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terça-feira, 22 de maio de 2018

Karl Popper e Thomas Khun





Karl Popper e Thomas Kuhn

O Estatuto do Conhecimento científico


A - Karl Popper

 Karl Popper é um filósofo austríaco do séc. XX, especialista em epistemologia;
· Popper desenvolveu uma teoria acerca da construção da ciência designada por falsificacionismo;
·  A perspetiva indutivista da ciência diz-nos que para se formular uma qualquer hipótese científica, é necessário que se parta de uma observação;
· Na sua obra “ Conjeturas e Refutações”, afirma que a observação é sempre seletiva, requerendo por isso um objeto, uma tarefa, um interesse, um ponto de vista e um problema;
· Para Popper, o cientista não parte da observação de factos particulares. Começa antes por identificar um problema e procurar uma solução para ele;
· Karl Popper rejeita, portanto, o método indutivo, defendendo que a teoria precede a observação e não o contrário;
· Na sua obra “Lógica da Pesquisa Científica”, Popper defende que, apesar de ser a base das ciências empíricas e da investigação científica, o método indutivo nunca deve ser aceite como tal;
· Uma indução pode sempre revelar-se falsa, não podendo servir de justificação a qualquer teoria;
· O método indutivo permite-nos chegar a uma conclusão mais geral do que aquilo que for afirmado nas premissas e por isso não garante a cientificidade das teorias;
· Popper defende um método dedutivo de prova, em que primeiramente é formulada uma hipótese, seguida de uma dedução de provas empíricas e só depois há a corroboração ou falsificação dessa hipótese;
· Defende também que se uma determinada lei científica contém mais informação do que aquela que existe nas premissas de que foi inferida, então esta não pode ser tida como válida, pois conclui que o que se verifica em apenas alguns casos pode ser aplicado a todos, bastando apenas um caso diferente para a refutar- basta aparecer um cisne preto para por em causa o axioma “Todos os cisnes são brancos”;
· Popper propõe então que o critério de demarcação das teorias científicas deve ser o facto de estas poderem ou não ser refutadas ou falsificadas;
· Uma teoria que não possa ser testada não é científica, é apenas uma pseudociência ou dogma;
· A melhor teoria é aquela que apresenta mais dados pois há mais conteúdo empírico para ser testado e refutado, ou seja, pode ser falsificada através da experiência;
·  No seu método das conjeturas e refutações, o filósofo diz-nos que para formular uma teoria é necessário partir de uma hipótese que sirva de solução a um facto-problema, hipótese essa que deve ser uma proposição universal;
· Dessa hipóteses deduzem-se consequências e aplicações empíricas que são depois testadas;
· A teoria é falsificada ou refutada caso a previsão não se confirme;
· Se a previsão se confirmar, a teoria mantém-se, ainda que apenas como conjetura.  Diz-se que a teoria foi corroborada;
· Uma conjetura é uma teoria aceite como muito aproximada à verdade, não sendo uma verdade definitiva porque pode ser refutada;
·  Se uma conjetura resiste a todas as refutações, então esta é mais credível não sendo, no entanto, verdadeira visto que não sabemos nada em relação ao futuro;
· Karl Popper afirma que o método científico defendido por Platão, Aristóteles, Bacon e Descartes não existe – o método indutivo;
· Não há nenhum método que permita verificar e descobrir uma hipótese ou teoria científica;
· Não há nenhum método que determine se uma hipótese é provável;

 As teorias científicas são diferentes dos mitos porque podem ser modificadas através da crítica;
· Popper defende que o conhecimento científico vai progredindo e evoluindo;
· Essa evolução leva à verdade;
· Os cientistas procuram alcançar a verdade;
·  A verdade é um ideal regulador;
· Uma teoria nunca deve ser considerada verdadeira e definitiva;
· Quando um cientista refuta uma teoria, está a contribuir para que se chegue à verdade;
·A objectividade do conhecimento científico é atingida através de um método rigoroso;
· A ciência progride através da falsificação de teorias e através da constatação de erros;
· As melhores teorias são as que podem ser testadas, refutadas e criticadas;
· Para Karl Popper, o progresso da ciência faz-se por meio da falsificação de teorias.


B- Thomas Kuhn

Thomas Kuhn defende que todas disciplinas cientificamente amadurecidas se organizam de acordo com paradigmas. No entanto, antes de o paradigma estar devidamente constituído, não existe ainda ciência propriamente dita. Os investigadores encontram-se num período de pré-ciência.

É ultrapassado o período pré-científico quando surge uma teoria mais poderosa e consensual. Esta irá ajudar a fundar um paradigma. Um paradigma assume-se como um modelo de investigação através do qual os cientistas desenvolvem a sua atividade.

Quando um paradigma surge, inicia-se um período de ciência normal. Neste período, a atividade científica consiste em resolver problemas de acordo com as normas do paradigma.

Num período de ciência normal, os cientistas não procuram refutar ou criticar a teoria central do paradigma. Pelo contrário, tentam aumentar a credibilidade dessa teoria e aumentar o maior número de explicações fornecido pelo paradigma. O período é sempre indefinido. Ao longo do período de ciência normal, podem surgir enigmas que não se conseguem resolver. É assim que surge uma anomalia.

Quando estamos perante uma anomalia, há algo na natureza que não acontece de acordo com a explicação apresentada pelo paradigma. Quando as anomalias colocam verdadeiramente em causa os fundamentos do paradigma estão reunidas as condições para a emergência de uma crise.

Uma crise é um período de insegurança em que a confiança no paradigma é abalada por sérias anomalias.
O paradigma entra em crise porque se descobrem cada vez mais fenómenos que não estão de acordo com o paradigma.

Durante uma época de crise, a confiança no paradigma diminui e a investigação característica da ciência normal dá lugar a um período de ciência extraordinário. Assim, o fim de uma crise só poderá ocorrer quando surgir um novo paradigma .

No entanto, a instauração de um novo paradigma não é tarefa fácil. Para que seja possível o seu aparecimento, é preciso que surja primeiro uma nova teoria. Quando isto acontece, afirma Kuhn, dá-se o passo decisivo para a ocorrência de uma revolução científica.

Kuhn considera que a diferença de paradigmas é de tal modo radical que eles não se podem comparar. Este facto revela que existe uma incomensurabilidade entre paradigmas. Deste modo, estamos perante uma das teses mais controversas defendidas por Kuhn, a qual nos leva a concluir que é impossível determinar se um paradigma é superior ou mais verdadeiro do que outro.

Assim, pode concluir-se que o conceito de verdade é, segundo Kuhn, sempre relativo a um paradigma, ou seja, aquilo que é verdade num paradigma pode não ser noutro.

Popper e Kuhn: questões e respostas

1. Quem foi Karl Popper?
Karl Popper foi um filósofo nascido na Áustria e naturalizado inglês. A sua indiscutível reputação como pensador está, fundamentalmente, associada à sua filosofia da ciência. Neste campo, foi opositor feroz da perspetiva indutivista, defendendo que a observação não é o ponto de partida da atividade científica, que existem alternativas à indução e que o papel da experimentação é falsificar ou refutar hipóteses e não confirmá-las.

2. Como se posiciona Karl Popper face ao problema da indução?
O problema da indução, tal como foi formulado por Hume, existe e não é solucionável: serão sempre injustificáveis as nossas tentativas de ir de enunciados singulares ou particulares para enunciados gerais. Porém, Popper considera que existem alternativas à indução. Segundo este filósofo, os cientistas devem submeter as suas teorias a testes que visem falsificá-las (refutá-las), e não verificá-las (confirmá-las). A lógica subjacente à falsificação de um enunciado universal é dedutiva e não indutiva. Vejamos porquê. Pensemos no enunciado geral «todos os peixes têm escamas». É possível verificá-lo? Não, pois isso implicaria observar todos os peixes, sem exceção. Contudo, sabemos que se todos os peixes têm escamas, então não existem peixes sem escamas. Imaginemos que somos confrontados com um peixe sem escamas. Daqui deriva, necessariamente, que é falso que todos os peixes tenham escamas. Este exemplo mostra que é possível, recorrendo a inferências puramente dedutivas, concluir acerca da falsidade de enunciados universais: S implica P; não acontece P; logo, não acontece S.

3. Em que consiste o método de Popper?
Em alternativa ao verificacionismo e ao indutivismo, Popper propõe um método falsificacionista e hipotético-dedutivo, o método das conjeturas e refutações. Em primeiro lugar, para Popper, já vimos, a investigação científica não começa pela observação, mas pelo problema, que surge quando uma dada observação põe em causa a teoria estabelecida e as expectativas do cientista. Face ao problema, a imaginação do cientista cria uma hipótese ou conjetura para explicá-lo. Segue-se a refutação. A hipótese é sujeita a testes empíricos rigorosos, que têm por objetivo falsificá-la ou refutá-la, isto é, mostrar que é falsa, e não verificar a sua verdade. Se a hipótese for refutada, a teoria é substituída por outra, mais forte e mais resistente. Se a hipótese resistir aos testes, dizemos que se trata de uma explicação provisoriamente corroborada.
4. Corroboração e verdade são sinónimos?
Não, para Popper as hipóteses nunca perdem o seu carácter conjetural. Verdade e corroboração não são a mesma coisa. A corroboração é um indicador temporal. Uma teoria corroborada é uma teoria que resistiu aos testes a que foi sujeita num determinado momento, mas isto não faz dela uma verdade, apenas indica que, até ao momento, é a melhor teoria. Nada garante, porém, que ela não venha a ser refutada, ou parcialmente refutada num próximo momento de falsificação.

5. Que diferença existe entre uma teoria falsificada e uma teoria falsificável?
Uma teoria falsificável ou refutável é uma teoria que tem a propriedade (uma importante propriedade, na perspectiva de Popper) de poder ser sujeita a testes empíricos que a possam refutar. Uma teoria falsificada ou refutada é uma teoria que já se provou ser falsa, isto é, que foi sujeita a testes e não resistiu. 

5. A. Porque tem o erro, para Popper, um lugar central? 

Popper defende que há progresso em ciência e que o erro é o motor desse progresso. Sempre que sujeitamos uma teoria a testes e descobrimos que ela inclui erros ou está efectivamente errada eliminamos os erros e, assim, aproximamo-nos da verdade. Podemos estar seguros de alguma vez termos alcançado a verdade? Não, mas, de eliminação de erro em eliminação de erro, caminhamos na sua direção.

6. Existe progresso em ciência, para Popper?
Sim. A ciência progride por conjeturas e refutações, eliminando erros. O erro é o motor de progresso em ciência. De cada vez que se eliminam erros, aproximamo-nos da verdade, embora não tenhamos forma de saber se alguma vez a alcançaremos. Popper estabelece, neste ponto, uma analogia com o evolucionismo e a ideia de selecção natural.

7. Será a ciência  objetiva, para Popper?
Sim, na medida em que se afasta progressivamente do erro e dado que possuímos um método que nos permite comparar teorias e afirmar que a teoria X está mais próxima da verdade do que a teoria Y. A objectividade advém do método utilizado e não, por exemplo, da forma como são elaboradas as hipóteses.

8. Existem objeções ao falsificacionismo de Popper?
Sim, na medida em que, por exemplo, se valorizam apenas os resultados negativos da prática científica. Popper não considera uma dada descoberta, mas sim as fragilidades e fracassos do trabalho dos cientistas. Por outro lado, na prática, os cientistas não procedem como Popper diz.


9.  Quem foi Thomas Kuhn?

Thomas Kuhn foi um pensador norte-americano e um dos filósofos contemporâneos mais importantes, cujas ideias marcaram a reflexão sobre a ciência na segunda metade do séc. XX.

10. Qual é o padrão habitual de desenvolvimento de uma ciência?

Para Thomas Kuhn, as transições em ciência acontecem segundo um processo cíclico, em que se alternam três fases sucessivas: fase normal, fase crítica e fase revolucionária.

11. O que é uma revolução científica, para Thomas Khun?
A revolução científica corresponde a uma mudança profunda nas convicções e no trabalho dos cientistas. Trata-se de um episódio não cumulativo, no qual a comunidade científica abandona o caminho até então seguido a favor de outra abordagem da sua disciplina, em geral incompatível com a anterior, alterando-se a forma como olha para o mundo e pratica ciência. As grandes mudanças no desenvolvimento científico associadas a nomes como Copérnico, Newton, Lavoisier ou Einstein são episódios que espelham revoluções científicas. As alterações revolucionárias de uma dada tradição científica são relativamente raras.

12. Em que consiste a prática da ciência normal?
Ciência normal é a ciência que a maioria dos cientistas pratica no seu dia a dia. É a ciência em que o paradigma é encarado como um dado adquirido, que não deve ser desafiado. A ciência normal articula e desenvolve o paradigma. Kuhn descreve a ciência normal como a atividade de resolver enigmas, dirigida pelas regras do paradigma. Durante a atividade científica normal, a comunidade científica procede a reajustamentos e ao aumento da abrangência e precisão do paradigma. Trata-se, por esta razão, de uma atividade essencialmente cumulativa, conservadora e, por conseguinte, pouca dada à inovação.

13. Qual a importância do paradigma para a prática da ciência normal?
Desde logo, a existência de um paradigma é o que distingue a ciência da não ciência. É o paradigma que dá os suportes teóricos e práticos gerais da atividade da ciência normal.
Do mesmo modo, o paradigma estabelece as normas necessárias para tornar legítimo o trabalho dentro dessa ciência e forja a comunidade científica. Por fim, ele é também fundamental, pois coordena e dirige a atividade de resolver os problemas com que os cientistas se deparam na fase de ciência normal, fornecendo um critério para escolher aqueles que sejam solucionáveis. Em boa medida, como diz Kuhn, estes são os únicos problemas que a comunidade considerará científicos ou merecedores de atenção.

14. O que caracteriza o estado de crise?
As crises são uma pré-condição necessária para a emergência de novas teorias e paradigmas. Começam a formar-se quando se dá um acumular de anomalias que, pela sua quantidade e grau, põem em causa os fundamentos do paradigma. As anomalias levam a um esforço suplementar, por parte da comunidade científica, para tentar preservar a visão do mundo que o paradigma lhes garante. 

14. A. O que se entende por ciência extraordinária? 

A crise provocada pela acumulação de anomalias pode originar alterações na prática científica, entrando-se num período de ciência extraordinária. Aqui, os cientistas procuram encontrar soluções para as anomalias, uns dentro do paradigma vigente (ciência normal), outros fora desse modelo (ciência extraordinária). A ciência extraordinária é, portanto, a prática científica que acontece à margem do paradigma dominante.

15. Como terminam as crises?
Todas as crises terminam, segundo Kuhn, de uma de três maneiras: - A ciência normal acaba por ser capaz de lidar com o problema que gerou a crise. - O problema é etiquetado, mas abandonado e deixado para uma geração futura. - Emerge um novo candidato a paradigma e batalha-se pela sua aceitação.

16. Quais são as consequências de uma revolução científica?
A principal consequência de uma revolução científica é a mudança de paradigma, com tudo o que isso implica: novas práticas da ciência normal, porque novos serão os problemas e as soluções avançadas, novos pressupostos, novas teorias, etc. O novo paradigma será muito diferente do velho e incompatível com ele. No fundo, o que a revolução científica impõe é uma nova visão do mundo.

17. O que significa dizer que os paradigmas são incomensuráveis entre si?
Ao dizer que são incomensuráveis, Kuhn pretende dizer que eles não são comparáveis, nem tão-pouco podem servir de medida um para o outro, pois o novo paradigma não é melhor do que o anterior, é apenas diferente. Os proponentes de paradigmas rivais praticam a sua atividade em mundos completamente distintos, discordam sobre a lista de problemas a resolver e sobre os critérios a adotar e comunicam de forma forçosamente parcial: termos idênticos ganham novos significados e novos termos são adotados. A nova representação do real que o novo paradigma traz consigo não se acrescenta à precedente, pelo contrário, substitui-a. O que antes se via como um coelho passa a ser visto como um pato.

18. Podemos falar em objetividade em ciência, para Kuhn?
Os critérios que Kuhn considera para avaliar uma teoria são de dois tipos: objetivos e subjetivos. Os critérios objetivos são partilhados por toda a comunidade científica e são os seguintes: exatidão, consistência, alcance, simplicidade e fecundidade. Os critérios subjetivos, dada a natureza humana dos cientistas, também existem e devem ser considerados, pois, perante uma mesma realidade, a interpretação e as convicções podem fazer dois cientistas trabalharem de maneira diversa e adotarem paradigmas diferentes. Pelo facto de a escolha entre paradigmas estar sujeita a critérios subjetivos relevantes, não é possível falar em objetividade em ciência. Esta posição foi alvo de duras críticas, tendo sido frequentemente classificada como sendo, além do mais, contraditória.

19. O que separa Popper de Kuhn?
Popper e Kuhn respondem de forma divergente ao problema do progresso em ciência. Popper crê que a eliminação de erros conduz, por aproximação, à verdade. O autor estabelece, neste ponto, uma analogia com o evolucionismo e a ideia de seleção natural: as teorias que melhor resistirem ao erro são as que se mantêm. Já para Kuhn, não existe progresso em ciência, nem por acumulação, nem por eliminação de erros. A transição sucessiva de um paradigma para outro ocorre por meio de revoluções científicas, nada garantindo que o novo paradigma seja mais verdadeiro que o anterior. Popper e Kuhn respondem também de forma relativamente distinta ao problema da objetividade em ciência. Popper crê que a ciência é objetiva, na medida em que se afasta progressivamente do erro e dado que existe um método que nos permite comparar teorias e afirmar que a teoria X está mais próxima da verdade do que a teoria Y. Para Kuhn, embora existam critérios objetivos na escolha de teorias, a ciência não é imune à subjetividade, já que esta desempenha um papel decisivo na escolha de um determinado modelo em detrimento de outro.

20. Existem objeções a Kuhn?
Sim. Kuhn foi frequentemente acusado de defender uma posição relativista. Kunh rejeitou a crítica, considerando-a injusta e redutora. Todavia, não há dúvida de que algumas das suas afirmações a propósito do progresso científico parecem aproximar Kuhn da tentação relativista. Se os paradigmas são incomensuráveis, se não podemos comparar paradigmas nem concluir que um é superior ao outro, se não podemos estar certos de que nos aproximamos da verdade, o que nos resta? Para alguns, apenas o relativismo.



                                          Lola

terça-feira, 13 de maio de 2014

Karl Popper e Thomas Kuhn




Karl Popper e Thomas Kuhn


 Karl Popper

1. Critica à Indução

Uma linha de resposta bastante diferente para o problema da indução deve-se a Karl Popper. Popper olha para a prática da ciência para nos mostrar como lidar com o problema. Segundo o ponto de vista de Popper, para começar a ciência não se baseia na indução. Popper nega que os cientistas começam com observações e inferem depois uma teoria geral. Em vez disso, primeiro propõem uma teoria, apresentando-a como uma conjectura inicialmente não corroborada, e depois comparam as suas previsões com observações para ver se ela resiste aos testes. Se esses testes se mostrarem negativos, então a teoria será experimentalmente falsificada e os cientistas irão procurar uma nova alternativa. Se, pelo contrário, os testes estiverem de acordo com a teoria, então os cientistas continuarão a mantê-la não como uma verdade provada, é certo, mas ainda assim como uma conjectura não refutada.
Se olharmos para a ciência desta maneira, defende Popper, então veremos que ela não precisa da indução. Segundo Popper, as inferências que interessam para a ciência são refutações, que tomam uma previsão falhada como premissa e concluem que a teoria que está por detrás da previsão é falsa. Estas inferências não são indutivas, mas dedutivas. Vemos que um A é não-B, e concluímos que não é o caso que todos os As são Bs. Aqui não há hipótese de a premissa ser verdadeira e a conclusão falsa. Se descobrirmos que um certo pedaço de sódio não fica laranja quando é aquecido, então sabemos de certeza que não é o caso que todo o sódio aquecido fica laranja. Aqui o facto interessante é que é muito mais fácil refutar teorias do que prová-las. Um único exemplo contrário é suficiente para uma refutação conclusiva, mas nenhum número de exemplos favoráveis constituirá uma prova conclusiva.

2. Falsificabilidade

Assim, segundo Popper, a ciência é uma sequência de conjecturas. As teorias científicas são propostas como hipóteses, e são substituídas por novas hipóteses quando são falsificadas. No entanto, esta maneira de ver a ciência suscita uma questão óbvia: se as teorias científicas são sempre conjecturais, então o que torna a ciência melhor do que a astrologia, a adoração de espíritos ou qualquer outra forma de superstição sem fundamento? Um não-popperiano responderia a esta questão dizendo que a verdadeira ciência prova aquilo que afirma, enquanto que a superstição consiste apenas em palpites. Mas, segundo a concepção de Popper, mesmo as teorias científicas são palpites — pois não podem ser provadas pelas observações: são apenas conjecturas não refutadas.
Popper chama a isto o "problema da demarcação" — qual é a diferença entre a ciência e outras formas de crença? A sua resposta é que a ciência, ao contrário da superstição, pelo menos é falsificável, mesmo que não possa ser provada. As teorias científicas estão formuladas em termos precisos, e por isso conduzem a previsões definidas. As leis de Newton, por exemplo, dizem-nos exactamente onde certos planetas aparecerão em certos momentos. E isto significa que, se tais previsões fracassarem, poderemos ter a certeza de que a teoria que está por detrás delas é falsa. Pelo contrário, os sistemas de crenças como a astrologia são irremediavelmente vagos, de tal maneira que se torna impossível mostrar que estão claramente errados. A astrologia pode prever que os escorpiões irão prosperar nas suas relações pessoais à quinta-feira, mas, quando são confrontados com um escorpião cuja mulher o abandonou numa quinta-feira, é natural que os defensores da astrologia respondam que, considerando todas as coisas, o fim do casamento provavelmente acabou por ser melhor. Por causa disto, nada forçará alguma vez os astrólogos a admitir que a sua teoria está errada. A teoria apresenta-se em termos tão imprecisos que nenhumas observações actuais poderão falsificá-la.

3. Ciência e pseudociência

O próprio Popper usa este critério de falsificabilidade para distinguir a ciência genuína não só de sistemas de crenças tadicionais, como a astrologia e a adoração de espíritos, mas também do marxismo, da psicanálise de várias outras disciplinas modernas que ele considera negativamente como "pseudo-ciências". Segundo Popper, as teses centrais dessas teorias são tão irrefutáveis como as da astrologia. Os marxistas prevêm que as revoluções proletárias serão bem sucedidas quando os regimes capitalistas estiverem suficientemente enfraquecidos pelas suas contradições internas. Mas, quando são confrontados com revoluções proletárias fracassadas, respondem simplesmente que as contradições desses regimes capitalistas particulares ainda não os enfraqueceram suficientemente. De maneira semelhante, os teóricos psicanalistas defendem que todas as neuroses adultas se devem a traumas de infância, mas quando são confrontados com adultos perturbados que aparentemente tiveram uma infância normal dizem que ainda assim esses adultos tiveram que atravessar traumas psicológicos privados quando eram novos. Para Popper, estes truques são a antítese da seriedade científica. Os cientistas genuínos dirão de antemão que descobertas observacionais os fariam mudar de ideias, e abandonarão as suas teorias se essas descobertas se realizarem. Mas os teóricos marxistas e psicanalistas apresentam as suas ideias de tal maneira, defende Popper, que nenhumas observações possíveis os farão alguma vez modificar o seu pensamento.


David Papineau

"Methodology" em A. C. Grayling (org.), Philosophy: A Guide Through the Subject, Oxford University Press, 1998

Tradução de Pedro Galvão




Thomas Khun e o desenvolvimento da Ciência



 Introdução

T. Kuhn constitui um marco importante na perspectiva do desenvolvimento científico na medida em que se opõe a uma concepção de ciência explicativa. Neste sentido, Kuhn vai tentar desenvolver as suas teorias epistemológicas num contacto mais estreito com a história das ciências.
Kuhn apercebe-se que, de facto, as explicações tradicionais da ciência, o indutivismo, o falsificacionismo, não resistem à evidência histórica.
O aspecto mais importante da sua teoria reside no ênfase dado ao carácter revolucionário do próprio progresso científico. Este dá-se, segundo Kuhn, mediante saltos e não numa linha contínua. Neste sentido, a forma como Kuhn vê o progresso científico implica a abordagem de alguns conceitos fundamentais: "paradigma", "ciência normal", "anomalia", " crise", "ciencia extrordinaria" e "revolução cientifica".
A fase que precede a formação da ciência é caracterizada por toda uma actividade diversa e por toda uma desorganização que só mediante a adopção de um paradigma se estrutura. O paradigma será assim uma estrutura mental assumida que serve para classificar o real antes do estudo ou investigação mais profunda, o que comporta elementos de natureza metodológico-científica, mas também metafísica, psicológica.Ou seja, um paradigma é uma teoria cientifica valida numa determinada época; exemplo: o paradigma geocêntrico.
 O que Kuhn designa de ciência normal será o período em que se actua dentro de um dado paradigma que é perfilhado por uma comunidade científica. Os cientistas avançam, neste período, dentro dos problemas que o paradigma assumido permite detectar. Ao fazerem-no, experimentam dificuldades ou problemas que, por vezes, o paradigma não consegue resolver, as chamadas "anomalias". Quando estas ultrapassam o controle, instala-se uma crise que só será resolvida pela emergência de um novo paradigma. É chegada então a revolução científica: muda-se a forma de olhar o real, criam-se novos paradigmas. A adopção de um novo paradigma, a nível individual, é descrita por Kuhn como uma espécie de "conversão" que envolve todo um possível conjunto de razões. 

Após a adopção de um novo paradigma inicia-se um período de ciência normal até que uma nova crise se instale.

Procurarei, ao longo deste texto, explicitar estes conceitos, explorando as suas conexões. Abordarei, a título conclusivo, as consequências da perspectiva de Kuhn para uma nova ideia de ciência, questão esta que se me afigura fundamental e justificativa deste despretensioso texto. Para compreender o alcance e a fecundidade da perspectiva de Kuhn, procederei a uma breve comparação entre esta perspectiva e a perspectiva popperiana de ciência, uma vez que esta última surge como uma tentativa de superação do indutivismo, embora não o tenha conseguido na totalidade. Parece-me, todavia, importante referi-la.

Paradigmas e Ciência Normal

Não houve nenhum período desde a antiguidade mais remota até aos fins do século XVII em que existisse uma opinião única, generalizada e aceite sobre a natureza da luz. Em vez disso, havia numerosas escolas (…) competidoras e todas realçavam como observações paradigmáticas, o conjunto particular de fenómenos ópticos que lhes podia explicar a sua teoriai, ou seja, o período que antecede a adopção de um paradigma é um período do género do acima descrito, caracterizado pelo desacordo constante e pela discussão de fundamentos. Em casos como este existem quase tantas teorias como cientistas e penso que é por aqui que poderei começar contrapondo este tipo de períodos designados por Kuhn de "pré-ciência" a períodos de ciência madura que, de acordo com o mesmo, são governados por um só paradigma. Mas o que é então um paradigma? Nas próprias palavras de Kuhn um paradigma é o que os membros de uma comunidade científica compartilham e, reciprocamente, uma comunidade científica consiste em homens que compartilham um paradigma.ii E o que compartilham esses homens? Um conjunto de suposições teóricas gerais, leis e técnicas para a aplicação dessas leis. É então o paradigma que coordena e dirige a actividade de grupos de cientistas que nele trabalham. Para além de leis estabelecidas, suposições teóricas e formas de aplicar essas leis, o paradigma inclui igualmente os instrumentos necessários para que as leis do paradigma suportem o mundo real. Por exemplo, a aplicação do paradigma newtoniano à astronomia, implicou a utilização de todo um conjunto de telescópios, juntamente com técnicas que permitam corrigir os dados recolhidos com a ajuda daqueles.
O paradigma comporta ainda, como sumariamente referi na introdução, elementos de ordem metafísica que gerem o próprio trabalho dentro do paradigma, e metodológico-científica. Como exemplo de um elemento metafísico, posso referir um certo tipo de suposição que governou o paradigma newtoniano no século passado: A totalidade do mundo físico é explicada como um sistema mecânico operando sob a influência de várias forças, de acordo com as leis do movimento de Newtoniii, e como exemplo de um instrumento metolológico-científico, uma afirmação do tipo: Faz todas as tentativas para adequares o teu paradigma à natureza.iv
A ciência normal não é nem mais nem menos do que o período em que se trabalha num determinado paradigma, adoptado por uma comunidade científica. Kuhn retrata este período como um puzzle simultaneamente de natureza teórica e experimental: os problemas de articulação do paradigma são ao mesmo tempo teóricos e experimentais. Neste período entendem-se problemas bem definidos que contêm implicitamente as suas soluções. Avança-se nos problemas que o paradigma permite detectar e resolver.
A ciência normal significa então uma investigação que se baseia em problemas que uma comunidade científica reconhece em particular durante um determinado periodo de tempo como fundamento para a sua prática posterior.v
Os cientistas pressupõem, neste sentido, que o paradigma fornece os meios para resolver os puzzles, dentro dele, de forma que, uma falha na resolução destes puzzles é vista mais como uma falha do cientista, do que como uma inadequação do paradigma tal como, quando num jogo de xadrez um jogador perde, a culpa é atribuída a ele e não ao jogo de xadrez, ou seja, o fracasso reside em falhas cometidas pelo jogador e não nas regras de xadrez que funcionam perfeitamente.
Este período assume ainda um carácter cumulativo uma vez que se procede à construção de instrumentos mais potentes e eficazes, se efectuam medições mais exactas e precisas, não procurando o cientista, a novidade; trata-se de uma espécie de "variação em torno do mesmo", como nos deixa antever Kuhn: A característica mais surpreendente dos problemas de investigação normal (…) é a de tão pouco aspirarem a produzir novidadevi. Todavia, "tais novidades aparecem necessariamente uma vez que se articulação teórica do paradigma aumenta, consequentemente aumenta o conteúdo informativo da própria teoria, e é sabido que quanto mais se diz, maior é o risco de engano. Em termos de paradigma, quanto maior é o conteúdo informativo, maior e mais fácil é ser desmentido. É neste contexto que se explicam as anomalias, factos que o cientista não consegue resolver dentro do paradigma (um exemplo de uma anomalia é, por exemplo, a observação dos satélites de Júpiter por Galileu). No entanto, Kuhn reconhece que a existência de anomalias ou problemas é comum, ou seja, não é pela simples existência de uma anomalia que se instala uma crise! Ver-se-á, de seguida, quais as anomalias que poderão conduzir a uma crise.

Crise e revolução

Referiu-se no capítulo anterior que durante um período de ciência normal, o cientista trabalha confiante na área ditada pelo paradigma que lhe dá um conjunto de problemas e de métodos que ele acredita poderem resolver os problemas. Todavia, são encontradas falhas que se podem tornar sérias, constituindo uma crise para o paradigma que in extremis poderá levar á rejeição deste e à sua substituição por um outro. Mas como referi também, não é a mera existência de puzzles não resolvidos que, necessariamente, conduz à crise pois o valor atribuído a um novo fenómeno (…) varia de acordo com o nosso cálculo da amplitude com que o dito fenómeno rompe com as previsões induzidas pelo paradigma viie para que uma anomalia provoque uma crise, deve ser algo mais do que uma anomalia (…) o que é que faz com que uma anomalia mereça exame?viii 

É, pois, só sob determinadas condições que as anomalias chegam ao ponto de destruir a confiança dos cientistas no seu paradigma; os cientistas fazem, de facto, todas as variações possíveis para adaptar o seu paradigma à anomalia. Esta só é tida como verdadeiramente séria e grave se ameaça os fundamentos de um paradigma ao resistir a todas as tentativas empreendidas pela comunidade científica para a remover. O primeiro esforço de um cientista face a uma anomalia é dar-lhe estrutura, aplicando com mais força ainda, as regras da ciência normal, mesmo dando-se conta de que elas não são absolutamente correctas. Mas à medida que vão surgindo mais e mais anomalias, instala-se a crise. 

E como reagem os cientistas à crise? 

Perdendo a confiança no paradigma anteriormente perfilhado e esta perda manifesta-se nas discussões filosóficas sobre fundamentos e métodos a que recorrem os cientistas que expressam descontentamento explícito (…) tudo isto são sintomas de uma transição de uma investigação normal para uma não ordinária.ix
A seriedade de uma crise aprofunda-se quando surge um paradigma rival que será muito diferente a até incompatível com o anterior uma vez que, a transição de um paradigma para outro não é um processo cumulativo, mas uma reconstrução do campo de investigação a partir de novos fundamentos: A tradição científica normal que surge de uma revolução científica é incompatível com as que existiam anteriormente.x
Enfraquecido e minado um paradigma, abre-se a porta à revoluçãoa transição para um novo paradigma é a revolução científica.xi
Um grande marco de uma revolução paradigmática é, por exemplo, a revolução galilaica do século XVII. Vê-se facilmente como funciona um paradigma, tomando como exemplo a observação das manchas solares feita por Galileu. Ele observa-as através do telescópio e outro cientista não as vê nas mesmas condições. Porquê? Por que se trata de dois paradigmas diferentes: um permite ver as manchas solares, ao passo que o outro não. No fundo, a ciência aparece-nos como algo de conservador, na medida em que se agarra aquilo que permite evitar o caos.
A prática científica pressupõe sempre uma pré-compreensão do real que determina o objecto, o método e o tipo das suas investigações. E um paradigma é, nesta medida, uma espécie de "caleidoscópio" e quando muda, o que se altera é o jogo de espelhos- esse é o paradigma, a nova configuração. Há momentos da história da ciência em que se mudam esses espelhos, como é o caso da revolução galilaica e assim, estamos perante uma outra configuração dos factos .
Galileu configura, pois, um novo paradigma.

O período de revolução científica é, neste sentido, um período de mudança de paradigmas e o que muda é a maneira de olhar o mundo. Os diferentes paradigmas irão considerar diferentes tipos de questões como legítimas ou significativas: O nascimento de uma nova teoria rompe com a tradição da pratica científica e introduz uma nova, o que se leva a cabo com regras diferentes e dentro de um universo de razões também diferentesxii e assim envolve diferentes e incompatíveis modelos. Isto é compreensível na medida em que ao abraçar um paradigma, o cientista adquire uma teoria, um método e um conjunto de normas; quando muda o paradigma, necessariamente são alterados os critérios que determinam a legitimidade quer dos problemas, quer das próprias soluções propostas.

Mas então, como se passa de um paradigma a outro? 

Como aceitam os cientistas o novo paradigma? De acordo com Kuhn não há nenhum argumento lógico que possa demonstrar, à priori, a superioridade de um paradigma relativamente a outro e, neste sentido, obrigue o cientista a adoptar um e não outro. O que há (tal como adiantei na introdução) é um conjunto de factores que se encontram envolvidos no julgamento que o cientista faz dos méritos de uma teoria. Se um pode, eventualmente, sentir-se atraído pela teoria copernicana em virtude da sua extrema simplicidade, um outro pode rejeitá-la por motivos do foro religioso. Para além das razões individuais que condicionam a adopção de um novo paradigma, há também todo o conjunto de modelos a fixar e diferentes princípios metafísicos, que os paradigmas rivais propõem. Enfim, há todo um conjunto de razões de tal forma inter-relacionadas que não se pode afirmar a existência de algum argumento lógico que, por si só, obrigue o cientista a abandonar um paradigma a favor de outro, embora Kuhn apresente alguns critérios que , obviamente, podem ser tidos em linha de conta para considerar um teoria melhor do que outra, entre eles: a exactitude da predição, particularmente e predição quantitativa; o balanço entre matérias esotéricas e as matérias ordinárias, etcxiii.
Em suma, revolução científica chamamos ao abandono de um paradigma e á adopção de um outro, não por um cientista individualmente, mas por toda uma comunidade científica, sendo a transição sucessiva de um paradigma para outro por meio de uma revolução, o modelo ideal de desenvolvimento de uma ciência madura.xiv

Conclusão 

À primeira vista poderá parecer que Kuhn se limita a dar uma explicação puramente descritiva da natureza das ciências o que, a meu ver, não é verdade, uma vez que Kuhn estabelece as funções da ciência normal e da revolução. Se a ciência normal tem como função fornecer aos cientistas a oportunidade de desenvolverem detalhadamente uma teoria, aplicando toda a sua energia e todo o seu esforço, Kuhn adianta que se permanecesse neste período normal, a ciência não progrediria. Se a ciência progride é porque ela contém em si os meios mediante os quais o paradigma "racha", permitindo o salto para um outro sendo esta, justamente, a função da revolução. 
O que Kuhn propõe é, precisamente, um progresso que se faz mediante a revolução.
Posto isto, quais então as consequências de Kuhn para uma nova ideia de ciência? 
Em que é que ele difere de anteriores concepções de ciência?

Em primeiro lugar, toda esta perspectiva desenvolvida ao longo deste texto, oferece um novo questionamento de toda a ciência experimental. Se toda a investigação é feita com base num paradigma e se esse paradigma contém elementos de variada natureza, não há experiência, não há ciência, sem teoria.

Em segundo lugar, para além de sublinhada a importância concedida à teoria, é também questionada uma concepção de história continuista da ciência, como a entende Popper, por exemplo. Segundo a perspectiva popperiana a história da ciência consiste numa série de conjecturas; trata-se de formular hipóteses e em segundo lugar de as refutar. A ciência para Popper começa com problemas referentes à explicação do mundo ou do universo, mas para resolver estes problemas são formuladas hipóteses que posteriormente são postas de parte. Há, portanto, um crescimento contínuo e constante das ciências. Para Kuhn, pelo contrário, a ciência avança por rupturas.
Esta leitura descontinuista implica um questionamento da história cumulativa da ciência. Segundo uma linha continuista, a ciência tem como horizonte a produção de verdades e a apresentação de teorias explicativas da realidade. Mas se há história, como aliar a historicidade da ciência a esse seu objectivo que é a formulação de proposições científicas verdadeiras? Nesta perspectiva a ciência constrói-se por acumulação, visto que cada teoria aperfeiçoa a anterior e é, justamente, este conceito cumulativo que Kuhn questiona.




Que concepção de verdade para Karl Popper?

Em última análise o que é questionado é o conceito de verdade. No falsificacionismo está implícito um pressuposto racionalista que se poderá traduzir na preocupação da ciência em procurar a verdade. A verdade será, portanto, a preocupação fundamental, mas Popper afirma frequentemente ser impossível formular um critério de verdade e aqui reside uma certa contradição, pois se por um lado a ciência caminha para a verdade, por outro lado não há critério que permita afirmar que uma proposição é verdadeira. Quando muito, pode-se dizer que é falsa ou que resistiu às suas falsificações e às falsificações das anteriores teorias e, nesta medida, é superior a elas. A verdade funcionará como uma espécie de ideal regulador. Aproximamo-nos da verdade eliminando os erros das teorias precedentes e substituindo-as por outras com maior grau de verosimilhança, sendo nisto que reside o progresso da ciência, e só há progresso se se admitir uma verdade na direcção da qual se segue. Assim, o objecto da ciência não será tanto a verdade, mas o incrementar da verosimilhança mediante a procura de proposições aproximadamente mais verdadeiras. A verdade é aproximada.

Popper pretende criticar a tese verificacionista, mas ao falar de verosimilhança não recupera aquele conceito? 

A corroboração experimental não implica, ainda que ao de leve, a admissão de argumentos de natureza indutivista? De facto, Popper mostra-se ainda herdeiro dos pressupostos da ciência (empirismo lógico) relativamente aos quais se pretende demarcar. Não dá conta, de facto, da evolução da ciência.

Que concepção de verdade para Thomas Khun?

Para Kuhn a verdade de cada teoria funciona apenas dentro de cada paradigma. Mesmo ao nível da ciência, não há uma verdade absoluta. Kuhn põe em causa o conceito de verdade como objecto da ciência. Podemos falar de verdade, mas apenas como sendo intra-paradigmática.

Em suma, o que Kuhn nos propõe é um progresso que se faz mediante a revolução. Enfim, uma alternativa ao progresso cumulativo, característico da explicação indutivista da ciência.

5- Notas
i T. Kuhn, La estrutura de las revoluciones cientificas, pp.36/37
ii Ibid., p.271
iii Chalmers, What is this thing called science?, p.91
iv Ibid., p.91
v T. Kuhn, Ob.Cit.., p.33
vi Ibid., p.68
vii Ibid., p.98
viii Ibid., p.135
ix Ibid.,p.148
x Ibid., 166
xi Ibid., p.147
xii Ibid., p. 140
xiii Ibid., p.36
xiv Ibid., p.36



Bibliografia

KUHN, Thomas, La estrutura de las revolutiones cientificas, Trad de Agustín Contín, Ed. Fundo de Cultura Econémica, Madrid, 1975.

CHALMERS, A. F.,What is this thing called science?, 2ª ed.,Open University Press, England, s/d.


 REALE, Giovani e ANTISERI, Dario, Historia del pensamiento filosofico y cientifico, vol III, Trad. De Juan A. Iglesias, Editorial Herder, Barcelona, 1988.


 Isabel Mª Magalhães R.L. Santos Maia
http://www.consciencia.org/thomas-kuhn-ciencia


                                                                                                                                      
                                                                                                                                    Lola
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