversa foi intensa e saborosa. A moderadora foi recebendo questões da audiência. E qual será o futuro do luxo? Para Gilles Lipovetsky, “o luxo do objeto vai continuar, mas vai haver o espaço e o tempo, a relação com nós próprios. Estas perspetivas vão tornar-se uma experiência de luxo”, referiu lembrando que “há pessoas que gastam fortunas para parar, em retiros, para parar o telemóvel e o SMS”.
“Estamos numa sociedade da velocidade e isso é esgotante. O luxo está associado a uma certa lentidão, a um estado existencial“, referiu o filósofo. “Já assistimos hoje a pequenos fenómenos interessantes, a multiplicação de aulas privadas para aprender pintura, cerâmica. Isto é um luxo. O luxo do futuro vai ser o luxo do amor por aquilo que fazemos. Devemos encorajar a capacidade das pessoas realizarem aquilo de que gostam”, acentuou Gilles Lipovetsky revelando que está a escrever um livro sobre autenticidade, “o maior luxo que existe”.
A conversa fluiu para outros temas. Joana sempre em sintonia com Gilles: “Eu faço aquilo que o Gilles pensa. Eu traduzo um espírito contemporâneo, partilho o espírito do Gilles e represento-o”. O pensador ainda falou sobre a mulher e o movimento #MeToo. “Algumas artistas mulheres estão sempre a desenvolver uma situação de vítimas. Eu não encontro isso no trabalho da Joana. Ela faz Valquírias, e as Valquírias não têm medo, não se estão sempre a vitimizar”, disse o filósofo francês, para quem o movimento MeToo vai “longe de mais na vitimização”.
“A fealdade vende-se mal. O feio não é um bom negócio. Os consumidores não são brutos”
E sim, o capitalismo: “não devemos diaboliza-lo, devemos fazer com que evolua. Devemos divulgar a arte nos cursos de Gestão. Precisamos de sensibilidade e gestores que a entendam!” – entusiasma-se. “Vejam a Apple! Tornou-se a marca mais valorizada do mundo numa opção pelo design, pelo pormenor!”. Não tardaria a dizer: “A fealdade vende-se mal. O feio não é um bom negócio. Os consumidores não são brutos”.
Quase a terminar, números para os gestores pensarem: “O mercado de Hollywood e da música ultrapassam juntos o volume da Boeing. O mercado da sensibilidade dá mais dinheiro nos EUA do que os aviões. É o impacto das indústrias culturais! Há algo de superior, não se trata só de comida, é algo mais. E é extraordinári
Texto de Marina Almeida | Fotografias de Paulo Spranger/Global Imagens
 Diario de Noticias
23/09/2019



                                                Lola

terça-feira, 23 de maio de 2017

Gilles Lipovetsky







Gilles Lipovetsky:‘as pessoas sonham 

com uma existência mais leve’


"Gadgets, propagandas divertidas, reality shows e games, música popular e de programas de auditório, espetáculos e animações contínuas: a oposição entre o econômico e o frívolo se embaralhou; nosso princípio de realidade se confunde agora com o princípio de superficialidade.
Universo da necessidade e universo fútil se entrelaçam, se cruzam, se hibridam: a lógica da leveza não é mais o 'outro' da realidade econômica; ela é seu coração." 
- Gilles Lipovetsky, Da leveza - rumo a uma civilização sem peso (Ed. Amarilys, 2016)


Considerado um dos principais e mais originais pensadores sobre a sociedade de hoje, Lipovetsky é um teórico da hipermodernidade cujas ideias refletem mais sobre a alimentação, a moda, a tecnologia, as dietas e o lazer do que as macroestruturas econômicas, políticas ou sociais.

Este amplo e "inusitado" campo de pesquisa (ao menos para um filósofo com tamanho respeito do mundo acadêmico), resultou em outra obra inovadora, que apresenta as transformações do mundo nos mais diversos aspectos como um caminho em direção à civilização da leveza.
Na análise de Lipovetsky, o leve invadiu nossa rotina e transformou nosso imaginário, tornando-se um valor e um ideal. Na sociedade pós-moderna, o mundo virtual, os dispositivos móveis, os nanomateriais estão mudando nosso cotidiano. Por todos os lados, a ordem é conectar, miniaturizar, desmaterializar. 

Na contramão dessa tendência, contudo, ele defende que a vida parece cada vez mais pesada e difícil de suportar; ironicamente, diz ele, seria essa leveza que alimenta a sensação de peso. Os imperativos de uma vida mais leve – dietas, desintoxicações, desaceleração, alívio do estresse, meditação e outras práticas – vêm acompanhados por demandas exigentes.

Às utopias do desejo, sucederam as expectativas de leveza do corpo e do espírito, de uma vida cotidiana menos estressante, de um presente menos pesado de carregar: viver melhor não se separa mais da leveza de ser



Em entrevista, Lipovetsky fala mais sobre a obra.

No seu livro, o senhor avalia que a busca pela leveza se tornou uma pesada obsessão. Esse é um círculo vicioso?

Todo o universo da leveza é, para as pessoas, cada vez menos leve. Por isso eu falo em civilização do leve, que tem só uma aparência de leveza. Nas nossas democracias, vemos a multiplicação dos pós-materialismos, como o budismo, o zen, a meditação. Tudo para nos ajudar a respirar um pouco.

Pagamos o preço do individualismo, do estresse, da ansiedade. Ao mesmo tempo, as pessoas veem vídeos, ouvem música, saem de férias, viajam. É um paradoxo.
Eu acredito que nós estamos vivendo uma nova cultura democrática. Eu pertenço à geração da década de 1960 que tinha uma retórica revolucionária, que não era leve. Não é mais esse o espírito do tempo.
As pessoas não sonham mais com revolução, elas sonham com uma existência mais leve, mais equilibrada, menos conflituosa. Isso é infinitamente mais difícil porque se trata da busca eterna pela felicidade. E a solução para a felicidade nós não temos.
A obsessão pela leveza é um desdobramento do hiperconsumismo e do hiperindividualismo, que o senhor já abordou em livros anteriores?


A obsessão pela leveza é uma manifestação desses fenômenos, mas traz uma dimensão nova. Nós vivemos em um mundo tecnologicamente leve.

Nos últimos 50 anos, desenvolvemos uma série de técnicas que fizeram com que a leveza não fosse mais um sonho. Hoje, você tem a possibilidade de viajar o mundo inteiro em um celular que cabe no bolso, muito mais potente do que os primeiros computadores que pesavam uma tonelada. É inacreditável!
A civilização do leve conjuga três lógicas: a tecnocientífica, a capitalista e a individualista. E estamos apenas no início. O poder hoje está em dominar os menores elementos: a inteligência artificial, a engenharia genética, isso é o ultraleve. Antes, o poder era pesado. Castelos, ouro, canhões. Hoje, as maiores potências vendem bytes.
A civilização do leve valoriza o prazer, o consumo, o lazer e o entretenimento. Precisamos dessa leveza, mas ela precisa ter limites. É preciso dar às pessoas ferramentas para que elas construam uma leveza rica, não uma leveza pobre. Passar três horas no shopping é leve, mas é pobre. Uma hora, a leveza vira vazio.
É possível estabelecer uma relação entre a civilização do leve e o que você chama de “capitalismo artista"?


O capitalismo industrial tem na produção o seu motor. Nessa época, a produção é separada de outras manifestações, como a arte e a moda. A fábrica é a fábrica, a arte é a arte. Cada universo é bem separado.

A partir dos anos 1950, o consumo passa a ser o elemento mais dinâmico. Assistimos, então, à hibridação desses universos antes separados, o que dá uma leveza ao que antes era pesado. Produção e criatividade se misturam, criando o que chamo de capitalismo artista. A Apple é o exemplo perfeito desse capitalismo. É a hibridação entre o produto utilitário e o produto criativo.


In Globo


                                               Lola

Gilles Lipovetsky




Gilles Lipovetsky: 
Os paradoxos que enfrentamos e os valores que nos movem


Alimentação, moda, tecnologia, lazer, esportes: quem lê o trabalho de Gilles Lipovetsky compreende como as tendências sociais podem dizer muito mais sobre o mundo do que usualmente acreditamos.
É por seu trabalho sobre os desejos, valores e desafios que motivam (e frustram) as pessoas que o filósofo francês ficou conhecido como um dos pensadores mais originais do nosso tempo.
Em entrevista à ZH, Lipovetsky fala sobre seu novo livro e outros temas, como a desconfiança que toma a sociedade contemporânea, o desafio de viver em um tempo em que tudo está sendo construído e aquele que considera o grande problema do Brasil, um povo alegre e acolhedor que precisa conviver com políticas que dificultam a vida da população.
Ainda, dentro do tema do Fronteiras do Pensamento 2017, Civilização - a sociedade e seus valores, Lipovetsky confessa ser um otimista quanto ao futuro, porque "os valores que nos regem são os humanistas, mesmo que não sejam respeitados." Confira abaixo as ideias do pensador, que estará no segundo encontro desta temporada anual de conferências.

No livro Da Leveza — Para uma Civilização do Ligeiro, você analisa a procura atual pela leveza na vida, que no entanto não dispensa a obsessão pela performance da produção e pelo reconhecimento social. Em sua opinião, até que ponto esse paradoxo é sustentável?
 
Gilles Lipovetsky: 
De fato, o livro inteiro aborda esse sistema cada vez mais construído para tornar nossa vida mais leve — na técnica, no digital, na desmaterialização, no smartphone, na web, na nanotecnologia —, que também convive evidentemente com todo o mundo do consumo e da mídia, que são instâncias da leveza.
Os valores veiculados por eles — o prazer, o divertimento, o lazer — compõem um universo de leveza, mas a vida individual das pessoas continua pesada. Esse paradoxo não é uma contradição, porque essa leveza é resultado da tecnociência e do capitalismo, que demandam a mudança perpétua e, por outra parte, exigem competência na performance.
Dentro desse quadro, temos ao nosso redor coisas cada vez mais leves, como as possibilidades de viajar e obter tudo muito facilmente, mas, ao mesmo tempo, o mundo do trabalho e também o privado se endurecem por causa da cultura do individualismo, que empurra o sujeito a sempre se construir, a se inventar.
Então, estamos permanentemente fazendo escolhas e nos impondo novos valores para obter sucesso. Por outro lado, o mundo da tradição é muito duro, com miséria, fome, guerra. O caminho das pessoas já está traçado nesse mundo, você consegue compreendê-lo porque a religião e a tradição já estabeleceram o roteiro, você pode prever o futuro com antecipação.
Hoje, no mundo da leveza, tudo está aberto, nada é fixo, tudo está por construir. E, como tudo está por construir, tudo é extremamente difícil. Acrescente-se a isso que a globalização provavelmente não é algo passageiro e que a competição e a inovação vão se acelerar ainda mais. Você não sabe mais o que vai mudar amanhã e o que vai permanecer, tanto na economia quanto na vida privada.
Voltando ao paradoxo que você citou, nós teremos universos cada vez mais preocupados com a performance para alcançar a eficácia e a riqueza materiais e, ao mesmo tempo, uma vida pessoal mais difícil. É possível continuar a viver assim? Penso que sim, precisamente porque, como no Brasil e em outros países, as pessoas se preocupam menos com a política e mais com a leveza de suas vidas. Por isso o sucesso do budismo, da ioga, do zen, das atividades artísticas.
A vida global vai ficar mais difícil, ao mesmo tempo em que as pessoas vão buscar cada vez mais por meios de aliviar o peso de sua vida pessoal com atividades psicoespirituais que funcionam como uma espécie de remédio. Isso vai continuar porque não há alternativa.
A novidade do mundo hipermoderno é justamente essa. A modernidade do século 19, por exemplo, tinha um contramodelo que era sociedade burguesa de então. Ela sonhava com o socialismo e a revolução. Hoje, não temos outro modelo para contrapor. Sabemos apenas que amanhã haverá ainda mais competição. É por isso que o desejo de revolução não tem mais consistência e o que domina, ao contrário, é o desejo de leveza. As pessoas procuram, cada uma a sua maneira, uma forma de aliviar o peso da vida.
Como é possível conciliar essa demanda de aceleração na sociedade de hoje com domínios do conhecimento e da vida que não podem ser mais acelerados do que já estão, como a educação, por exemplo?

Gilles Lipovetsky: A vida de hoje é clivada. Isso quer dizer que uma pessoa que leva, durante a semana, uma vida de louco em grande velocidade pode mudar de vida no final de semana. Não se trata de uma conciliação, mas de uma combinação, uma hibridação, uma justaposição. Nós temos muitas vidas na mesma vida, ao mesmo tempo, com modelos e ideais diferentes.
No passado, a sabedoria era uma atividade que visava mudar completamente o mundo. Hoje, a prática da sabedoria — meditação, zen, desenvolvimento pessoal — não muda a organização do mundo. Ela permite apenas adaptar-se, respirar um pouco.
Se você não gosta do seu trabalho, por exemplo, porque é monótono ou o chefe o aborrece, pode reunir-se com os amigos no final de semana e, digamos, fazer música com eles. Você consegue respirar assim. Acho que esse é o modelo do futuro. Não creio na unidade e na harmonia global. Penso que podemos ter momentos de harmonia que se destacam em um universo difícil.
Por um lado, no mundo hiperindividual, as mídias tradicionais parecem perder cada vez mais o monopólio da informação. De outra parte, a difusão de notícias falsas e o que está sendo chamado de "pós-verdade", tanto na internet quanto na grande imprensa, é preocupante. Qual é a dimensão real da importância dos meios de comunicação na formação da opinião pública hoje em dia?

Gilles Lipovetsky: Eles desempenham um papel enorme. A mídia teve uma importância considerável com o que se passou agora na Grã-Bretanha, porque os ingleses votaram pelo Brexit a partir de fake news. Foram difundidas pela mídia informações realmente falsas.
Essa situação é muito mais importante hoje do que há 30 anos ou mesmo no começo deste século, porque, nas democracias do passado, havia um papel capital para os partidos políticos, com quem as pessoas se identificavam. Por exemplo, as pessoas que se definiam como católicas tinham um voto bastante identificável, assim como os operários votavam nos comunistas.
Hoje em dia, as pessoas não têm mais confiança nos partidos. É como aí no Brasil, as pessoas rejeitam a classe política e suspeitam dela. Há uma suspeita a respeito de tudo, que é uma situação característica de nossa época.
As pessoas não confiam mais nos deputados, nos ministros e também na mídia. A época hipermoderna é de desconfiança. Nos tempos anteriores, isso não acontecia de forma alguma: as pessoas acreditavam que Stalin tinha razão.
Hoje, ninguém mais acredita na palavra política. No extremo, temos Donald Trump, que, não importa o que ele diga, as pessoas gostam, porque o que ele diz não é politicamente correto. Ele se endereça às emoções e, nessa situação, as fake news desempenham um papel essencial.
É evidentemente grave e sobretudo triste para o futuro da democracia. E novamente vem a questão do quanto devemos investir em educação. Porque não podemos ser regrados pelo controle da informação, mas tão somente pela formação de qualidade dos cidadãos. E essa formação passa pela escola. Caso contrário, as pessoas googleiam, leem os blogs e não sabem fazer a distinção entre os que dizem coisas sérias e os que dizem qualquer coisa. Para ler uma informação é preciso luneta.
Você acredita em tudo o que lê? Não é com a reforma da mídia que isso mudará, viu? É preciso algo muito mais profundo, que as nações se conscientizem dos riscos do futuro e formem um corpo de professores competentes, bem pagos e capazes de fazer corretamente seu trabalho para que os cidadãos não caiam na armadilha das fake news.
Isso pode ser entendido como uma recomendação ao Brasil?

Gilles Lipovetsky: Ao Brasil e à América Latina em geral. Olhem ao redor de vocês e vejam que os países bem sucedidos são aqueles que dedicaram um montante considerável de seus orçamentos à educação. Não há mistério.
Vejam Cingapura, Finlândia, os países do norte. Todos investiram na formação de qualidade dos professores, no método pedagógico. É o futuro da democracia! Não é apenas a técnica que vai fazer nosso mundo. São os homens. E é preciso formar os homens.

Você já visitou o Brasil muitas vezes. Que papel você acha que o país desempenha na cena mundial?

Gilles Lipovetsky: O Brasil é um país imenso que tem tudo para ser bem-sucedido em termos de riqueza nacional. Mas, isso não é suficiente para fazer a prosperidade de um país.
O exemplo extremo é a Rússia, que sem dúvida é o país mais rico do mundo, mas é um desastre. Do lado de vocês há a Venezuela, que repousa sobre um tesouro de petróleo e está falida. A riqueza não é suficiente.
Acho que o Brasil é bem sucedido em alguns aspectos, mas, como você sabe melhor do que eu, há um grande problema político. O sistema político não avança, há uma corrupção horrível, as pessoas não confiam mais. Dentro desse contexto, acho que é um país que tem uma cultura acolhedora e alegre, mas, ao mesmo tempo, vejo brasileiros muito estressados por causa das dificuldades da vida em um país que poderia ser muito mais bem-sucedido do que ele é.
Penso que, no Brasil, há todos os recursos para se desenvolver, mas, de novo, não basta apenas isso. Mesmo que o Estado e a política sejam menos importantes do que no passado, eles continuam essenciais. É preciso fazer reformas, é preciso justiça e elites políticas de talento.
Acho que o problema do Brasil não é a economia. Em primeiro lugar, há um problema considerável no domínio da política e provavelmente também da justiça social, com desigualdades insuportáveis. Isso é evidente: no Brasil, a 200 metros de uma favela há um condomínio de luxo.
As desigualdades não são más, não sou contra elas, mas elas não podem paralisar um país. Penso que há um enorme trabalho a ser feito para que os brasileiros acreditem que o futuro é para eles, que devem se esforçar, mas que haverá justiça e que a corrupção, que é um enorme problema, será reduzida.

Você se considera otimista ou pessimista quanto ao futuro?
Gilles Lipovetsky: Ah, me considero um otimista! Penso que a humanidade representa uma aventura na história da Terra de escala excepcional e que, apesar de todas as coisas horríveis pelas quais atravessou desde a pré-história, ela sempre superou os desafios. E por quê? Penso que pela inteligência do homem.
O homem é um animal que inova. Ele cria o problema com muita aflição e sempre é bem sucedido em superá-lo. Mas, ao mesmo tempo, ele recria o problema outra vez. O resultado final é que, apesar de tudo, os ideais que amamos, quer dizer, o humanismo, a liberdade, a igualdade, a democracia liberal, são valores cada vez mais partilhados pelas pessoas. Claro que há desigualdades, coisas ignóbeis. O que pode alimentar o otimismo é que, apesar de tudo, cada vez menos pessoas aceitam a escravidão, a dominação das mulheres, a vitimização das crianças. Por fim, temos três séculos de dinâmica da ciência.
Sou um homem das luzes, racionalista, herdeiro do século 18. Acredito que a grande conquista da humanidade não é a moral. A moral está muito bem, amo ela como você, não há problema quanto a isso. Mas os grandes problemas, como a poluição, as mudanças climáticas, as desigualdades, exigem inovação, que repousa na inteligência dos homens, formada nos laboratórios, nas ciências, nas universidades. E observo que esse fenômeno explodiu por todo o planeta. Não há um país sequer que não faça pesquisas! A maioria da população do mundo participa hoje dessa inovação.
Temos forças em nós, a força do humanismo democrático e da tecnociência. Penso que isso é uma aquisição considerável. Em países desenvolvidos e mesmo no Brasil as pessoas vivem mais, a miséria absoluta recua. Mesmo que haja coisas horríveis, não há por que ocultar que também existem coisas positivas.
Não é o paraíso, mas sou otimista porque os valores que nos regem são os humanistas, mesmo que não sejam respeitados. Esses valores estão aí. Em segundo lugar, sou otimista porque usamos a inteligência e a racionalidade para fazer a humanidade progredir em direção a algo mais satisfatório.

  Roger Lerina/ZH - 24.04.2017
·         in Fronteiras do Pensamento 2017





Lola

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Gilles Lipovetsky





Gilles Lipovetsky

Gilles Lipovetsky: 'La gente común no halla ya la felicidad en el súper, por eso escribe o hace fotos'
  • 'El capitalismo ha permitido al arte entrar en la vida cotidiana y liberarse de su encierro en museos'
  • 'El arte ha perdido su identidad sólida'
  •  'El espectador se pregunta si es pura provocación, una broma o una genialidad'
  •  'La competitividad hará el trabajo difícil. Para buscar el equilibrio, la creación debe ser prioritaria'

Es un fenómeno realmente curioso. Cuando uno lee a Gilles Lipovetsky -el filósofo por excelencia de la modernidad y su postrimería, El imperio de lo efímero, La era del vacío, transmutada ahora en «híper modernidad»- las conclusiones que extrae son catastróficas y apocalípticas; pero toda vez que uno le escucha, esa carga negativa -¿estaría en mi mente lectora?- se transforma en corriente positiva e integradora. Empiezo a pensar que no sé leerle, no obstante les pasaré unas claves para que ustedes lean mejor La estetización del mundo, su último y nutritivo ensayo, que esta semana publica la editorial Anagrama.
Verán, cuando lean que la cultura y su expresión artística se ha convertido en puro negocio de mercado, entienda que «la motivación económica no mata la creación» sino todo lo contrario, porque ha traído consigo una muy loable "desjerarquización de la cultura" y ha conseguido "que el arte no permanezca envasado en los museos sino que impregne nuestro mundo común, tal y como hoy sucede". Que si nuestras emociones se han convertido en un arma que el comercio maneja como hilos de marioneta, pues mejor que mejor, porque "esto nos ha dado la libertad de elegir e innovar» -elegir el atuendo, por ejemplo-. Y donde dice que el "capitalismo artístico" ha estetizado nuestro alma, han de entender "estética" en su sentido original griego: tocado por las emociones, la percepción, la sensibilidad. Es decir, que vivimos en un mundo estupendo. El problema, y esto sí lo admite, es que muy pocos tienen el dinero para disfrutarlo; pocos que cada vez son menos, mientras el resto luchamos contra la ansiedad que el híper consumo y la híper estimulación, la inmediatez y la falta de educación, nos generan.
No obstante, también para ello apunta soluciones el filósofo de lo social -Millau, Francia, septiembre del 44-: educar a nuestros hijos y alumnos en el gusto por la creación y el empeño en la calidad. Ay, tan fácil lo pinta.
Si el arte y la cultura se han convertido en puro negocio comercial, ¿es que han perdido todo valor humanista?
No, el valor humanista pervive en la cultura pese a su utilización mercantilista. Siempre ha habido intereses detrás del arte, si piensas por ejemplo en el Renacimiento, la dimensión del arte no era humanista, sus valores eran religiosos y de poder. Es en la era moderna cuando se impone la idea de que el arte excluye lo comercial, de que el beneficio económico lo pervierte; pero llegados a la híper modernidad, esta diferenciación estricta se erosiona. Pongamos por ejemplo los museos, no solamente proliferan por todas partes sino que acogen manifestaciones como la moda o incluso las marcas, y la gente se escandaliza: ¡oh, la cultura se ha comercializado, ha muerto y ya no existe sino el dinero! En mi opinión el problema era en cambio la exclusión: ¿es que no hay creación, no hay cultura en la moda? Yo creo que sí, y que en cierto modo hemos llegado a un estado de las cosas más verdadero. Me parece muy positivo cuestionarse las jerarquías, la línea divisoria entre el arte puro y el comercio. Esta oposición rígida es lo que se contesta en el libro: no, la motivación económica no mata la creación, la democratiza. Lo ideal no es un arte sólo apreciable por una jerarquía, es preferible que la belleza y la creatividad estén en el mundo cotidiano y del comercio, y esto es posible gracias a la industria, que hace posible la moda, el diseño, la tecnología, etcétera.
¿Y todo esto le parece suficiente para un buen futuro o tiene alguna receta para un mañana mejor?
Nuestro objetivo de futuro, sobre todo para nosotros los europeos, es comprometernos con la calidad. Para mí, esta es la gran cuestión humanista hoy: la modernidad ganó la batalla de la cantidad, el bienestar para la mayoría, y la híper modernidad debe ganar la batalla de la calidad o la estilización del mundo; este es el ideal de futuro. El capitalismo ha dado un giro, abriendo una ventana que permite al arte entrar en la vida cotidiana y liberarse de su encierro en los museos. Y esto en el fondo no era sino el programa de las vanguardias históricas y del modernismo: el arte aplicado que tenía como fin hacer bonito lo útil.
Analiza en su ensayo una evolución de los fines artísticos, de la religión a la política, pero mi pregunta sigue siendo: ¿a qué fines sirve hoy el arte sino a los comerciales? De Andy Warhol a Damien Hirst, ¿cuál será la intencionalidad del artista vivo más caro del mundo?
No lo sé, no quiero entrar a valorar si me gustan o no las calaveras de Hirst o los globos de Jeff Koons, este gran mercader publicitario, por ejemplo. Lo que me parece revelador de esta época es tu pregunta, que apunta a la desorientación general, porque el arte, en mi opinión, ha perdido su identidad sólida. Y el espectador se pregunta continuamente si es pura provocación, si es una broma o por el contrario, una genialidad. La primera premisa del arte aplicado es renunciar a la idea de que el arte se opone a lo comercial y a la celebridad. Y luego llega Warhol y proclama: "I'm a business artist" [soy un artista comercial], y aquello supuso una ruptura, porque hasta entonces lo comercial era lo vulgar, pero a partir de entonces el arte comercial dejaba de diferenciarse del verdadero arte, desaparecía la contradicción entre arte y éxito comercial. Se convirtió en un artista celebridad y en su Factoría el arte se integró con la comunicación, la publicidad, el marketing, etc. ¿Qué diferencia hoy una galería de arte de una tienda de moda?
Dice que este capitalismo trans-estético funciona a base de explotar comercialmente nuestras emociones. ¿Es posible aún luchar para liberar nuestras emociones de esa explotación comercial o somos ya sólo burdas marionetas a su antojo?
El libro se remonta a los orígenes de este capitalismo artístico, que sucede exactamente a mediados del siglo XIX con el nacimiento de los grandes almacenes: comprar deja de ser algo simplemente útil y se convierte en un espectáculo. Las mujeres van al Bon Marché y se divierten con los colores, la decoración, etcétera: es el origen del shopping como acto teatral, el comercio entendido como teatro. Y a partir de ahí el comercio se focaliza en nuestras emociones, jugando con ellas mediante la publicidad, pero también a través del cine, que es la ingeniería emocional perfecta, y finalmente mediante el diseño. A partir de principios del siglo XX el capitalismo profundiza en la idea de que vivimos mejor rodeados de belleza, tocados por la emoción de la belleza, y consigue producir y comercializar las emociones, integrándolas en el engranaje económico. Hoy en día lo emocional ha penetrado en todos los ámbitos de nuestra vida, incluida la política, todo quiere hacernos reír o llorar; el capitalismo funciona como una ingeniería de sueños y emociones.
¿Y dónde queda la libertad del individuo?
Esta comercialización, que en principio es una manipulación criticable, no es tan simple: el capitalismo artístico se ha visto obligado a diversificar para emocionar y a cuidar hasta el más pequeño detalle para permitirnos la libertad de elegir.
¿Libertad o espejismo?
Te pongo un ejemplo sencillo, con una pregunta: ¿por qué vas vestida así hoy, acaso lo has copiado de un modelo? Tu respuesta sin duda será que no, en absoluto, que has combinado y personalizado tu imagen, que te gusta llevar el pelo así y asá, que la falda la has encontrado en un mercado tal y cual, etcétera. Si el comercio no hubiera diversificado y cuidado el detalle al extremo, esta libertad de elegir e innovar no sería posible. Si fueras una burguesa catalana de principios del XX, tu casa y tu atuendo serían extremadamente convencionales, sin embargo la moda hoy te permite ser anticonvencional, el híper mercado es tan diverso que cada individuo puede recrear su propio universo.

Imagen: JORDI SOTERAS

Monsieur Lipovetsky, ¿cómo logra dar un giro positivo a todo lo que en principio parece negativo y alienante?
Mira, desde finales de la Edad Media se habló de la dictadura de la moda, algo que hoy ya no es real, no es posible. Hay una dictadura comercial, todo es comercio, pero no hay una dictadura de la moda, la moda es absolutamente diversa.
Propone ante todo la educación para luchar contra la esterilización de la cultura. Una educación familiar y no académica, ¿he entendido bien?
No, no, ambas: la escuela también debe educar.
¿Cómo educar a nuestros hijos si nosotros mismos somos producto de esta hipérbole consumista? ¿Por dónde empezamos?
No debemos esperar que el capitalismo artístico lo haga todo: tenemos que conservar nuestra mirada. El capitalismo no sólo ha estetizado nuestro entorno, sino que también ha sabido estetizar nuestro alma, en tanto que consumidores. Un campesino del XIX no contemplaba el paisaje, apenas veía las cosas útiles que había en ese paisaje. Los artistas nos enseñaron a contemplar y el capitalismo democratizó esa contemplación, y así nace el turista, que no es sino consumidor que viaja para sentir la contemplación, algo puramente estético. El concepto de estética viene de la voz griega aisthetiké que quiere decir tocado por las emociones, perceptor y sensible a la belleza y su influjo sobre la mente. Y el capitalismo artístico ha conseguido, a través de la publicidad, las revistas, el cine, la moda, etcétera, democratizar la mirada estética, es decir la percepción de la belleza, la sensibilidad.
¿Y ya está? Quiero decir, sobre estas premisas, ¿cómo podríamos educar? ¿Educamos en el consumo capitalista y punto?
Vuelvo al planteamiento del principio: la batalla humanista hoy está en la lucha por la calidad. Las escuelas tienen que luchar por esa calidad, ayudar en la búsqueda de la calidad. Y este es el mensaje del libro: para ganar esta batalla, humanista y también económica, hay que priorizar la calidad. Las escuelas deben enseñar el gusto por la creación. Mira, la competitividad hará que en el futuro el trabajo sea cada vez más difícil y cualificado, y para buscar de nuevo el equilibrio es imprescindible que la creación sea algo prioritario, porque nos ayuda a vivir mejor y es un motor económico: hacer música, pintar, escribir o contar con imágenes proporciona un placer y una satisfacción que no son estrictamente consumistas. El consumo no basta, hay que sentir. El capitalismo artístico no es lo único que existe, hay otros paradigmas contradictorios con la estética: la salud, la polución, la ecología, la educación, que no debe ser exclusivamente estética, los niños tienen que formarse en la realidad y en el esfuerzo...
¿Será capaz la ecología de poner fin a la sobredosis consumista que tanto daño hace al planeta?
No soy en absoluto pesimista: las contradicciones harán evolucionar el mundo, el hombre no es sólo un productor y consumidor, es un creador que encuentra la felicidad en esa dimensión creativa. Cada vez más la gente común escribe, fotografía, hace teatro... y no lo hace por esnobismo, sino en busca de la felicidad que no encuentra en el supermercado. La competitividad nos contagia estrés y ansiedad, y el ideal humanista es integrar la dimensión creativa para liberarnos, aliviarnos. La vida será cada vez más difícil y la creatividad ha de ir ganando importancia, y por ello me parece una clave educativa primordial: dar a los niños los utensilios para que puedan realizar esta profunda aspiración humana que es la creación.
Monsieur Lipovetsky, en 1995 predecía usted una creciente polarización social entre una pequeña minoría opulenta y una vasta mayoría muy mal pagada. Esto que es hoy el presente, ¿hacia dónde derivará en el futuro?
Sí, atendemos a esta deriva desde los años 80. Pero no es tan sencillo, por un lado la desigualdad económica se acentuará y por otro, los gustos serán cada vez más homogéneos entre las clases, y el resultado paradójico de esta democratización estética es una creciente ansiedad entre las clases no pudientes.
¿Y la solución?
Llevábamos más de una hora conversando y lo cierto es que la madeja, lejos de desliarse, se enmarañaba cada vez más. No había más tiempo. Tampoco llamé a su casa de París, para no liar los cables inalámbricos del teléfono.

Entrevista. Filósofo y sociólogo francés, estudioso de la sociedad posmoderna

La estetización del mundo, que el filósofo firma a medias con Jean Serroy, sale a la venta este miércoles,28 de enero (Editorial Anagrama)

NOMBRE: Gilles Lipovetsky. 
ESTADO CIVIL: casado; dos hijas. 
EDAD: 70. 
SU PROYECTO: 'De la légèreté. Vers une civilisation du léger 2' (De la ligereza. Hacia una civilización de lo ligero). 
LIBRO Y PELICULA: 'No tengo. Leo literatura y veo cine muy diverso, y casi siempre en relación con aquello que estoy escribiendo o sobre lo que estoy reflexionando'.

El mundo
ELENA PITA
Actualizado: 25/01/2015 17:46 horas





 Lola
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