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quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Especificidade da Filosofia





Especificidade da Filosofia



«Vivemos o nosso quotidiano sem entendermos quase nada do Mundo. Reflectimos pouco sobre o mecanismo que gera a luz solar e que torna a vida possível, a gravidade que nos cola a uma Terra que de outro modo nos projectaria girando para o Espaço, ou sobre os átomos de que somos feitos e de cuja estabilidade dependemos fundamentalmente. 
Exceptuando as crianças (que não sabem o suficiente para não fazerem as perguntas importantes), poucos somos os que dedicamos algum tempo a indagar porque é que a natureza é assim; de onde veio o cosmos ou se sempre aqui esteve; se um dia o tempo fluirá ao contrário e os efeitos irão preceder as causas; ou se haverá limites definidos para o conhecimento humano. Há crianças, e conheci algumas, que querem saber como é o aspecto dos “buracos negros”; qual é o pedaço de matéria mais pequeno; porque é que nos lembramos do passado e não do futuro; como é que, se inicialmente havia o caos, hoje existe, aparentemente, a ordem; e porque é que há um universo.
Ainda é habitual, na nossa sociedade, os pais e os professores responderem à maioria destas questões com um encolher de ombros, ou com um apelo aos preconceitos religiosos vagamente relembrados. Alguns sentem-se pouco à vontade com temas como estes, porque expressam vivamente as limitações da compreensão humana.
Mas grande parte da filosofia e da ciência tem evoluído através de tais demandas. Um número crescente de adultos querem responder a questões desta natureza, e ocasionalmente obtêm respostas surpreendentes. Equidistantes dos átomos e das estrelas, estamos a expandir os nossos horizontes de exploração para abrangermos tanto o infinitamente pequeno como o infinitamente grande.»

Sagan, Carl, “Introdução”, in Uma Breve História do Tempo, de Stephen Whawking, Lisboa, Círculo de Leitores, 1988, pp. 11-12.






Radicalidade

«A filosofia poderá ser perspectivada como uma reflexão radical sobre a realidade, sobre o homem e sobre o mundo.
Como reflexão radical a filosofia situa-se no plano de uma racionalidade interpretativa e explicativa. Esta racionalidade interpretativa e explicativa implica que as posições assumidas não se alicercem em crenças ou meras opiniões mas se enraízem numa fundamentação que [...] lhes confira uma justificação consistente.
Por consequência, no âmbito da filosofia não terão sentido atitudes dogmáticas, visto que a dogmatização [...] envolverá necessariamente a ausência de uma fundamentação aberta.»

Sousa, M. C. H. de, As Ilusões da Razão, Porto, Brasília Editora, pp. 17-18.




Universalidade

«Todos sentimos, desde a infância, necessidade de explicar o universo. E construir uma imagem do mundo, compreender como se ordenam todas as coisas em nós e à nossa volta, tem sido sempre a história, o germe e a fonte de toda a filosofia. O homem nunca renuncia ao desejo de conhecer. [...]. A filosofia não é mais do que a tentativa, sempre renascente, do homem que procura explicar a si mesmo a situação que ocupa no universo. [...]
O filósofo traz a esta ânsia de explicação, a sua curiosidade, o seu amor pela certeza intelectual e o seu gosto pela perfeição moral. [...]
O filósofo resume a sua época, mas o seu pensamento não fica encerrado apenas dentro dele. O pensamento de um filósofo é mais uma antecipação do futuro do que o comentário do presente; e logo faz parte do próprio futuro porque contribui directamente para o construir.»

Ducassé, P., As grandes Correntes da Filosofia, Lisboa,
Publ. Europa-América, 6ª edição, s.d., pp. 5-6.




Autonomia

«Que é então filosofia? Comecemos por dizer o que ela não é.Filosofia não é religiãonão é ciência — como a físico-química, a matemática, a biologia, a astronomia, etc. — não é artenão é o «espírito» de tal ou qual raça, de tal ou qual povo — se é que esse «espírito» chega, de facto, a ser alguma coisa, — não é sensibilidade — geral de uma época ou peculiar de uma gens —, não é folclore — isso muito menos — não é sequer, finalmente e em rigor, nem visão do mundo (Weltanschauung) nem história da filosofia.
Filosofia não é religião. O princípio desta, consideradas as coisas um pouco grosso modo, é a autoridade e o seu objecto o «sagrado»; o princípio daquela a razão — considere-se o termo na máxima latitude possível — e o seu objecto o ser — considere-se ainda o termo na máxima latitude possível. [...]
Filosofia não é ciência no sentido em que o são, por exemplo, a físico-química, a matemática, a biologia, etc. Diferem pelo objecto e pelo método. [...] Filosofia não é arteQuer esta última palavra se empregue no sentido antigo de tecnh, quer no sentido mais moderno e mais restrito de «produção da beleza pela acção do ser consciente». A razão está em que a arte se realiza, à raiz, no singular e no concreto, ao passo que a filosofia pressupõe, sempre, o universal e um certo abstracto. [...]
Filosofia é saber. Um saber geral e gerante; um saber universal e universalizante; um saber que se formula, actu, — ou seja formulável — numa certa ordem coerente de sistema ou, ao menos, de temas maiores (imagem arquitectónica ou musical); um saber reflexo, simultaneamente anterior e posterior às outras formas do saber: anterior porque, fundando-se, as funda; posterior, em parte certamente, porque reflexo».

ANTUNES, Manuel, “Haverá filosofias nacionais?”

in Brotéria. Revista Contemporânea de Cultura, tomo 64, 1957, pp. 42-61




Lola

Especificidade da Filosofia



A especificidade da Filosofia



 AUTONOMIA

  • A Filosofia é um saber autónomo porque é independente dos outros saberes. Isto é, a Filosofia é autónoma em relação à Ciência, à Religião, à Política e a todos os saberes .
  • Poderà a ciência, por exemplo tornar-se completamente autonoma do poder economico?
  • a Filosofia não aceite os contributos e viva de costas voltadas para os outros saberes;a filosofia nunca poderia ser um saber  auto-suficiente.
  • a Filosofia é autónoma porque faz o uso da razão humana, que estabelece as leis do pensamento. Assim, autonomia implica liberdade de agir de acordo com as leis que a própria razão formula.
  •  O Homem segue a sua capacidade racional,  a razão é a unica autoridade.
  • Hà que pensar por si proprio de um modo critico, insatisfeito e inconformado sem sujeições a outros saberes ou poderes.
  • Não terão sido Socrates e Galileu vitimas de crimes contra a filosofia em defesa da autonomia do pensamento?



RADICALIDADE
  • Radical significa analisar  os problemas pela raiz. 
  • Radical opõe-se a superficial.
  •  a Filosofia busca os fundamentos mais profundos das coisas;
  •  questiona tudo, incluindo aquilo que todos aceitam passivamente. 
  • Para a Filosofia não há verdades  cristalizadas, fixas e imutàveis;;
  •  nada é definitivamente aceite ou inquestionável.
  • Ser radical significa também ver as coisas noutra perspectiva, não aceitando apenas uma forma de encarar as coisas.
  •  a Filosofia procura os fundamentos, as razões  últimas do que existe, dos princípios, das causas primeiras de qualquer realidade ;
  •  a radicalidade da Filosofia implica que, esta nunca poderà admitir como certa, verdadeira ou inquestionável uma resposta, antes de criticamente a justificar e fundamentar.



HISTORICIDADE


  • A Filosofia tem uma origem num espaço e tempo;
  • A Filosofia tem uma história  - a História da Filosofia;
  • Cada filosofo é influenciado pela historia do seu tempo;
  • Cada  filósofo reflete os problemas do seu contexto historico;
  • Platão colocou questões do seu tempo que se tornaram intemporais;
  • O filosofo é filho do seu tempo;
  •  Os filósofos influenciaram o seu tempo e,  muitas vezes, alertaram para a necessidade de grandes grandes transformações das sociedades.


UNIVERSALIDADE


  • Por universalidade entende-se que a Filosofia tem por objecto o todo - é um objecto integral, a totalidade do Universo; 
  • nada é excluído da reflexão  filosofica.
  •  a Filosofia é universal porque as suas questões são universais - dirigem-se a todo o HOMEM;
  • A filosofia procura respostas, também elas, universais - vàlidas para a universalidade do ser humano;;
  • A filosofia tem uma vocação universal

E agora,relacionando com a temàtica abordada, vamos analisar os...


TEXTOS

"Do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; (...) pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles foram meus, não seus. (...)
Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição venha a pensar o mesmo que eu; mas nessa altura já o pensamento lhe pertence."
Agostinho da Silva


-Que caracteristica està presente no texto? justifique.

"Esclarecimento (ou Ilustração) é a saída do homem da sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso do seu entendimento sem a direcção de outro indivíduo. O homem é o próprio culpado dessa menoridade se a causa dela não se encontra na falta de entendimento, mas na falta de decisão e coragem de servir-se de si mesmo sem a direcção de outrem.(...)
A preguiça e a covardia são as causas pelas quais uma tão grande parte dos homens continuem de bom grado menores durante toda a vida. São também as causas que explicam por que é tão fácil que os outros se constituam em tutores deles. É tão cómodo ser menor. Se tenho um livro que faz as vezes do meu entendimento, um director espiritual que por mim tem consciência(...), etc., então não preciso de esforçar-me eu mesmo. Não tenho necessidade de pensar, quando posso simplesmente pagar; outros se encarregarão em meu lugar dos negócios desagradáveis. A imensa maioria da humanidade considera a passagem à maioridade difícil e além do mais perigosa, porque aqueles tutores de bom grado tomaram a seu cargo a supervisão dela. Depois de terem primeiramente embrutecido o seu gado doméstico e preservado cuidadosamente estas tranquilas criaturas a fim de não ousarem dar um passo fora do carrinho para aprender a andar, mostram-lhes em seguida o perigo que as ameaça se tentarem andar sozinhas. Ora, este perigo na verdade não é tão grande, pois aprenderiam muito bem a andar finalmente, depois de algumas quedas."
Kant


- Apresente a posição de Kant face à relação menoridade e maioridade.



"Existe, acaso, qualquer conhecimento tão certo, que nenhum homem razoável possa dele duvidar? (...) Afigura-se-me que neste momento me encontro sentado numa cadeira, junto de uma mesa de certa for-ma, sobre a qual vejo folhas de papel, com letras de imprensa ou manuscritas. Voltando a cabeça, para além de uma janela vejo casas, e nuvens, e o Sol. Torna-se isto tão evidente que nem vale a pena enunciá-lo, excepto em resposta a quem duvide que eu conheça seja o que for. E no entanto, de tudo isso se pode razoavelmente duvidar, tudo exige discussão cuidadosa, antes de chegarmos à convicção de que o enunciámos de forma verídica, completamente verdadeira.(...)
Deparamos aqui com o começo de uma distinção das que mais enleiam na Filosofia: a destrinça entre "aparência " e "realidade", entre o que as coisas parecem ser e o que as coisas realmente são."
B. Russell
-Relacione o conteudo do texto e a radicalidade.



"É pela dúvida que a Filosofia concebe, é a dúvida que a torna fecunda."
A. de Quental


"Lá mesmo, onde todo o mundo está instalado, dentro do óbvio (…), o filósofo é aquele que chega e, com toda a espécie de perguntas engraçadas, dá uma sacudidela e faz ver que nada é óbvio, e que tudo é realmente de pasmar! Nada escapa ao seu questionamento: nem Deus, nem o ser humano e as suas institui-ções, nem as ciências, os seus métodos e resultados, (…). Filosofia é "saber de todas as coisas" e é saber crí-tico. Nem ela própria pode escapar ao seu questionamento e à sua crítica.
Ora, numa sociedade em que as explicações estão todas prontas, onde as normas são aceites sem discussão, a tendência é estagnar. As alterações, inevitáveis em qualquer comunidade humana, ficam por conta de factores externos: mudanças climáticas, cataclismos, guerras, invasões, (...) Mas, onde há questionamento de tudo (…) existe a permanente possibilidade da mudança."
Maria Iglésias



" Uma grande Filosofia não é a que instala uma verdade definitiva, mas a que introduz uma inquietação."
Péguy


"Para que o diálogo seja profundo com vista ao encontro de pensamentos, devemos começar por pôr entre parêntesis, pelo menos provisoriamente, as concepções a que estamos habituados. (...) libertando-me dos meus hábitos de pensar, liberto-me para o pensamento do outro e também para um pensamento meu, mais pessoal. "
A. Dondeyne

- Justifique a ideia central do texto.

Devemos confrontar os nossos próprios pensamentos/juízos com os dos outros. Pensar (e filosofar) não é um acto solitário, mas um acto de comunhão, de comunicação com os outros. Supõe a comunidade e gera a comunidade. Kant perguntava: "Pensaríamos bem, pensaríamos sequer se não pensássemos com os outros?"

- Responda à questão de Kant.


REFLEXÃO FINAL...

Serão estas caracteristicas exclusivas do saber filosofico e, por isso mesmo, a tornam um saber especifico?

Hà quem defenda que não


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                                              Lola

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