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terça-feira, 18 de julho de 2017

Jean-Paul Sartre




Jean-Paul Sartre
A liberdade em Jean-Paul Sartre: responsabilidade, angústia e má-fé
Não há nada que possa eximir o homem da sua condição de ser livre e, consequentemente, da sua condição de responsabilidade diante de seus atos. Barreiras psicológicas, históricas ou socioeconômicas não são capazes de ofuscar a liberdade. 



Célebre retrato de Sartre caminhando nas dunas de Nida, na Lituânia, em 1965. Na imagem, vemos o filósofo projetando a sua sombra nas areias, representando a ideia existencialista de que é o homem, através da projeção da sua vontade no mundo, que constrói a si mesmo e o seu próprio caminho
Um dos conceitos fundamentais da filosofia existencialista sartriana é o de liberdade, uma vez que, para o filósofo, o homem está condenado a ser livre e toda a sua existência decorre desta condição. Assim, frente a uma decisão, o homem percebe o seu total desamparo, já que não há nada que possa salvá-lo da tarefa de escolher; em suma, nada pode salvá-lo de si mesmo – diria Jean-Paul Sartre.
Desse modo, o ser humano, fundamentando-se na sua estrita liberdade, vê-se a todo instante compelido a se inventar, posto que são suas escolhas que constroem a sua essência. Diante desta condição, cabe somente a ele estabelecer, através de suas ações concretas, os critérios que servirão de norte para as suas decisões, explica Sartre.
“[…] o que se poderia chamar de moralidade cotidiana exclui a angústia ética. Há angústia ética quando me considero em minha relação original com os valores. Estes, com efeito, são exigências que reclamam um fundamento. Mas fundamento que não poderia ser de modo algum o ser, pois todo valor que fundamentasse a sua natureza ideal sobre seu próprio ser deixaria por isso de ser valor e realizaria a heteronomia de minha vontade. […] Daí que minha liberdade é o único fundamento dos valores e nada, absolutamente nada, justifica minha adoção dessa ou daquela escala de valores.” – [Sartre, O Ser e o Nada]
Frente a esta falta de fundamentos prontos, o homem angustia-se diante da responsabilidade de escolher, visto que a escolha é ao mesmo tempo afirmação do valor daquilo que se escolhe, trazendo consigo, assim, o peso da responsabilidade. Desse modo, ao escolher algo e, consequentemente, afirmar o seu valor, estamos ao mesmo tempo comunicando a todos o caráter benéfico daquela escolha, já que não há ninguém que possa escolher o mal para si. Desse ponto de vista, nos tornamos responsáveis não só por nós, mas por toda a humanidade.1
“Escolher ser isto ou aquilo é afirmar ao mesmo tempo o valor do que escolhemos, porque nunca podemos escolher o mal, o que escolhemos é sempre o bem, e nada pode ser bom para nós sem que o seja para todos.” – [Sartre, O Existencialismo é um Humanismo]
Quando Sartre diz que “nada pode ser bom para nós sem que o seja para todos”, ele quer dizer, precisamente, que ao escolhermos algo, estamos optando por uma alternativa que, dentro das condições de existência nas quais estamos inseridos, seria a melhor opção e, por ser a melhor, todos também poderiam optar pela mesma. Assim, ao escolher algo, o homem cria um modelo de homem que outros podem seguir; daí a sua responsabilidade diante da humanidade.
O existencialismo de Sartre, ao contrário das filosofias contemplativas, caracteriza-se por ser uma doutrina de ação, colocando sempre o compromisso como fator indispensável para a existência humana, uma vez que, sem compromisso, não há projeto de ser e, sem projeto de ser, o homem torna-se incapaz de conferir qualquer sentido à existência. Se a intencionalidade é a característica fundamental da consciência, ser livre é engajar-se, comprometer-se e, enfim, responsabilizar-se.
Portanto, concluímos que não há nada que possa eximir o homem da sua condição de ser livre e, consequentemente, da sua condição de responsabilidade diante de seus atos. Barreiras psicológicas, históricas ou socioeconômicas não são capazes de ofuscar a liberdade a qual Sartre se refere, pois estas nada mais são do que as condições de existência que possibilitam escolher por A ou B; sem tais condições, a escolha seria impossível; mais do que isso: toda a existência seria impossível.
Toda condição é, por sua natureza, uma limitação; contudo, é também o que possibilita a existência de algo. Logo, para que a liberdade exista, é necessário que existam as condições que possibilitem a sua existência, isto é, que possibilitem o ato da escolher, mas que também, por outro lado e ao mesmo tempo, limitem as possibilidades dessa escolha.
 “O homem é livre porque não é si mesmo, mas a presença a si. O ser que é o que é não poderia ser livre. A liberdade é precisamente o nada que tendo sido no âmago do homem e obriga a realidade humana a fazer-se em vez de ser.” – [Sartre, O Ser e o Nada]
Diante dessa constante tarefa de fazer-se, do desamparo, da falta de fundamentos prontos e da responsabilidade que carrega diante de si e da humanidade, a liberdade traz ao sujeito a angústia existencial, a qual emerge no momento da decisão. Angustia-se, pois não é capaz de alterar as condições de existência que se lhe apresentam, tendo de escolher, por vezes, entre o ruim e o pior e tendo de arcar com as consequências dessa escolha; mais que isso, também não é capaz de não realizar essa escolha; e por fim, tem a incontornável tarefa de buscar, em sua subjetividade imanente, ou seja, na sua pura liberdade, os princípios que regerão sua escolha; isto é, terá de estar diante de seu próprio nada; eis o princípio da angústia.
Veja também: , onde tratamos da problemática do nada na constituição ontológica do ser.
“E minha liberdade se angustia por ser o fundamento sem fundamento dos valores. Além disso, porque os valores, por se revelarem por essência a uma liberdade, não podem fazê-lo sem deixar de ser ‘postos em questão’, já que a possibilidade de inverter a escala de valores aparece, complementarmente, como minha possibilidade. A angústia ante os valores é o reconhecimento de sua idealidade.” – [Sartre, O Ser e o Nada]
A liberdade, porém, não possui uma realidade concreta; não possui uma essência, uma vez que ela própria é o fundamento de toda a essência humana na medida em que fundamenta o agir, possibilitando a projeção da vontade do homem na existência e, por fim, a construção do seu ser, tendo em vista que, segundo a máxima sartriana, a existência precede a essência; isto é, primeiramente o homem é lançado na existência e, só depois, por meio de suas ações, este homem pode representar-se como sendo alguma coisa, pois, a priori, não era nada.


Como vimos, não há determinismos que possam eximir o homem da sua condição ontológica de liberdade. Contudo, na tentativa de livrar-se da angústia trazida pela responsabilidade que a liberdade carrega consigo, o homem refugia-se na má-fé. Sartre admite que a má-fé pode ser compreendida como o ato de mentir para si mesmo, mas um mentir que não comporta a dualidade do enganador e do enganado, pois, aqui, aquele que é enganado é também consciente da verdade que deseja suprimir. Porém, a má-fé tem por sua natureza mesma a característica de negar-se como má-fé, sendo um processo de constante e frustrado esforço, uma vez que, para que se possa fugir de algo que se faz presente na própria consciência, é necessário que se pense constantemente nesse algo; isto é, o projeto da má-fé consiste em encarar certo aspecto do ser com a pretensão de dele fugir, num só movimento; obviamente, na consciência, tal objetivo é impossível de ser realizado e, por ser impossível, a má-fé nunca se encerra em seu objetivo.
Basicamente, podemos compreender a má-fé como a tentativa de transferir responsabilidades que concernem unicamente ao indivíduo; ou seja, ao atribuir exclusivamente a fatores sociais, metafísicos, históricos ou até inconscientes o fundamento e as responsabilidades de sua escolha, o indivíduo se encontra no estado de má-fé, pois tais fatores exercem influência na sua decisão ao determinarem as possibilidades de escolha; contudo, cabe somente a ele optar, por meio de sua liberdade, por qual possibilidade lhe é mais adequada. Aqui, não há como fugir; só há espaço para a subjetividade do sujeito, ou seja, para o seu próprio nada de ser, e qualquer tentativa de preencher este espaço vazio será aqui denominada de má-fé.



                                               Lola

Jean-Paul Sartre


Jean-Paul Sartre
O problema do ser em Jean-Paul Sartre
Fortemente influenciado pelo pensamento de Heidegger e Husserl, Sartre, ao desenvolver sua fenomenologia existencial, assume importante papel na compreensão da consciência e do ser em sua totalidade, e para melhor compreendermos a sua filosofia, é fundamental que entendamos, antes de qualquer coisa, alguns de seus principais conceitos.

Jean-Paul Sartre, influente filósofo existencialista do século XX

Para Sartre, a realidade humana pode ser compreendida como um constante fazer-se. Não há nada que possa satisfazê-la inteiramente, pois a incompletude é sua própria substância, de modo que a liberdade é sua essência, visto que o que define um indivíduo são suas escolhas; desse ponto de vista, verificamos que, em Sartre, podemos descartar a ideia de uma personalidade em si mesma, posto que o ser enquanto ser é um nada de ser. A liberdade, para o pensador francês, não pode ser concebida da mesma forma que as demais características do ser, mas sim como o fundamento de todas elas; portanto, está contida no âmago do ser. Não há nada que justifique essa ou aquela ação, a não ser a própria liberdade, o que confere ao homem a total responsabilidade diante de seus atos.1
“Para a realidade humana, ser é escolher-se: nada lhe vem de fora, nem tampouco de dentro, que possa receber ou aceitar. Está inteiramente abandonada, sem auxílio de nenhuma espécie, à insustentável necessidade de se fazer ser até ao mais ínfimo pormenor. Assim, a liberdade não é um ser: é o ser do homem, quer dizer, o seu nada de ser. (…) O homem não pode ser ora livre, ora escravo; ele é inteiramente e sempre livre, ou não é.” – [Sartre, J.-P., O Ser e o Nada].
Portanto, podemos concluir que Sartre contrapõe-se às noções deterministas tanto internas, negando, desta forma, a teoria psicanalítica, no que diz respeito às determinações inconscientes que norteariam a vida consciente de um indivíduo, como externas, desconsiderando, além das influências metafísicas, as condições econômicas e sociais que, embora possam exercer certa influência, não são determinantes na vida de um indivíduo.
“Assim, a liberdade não é um ser: é o ser do homem, quer dizer, o seu nada de ser.”Ao lermos esta frase, podemos lançar a seguinte pergunta: o que seria este nada de ser? Para responder esta pergunta, é fundamental que apresentemos os conceitos de ser-Em-si e ser-Para-si:
Em-si é tudo aquilo que possui essência definida, ou seja, todo o tipo de representação objetiva existente. Assim, podemos dizer que um homem é um ser-Em-si para os outros, já que estes só têm acesso ao que é objetivado. Para o outro, não há outro modo de captá-lo senão do mesmo modo que se capta a realidade de uma porta, de uma cadeira ou de uma mesa; isto é, através do que é manifestado objetivamente.
Já o Para-si pode ser definido como a relação do ser consigo próprio, na medida em que é consciência de ser. O ser enquanto ser resume-se a ser infinidade de possibilidades e conflito de sentimentos; representa-se, para si próprio, como um vir-a-ser, que ainda não é; ou seja, nada mais é que um nadade ser.2
“A condição é uma representação para os outros e para mim, o que significa que só posso sê-la em representação. Porém, precisamente, se represento, já não o sou: acho-me separado da condição tal como o objeto do sujeito – separado por nada, mas um nada que dela me isola, impede-me de sê-la, permite-me apenas julgar sê-la, ou seja, imaginar que sou. Por isso, impregno de nada essa condição”. [Ibid.]
Transpondo para um ponto de vista mais pragmático, podemos constatar as conclusões sartrianas na frequente e perene insatisfação do homem que, na tentativa de atingir um ser pleno e dotado de pura positividade – um Em-si -, age de forma incessantemente. Como todas as suas tentativas fracassam, já que, como vimos, o Em-si só pode ser apreendido pelo outro, ele tenta novamente e, de novo, fracassa; desta forma, a plenitude nunca é alcançada e este ciclo de movimento nunca cessa.
“O ser da consciência não coincide consigo mesmo em uma adequação plena… A característica da consciência é que ela é uma descompressão do ser. É impossível, com efeito, defini-la como coincidência consigo própria. Desta mesa, posso dizer que ela é pura e simplesmente esta mesa. Mas de minha crença (por exemplo), não me posso limitar a dizer que é crença: minha crença é consciência de crença.”  [Ibid.]
Assim sendo, essa descompressão de ser é o fundamento do agir humano na medida em que é o fundamento da própria consciência. Somente um ser desprovido de consciência pode estar em coincidência consigo mesmo, pois ele apenas é, sem que, por outro lado, se constitua como consciência de si. Essa não consciência de ser gera uma compressão de ser infinita, dado que o fato de ser sem fundamentar-se condiciona a coincidência consigo mesmo. Por outro lado, o ser que, além de ser, fundamenta-se, isto é, constitui-se como consciência de si, torna-se incapaz de coincidir consigo próprio, pois a estrutura de ser e a estrutura que o fundamenta se anulam, restando ao ser apenas o seu próprio nada, ou seja, a sua descompressão de ser de forma manifesta.
Deste modo, com as estruturas ontológicas apresentadas aqui, captamos a própria essência do agir humano, ao passo que o homem entende-se, mesmo que subjetivamente, como sendo um nada de ser, e a partir desta compreensão, passa a projetar-se nos outros, buscando coletar fragmentos para a formação de uma representação própria; no entanto, como vimos anteriormente,
 “[…] se represento, já não o sou: acho-me separado da condição tal como o objeto do sujeito […]”.1

 by Lucas CaminhaPublished abril 15, 2015




Lola

Jean-Paul Sartre


Jean-Paul Sartre
A Idade da Razão – Sartre: Que é o homem? Que é a moral?

Jean-Paul Sartre, filósofo, romancista e dramaturgo
O romance A Idade da Razão, publicado por Jean-Paul Sartre em 1946, é uma obra de cunho filosófico-existencialista que trata da problemática da liberdade, da consciência e da moralidade na constituição do homem, através da história de Mathieu Delarue, um professor de filosofia que, por defender a ideia de uma liberdade individual irrestrita, despreza qualquer tipo de compromisso. A narrativa se passa em Paris, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, e tem como foco o relacionamento entre Mathieu e sua companheira Marcelle. Com este ensaio, faremos uma articulação entre a problemática do ser e uma análise crítica do romance, abordando conceitos da ontologia fenomenológica e da filosofia existencialista propostas por Sartre, partindo da primeira indagação contida no título desta reflexão – que é o homem?, para que, a partir de então, possamos responder a segunda – que é a moral?
O livro apresenta aos leitores alguns dias da vida de Mathieu, no período em que o personagem recebe a notícia de que sua namorada Marcelle está grávida. Não querendo ser pai por acreditar que ser livre consiste em não se comprometer com nada, ele passa a buscar alternativas para a resolução do problema, uma vez que a paternidade implicaria em assumir a sua companheira e ter responsabilidades diante do filho. Tal concepção de liberdade exerce forte influência em sua vida cotidiana, uma vez que ele não assume sua namorada, resiste ao fato de ser pai, possui poucos amigos e não se engaja em movimentos políticos e sociais, dentre outras condutas da mesma natureza. Desse modo, a narrativa desenvolve-se de tal maneira que a sua ideia de liberdade defronta-se constantemente com o que a liberdade é na sua realidade, realidade esta que, no romance, reflete o conceito de liberdade proposto por Sartre ao longo de sua vasta obra filosófica.
“Bem, a tua famosa lucidez. Tu és divertido, meu velho. Tens um medo tão grande de te iludir a ti próprio que recusarias a mais bela aventura do mundo para não te arriscares a uma mentira…”: a fala de Marcelle, que aparece em uma de suas conversas com Mathieu, ilustra a conduta cuidadosa e calculista do companheiro, que sempre busca um distanciamento daquilo que lhe é estranho em defesa da cotidianidade estabelecida. Desse modo, o personagem tem uma vida previsível, sem muitas emoções e com poucos riscos, em benefício da sua ideia de que ser livre é não se comprometer. Contudo, com o desencadear dos fatos, tal concepção por ele pensada passa a contradizer-se com aquilo que ele observa na sua vida e passa a modificar-se.
“És livre. Mas para que te serve a liberdade, senão para tomar uma posição? Levaste trinta e cinco anos na limpeza, e o resultado dela é o vácuo. És um corpo estranho, sabes?”2. Na articulação de Brunet direcionada a Mathieu, seu amigo de longa data, observa-se um forte traço do existencialismo sartriano, posto que, se a existência precede a essência, é somente através da projeção da sua vontade no mundo, isto é, do seu engajamento, que o homem pode se definir como sendo algo. Se, para Mathieu, ser livre significa não se engajar, ele se encontra numa postura de má-fé, uma vez que, ao agir assim, ele já se encontra engajado num projeto: o de ser inteiramente livre. Noutras palavras, é impossível se falar em uma liberdade que não carregue o engajamento e a responsabilidade em seu âmago. “Renunciaste a tudo para ser livre. Dá mais um passo, renuncia à própria liberdade. E tudo te será devolvido.”, escreve o autor. Com isso, Brunet, personagem que traduz fortemente a compreensão existencialista de liberdade, quer dizer que a liberdade não precisa ser entendida como um fim para que possa existir, posto que ela é a condição ontológica do homem e nada pode ofuscá-la.
Para a realidade humana, ser é escolher-se: nada lhe vem de fora, nem tampouco de dentro, que possa receber ou aceitar. Está inteiramente abandonada, sem auxílio de nenhuma espécie, à insustentável necessidade de se fazer ser até ao mais ínfimo pormenor. Assim, a liberdade não é um ser: é o ser do homem, quer dizer, o seu nada de ser. (…) O homem não pode ser ora livre, ora escravo; ele é inteiramente e sempre livre, ou não é. [SARTRE, O ser e o nada: ensaio de fenomenologia ontológica].
“Talvez não possa ser de outro modo; talvez seja preciso escolher: não ser nada ou representar o que é. Isso seria terrível, essa trapaça com a nossa própria natureza”. Ao fazer essa reflexão, Mathieu aborda uma condição intransponível do homem: o nada. A consciência, enquanto um ser “para si”, só existe na medida em que existem as coisas, os seres “em si”, uma vez que, partindo do pensamento husserliano, toda consciência é consciência de alguma coisa. Isto é, não existe uma consciência que não seja imbricada com o mundo. O “para si” caracteriza-se pela sua negatividade, pela sua possibilidade de ser, que sempre busca atingir a positividade do “em si”, o que é impensável, pois justamente por não ser um “em si” a consciência torna-se possível.
A condição é uma representação para os outros e para mim, o que significa que só posso sê-la em representação. Porém, precisamente, se represento, já não o sou: acho-me separado da condição tal como o objeto do sujeito – separado por nada, mas um nada que dela me isola, impede-me de sê-la, permite-me apenas julgar sê-la, ou seja, imaginar que sou. Por isso, impregno de nada essa condição [SARTRE, O ser e o nada: ensaio de fenomenologia ontológica].
O homem projeta-se no mundo e cria uma imagem de si, imagem esta que é um objeto tal qual qualquer outro, um “em si”. Isto é, tal representação de modo algum revela a verdade do ser, posto que este ser é um nada, uma vez que o homem é uma questão para si próprio. Não existe nada de anterior a escolha, a não ser a estrita liberdade.  O homem é o que é porque se faz de determinado modo, e não o contrário, isto é, faz-se de certo jeito porque é de determinado modo. Nesse sentido, o homem encontra-se só e sem desculpas, inteiramente responsável pelo seu ser e sem critérios a priori que possam nortear suas escolhas; somente a ele cabe estabelecer tais critérios.
Aqui, podemos pensar numa moral pautada na existência concreta do homem, sem o uso de ferramentas metafísicas. Não havendo valores inscritos na eternidade, o homem é sempre conclamado a pôr em questão a moralidade, pois esta só adquirirá sentido se compreendida em seu espírito, se entendida como relevante para a existência humana, pois, se não for, torna-se perfeitamente dispensável. O homem que credita a sua conduta moral a fatores externos age de má-fé, pois não existe nada que possa eximi-lo da tarefa de escolher por essa ou aquela escala de valores.
Diante da gravidez de Marcelle, nada de externo pode vir em auxílio a Mathieu para decidir por ele o que escolher. Sendo um sujeito que preza pelo descompromisso, logo de imediato pensa que a melhor solução é o aborto, pois assim não tem de se casar com ela e nem se responsabilizar diante do filho. Contudo, ao mesmo tempo em que valoriza o descompromisso, ele também gosta de Marcelle e não quer que ela passe a odiá-lo. O que fazer nesta situação? Teria ele de medir os valores, para que, depois de então, pudesse dar um veredito? Poderia ele perguntar-se: “o que mais prezo: minha liberdade ou Marcelle”? Mas como é possível definir tal medida? Para que possamos afirmar que um valor é maior do que este ou aquele outro, é preciso escolher. Nessa perspectiva, o homem encontra-se na sua angústia, pois, sem fundamentos prontos para a sua escolha, ele tem de fazer-se. Só depois da escolha o valor é afirmado, sendo a angústia o que é anterior a essa escolha.
Escolher ser isto ou aquilo é afirmar ao mesmo tempo o valor do que escolhemos, porque nunca podemos escolher o mal, o que escolhemos é sempre o bem, e nada pode ser bom para nós sem que o seja para todos. [SARTRE, O Existencialismo é um Humanismo].
Se ao escolhermos algo criamos um modelo de homem que outros podem seguir, de imediato tornamo-nos responsáveis também por todos os homens; eis o princípio de uma moral existencialista. Por buscarmos sempre o bem, estamos constantemente anunciando caminhos, jurisprudências, que outros podem seguir e, levando em consideração que o homem necessita dos outros para definir-se enquanto representação, o cuidado ao abrir tais caminhos apresenta-se como essencial. Noutras palavras, é pensando em si que o homem deve construir a moral, sem que, por outro lado, caia num solipsismo, pois o olhar do outro sempre carrega um segredo a seu respeito.

 Lola

terça-feira, 19 de abril de 2016

Jean-Paul Sartre


Jean-Paul Sartre

O problema de Deus em Jean-Paul Sartre


O filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980) não escreveu apenas obras filosóficas, mas também ensaios, romances e peças de teatro. Em sua obra de caráter existencial, Sartre não deu uma importância excessiva ao problema religioso, pois não estava preocupado em discutir acerca da existência ou não existência de Deus. Antes disso, sua filosofia consiste em colocar o homem como responsável por todos os seus atos. Lançado num mundo sem justificativa, o indivíduo projeta-se no futuro, escolhe um sentido para sua vida, já que ela não possui um sentido a priori. Desta forma, o existencialismo de Sartre está inteiramente estruturado no fato de que a existência humana precede sua essência, e esta é construída através da liberdade responsável que o homem manifesta ao escolher sua própria vida. Nada, nem mesmo Deus, pode justificar o homem ou retirá-lo de sua liberdade total e absoluta, ou ainda salvá-lo de si mesmo. No presente texto, buscamos fazer uma análise de sua obra filosófica e literária à procura dos fatores que explicam e fundamentam o ateísmo sartreano.

O existencialismo de Sartre e a condição do homem no mundo

Em 1946, alguns anos após a publicação de sua obra mais importante e de caráter puramente filosófico, O ser e o nada, Sartre profere uma conferência intitulada O existencialismo é um humanismo, na qual pretende defender seu pensamento de uma série de críticas e explicitar com mais clareza suas idéias. Nesta conferência, ao colocar o homem como pura subjetividade, Sartre demonstra que sua filosofia tira todos os subsídios de uma postura absolutamente atéia, o que consiste em considerar que a existência humana precede sua essência. Para tal, Sartre cita o exemplo de um objeto fabricado, mais precisamente um corta-papel.
Ao concebermos um corta-papel, devemos admitir que esse objeto foi fabricado por um artífice, que já possuía uma idéia prévia, um conceito do que seria este objeto, pois é impossível imaginar a fabricação de algo sem saber exatamente para que irá servir. No caso do objeto, a sua produção precede sua existência, isto é, antes de o objeto ser fabricado, já possuíamos um conceito dele. Deste modo, quem crê em Deus, considera-o como um Artífice superior, no qual estaria implícito a noção do homem. De forma análoga, há alguns ateus que, como os do século XVIII, mesmo negando a existência de um Criador, admitem que o homem possui uma natureza humana, um conceito humano, que colocaria todos os homens numa mesma definição, pois são possuidores das mesmas características básicas. A essência, neste caso, continua a preceder a existência, e este é um princípio que podemos observar em quase toda a história da filosofia.
Sartre afirma o contrário. Dizer que a existência precede a essência não é simplesmente suprimir Deus e negar a natureza humana em função da realidade humana. Dizer que a existência precede a essência é colocar o homem como um nada lançado no mundo, desprovido de uma definição. O homem surge no mundo e, "de início, não é nada: só posteriormente será alguma coisa e será aquilo que ele fizer de si mesmo" (Sartre, O Existencialismo é um Humanismo. São Paulo: Nova Cultural, 1987, p. 6.). Ora, isso implica também o fato de que o homem só se faz num constante projeto, num incessante lançar-se no futuro. Somente assim o homem irá se definir como ser existente e consciente de si mesmo.
O existencialismo impõe ao homem a inteira responsabilidade no exercício de suas ações. Ao escolher sua vida, o homem também escolhe todos os homens. O valor de sua escolha é determinado pelo fato de que ele não pode escolher o mal. Nas palavras de Sartre: "o que escolhemos é sempre o bem e nada pode ser bom para nós sem o ser para todos" (idem, p. 7). A imagem que moldamos de nós deve servir, em última instância, para todos os homens. Nesse sentido, o homem não é só responsável por si, mas também pela humanidade inteira.
O existencialismo ateu de Sartre busca manter sua coerência atribuindo ao homem o compromisso de construir a sua própria essência. Lançado no mundo sem perspectivas, o homem determina sua vida ao longo do tempo, e descobre-se como liberdade, ou seja, como escolha de seu próprio ser no mundo. Ao falar da condição do homem, Sartre relaciona-o com a angústia, o desamparo e o desespero. Mas o que significa definir o homem nestes termos?
A angústia consiste simplesmente na descoberta de que o homem, quando escolhe, não é apenas o legislador de si mesmo, mas alguém que, ao mesmo tempo, escolhe a si mesmo e a humanidade inteira. O homem que descobre isso não consegue escapar de sua total e absoluta responsabilidade, que gera o sentimento original de angústia. Por isso é o próprio homem quem determina o valor de sua escolha, pois ele tem o constante dever de se perguntar: "o que aconteceria se todo mundo fizesse como nós?" (ibidem, p. 7) Assim, a ação do homem, vista como a escolha constante de seu destino, é propriamente constituída por angústia.
Ao falar de desamparo, Sartre quer simplesmente dizer que "Deus não existe e que é necessário levar esse fato às últimas conseqüências" (idem, p. 8). Desamparo significa que o homem não possui nada a que possa se segurar, nem dentro nem fora dele; não existem bases para direcionar suas ações, a não ser sua liberdade e responsabilidade. Não existem valores eternos preestabelecidos que impedem o homem de agir, nenhuma justificativa ou desculpa que o retire de sua escolha. Em qualquer situação, somos nós que escolhemos, subjetivamente, aquilo que provém de nossa própria vontade. O homem está só: "o desamparo implica que somos nós mesmos que escolhemos o nosso ser. Desamparo e angústia caminham juntos" (ibidem, p. 12). Não obstante, o desespero está ligado ao fato de que o existencialista não espera nada de um mundo transcendente. Se o desamparo é ausência de Deus, o desespero é não esperar por ele. As circunstâncias, deste modo, não podem servir como evasivas para nossos atos, nem como subterfúgios para nossos fracassos. Des-espero: o que torna nossa ação possível é apenas a nossa própria vontade. Por isso Sartre escreve: "o homem nada mais é do que o seu projeto; só existe na medida em que se realiza; não é nada além do conjunto de seus atos, nada mais que sua vida" (idem, p. 13). Projeto, liberdade, responsabilidade, e existência que escolhe sua essência são termos constantes na obra de Sartre, e que também se interagem e são correlatos. Assim, podemos dizer que é inerente à condição do homem sua situação autêntica de angústia, desamparo, desespero.

A gênese do ateísmo: a literatura e a influência familiar

Sartre abandonou a crença quando possuía apenas 11 ou 12 anos. Numa entrevista concedida à Simone de Beauvoir (A Cerimônia do Adeus. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981), reconhece que o pensamento da não existência de Deus surgiu naturalmente, de repente:
"...e sob a forma de uma pequena intuição, lembro-me muito bem que disse a mim mesmo: Deus não existe. É notável pensar que pensei isso aos onze anos, e nunca mais tornei a fazer-me a pergunta até hoje, isto é, durante sessenta anos (...). Não recordo haver-me jamais lamentado ou surpreendido pelo fato de Deus não existir". (Idem, p. 589-590.)
Sartre considera essa intuição como algo concreto, uma verdade evidente e sem pensamentos prévios. Com sua família de cunho católico (a avó) e protestante (o avô), mas uma religiosidade aparente, Sartre freqüentava a igreja, mas nada disso era realmente convicção. Por si só, e aos poucos, a simpatia por Deus perdeu seu efeito: "eu tinha necessidade de Deus, ele me foi dado, eu o recebi sem compreender o que procurava. Por não deitar raiz em meu coração, vegetou em mim algum tempo, depois morreu" (As Palavras. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 75). Ao invés de adorar a Deus, Sartre adorava as palavras.
Sartre cresceu no meio dos livros. Aprendeu a ler na biblioteca particular de seu avô, onde encontrou na literatura um refúgio à religião. Numa poética passagem de As palavras, Sartre descreve sua relação primeira com os livros:
"Nunca esgravatei a terra nem farejei ninhos, não herborizei nem joguei pedras nos passarinhos. Mas os livros foram meus passarinhos e meus ninhos, meus animais domésticos, meu estábulo e meu campo; a biblioteca era o mundo colhido num espelho; (...) Eu achara minha religião: nada me pareceu mais importante do que um livro. Na biblioteca, eu via um templo". (Idem, p. 37-44.)
Este contato com os livros e o amor pelas palavras fez de Sartre o escritor que conhecemos hoje. É o que podemos observar em sua autobiografia As palavras, onde ele descreve não só a experiência de seu ateísmo, como também a influência de sua família que, para ele, representava apenas um caráter superficial ou ainda artificial da fé. Em seu ambiente familiar, Sartre descobriu um cristianismo que não se baseava na fé, mas na questão social. Os fiéis alimentavam tradições que não tomavam a cargo, nem refutavam: eram cristãos que nunca haviam se tornado cristãos. O ateu era alguém que também possuía convicções religiosas, um indivíduo que
se obrigava a provar a verdade de sua doutrina pela pureza de seus costumes (...), um maníaco de Deus que via em toda parte. (sic) Sua ausência e que não conseguia abrir a boca sem pronunciar Seu nome. (Ibidem, p. 72.)
Desta forma, Sartre reconheceu na família uma religião pouco convicta, confundida com os valores espirituais e morais, e ainda, com a pureza da arte encontrada nas igrejas: "Não sabiam, imagino, se era a música que as influenciava, por ser religiosa, ou se era a religião, por ser harmoniosa" (Diário de uma Guerra Estranha. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986, p. 94). Os seguidores, sob este aspecto, eram pessoas mascaradas, ocultas na face de um cristianismo sociológico, expresso na indiferença e na contradição familiar: "julgava-se então muito mais difícil ganhar a fé do que perdê-la" (As Palavras, p. 73). No entanto, apesar de Sartre discordar do cristianismo, este não encerra o homem na coagulação abstrata onde Deus seria aquele que impede a ação do homem. Para os cristãos, a causa da liberdade humana está em Deus, que o lança no mundo através do amor, e este representa a relação primeira dos homens entre si e da busca de seu futuro.

A contingência e a gratuidade da existência

Segundo Sartre, fé e necessidade são termos análogos. O homem, nascido sem razão e sem propósito, descobre-se como angústia e sente necessidade de encontrar um sentido para sua vida, necessidade esta que se reflete na crença. Ter fé em Deus significa alienar-se diante da própria liberdade, imputar a algo Transcendente um motivo para agir, esquecer-se que a vida humana nada mais é do que contingência e gratuidade. Em A náusea, Sartre situa o homem como uma "paixão inútil", demais em relação ao mundo. A náusea existencial é o próprio homem, o que ele sente em relação à gratuidade da existência, à possibilidade existencial, absurda em última instância, pois desprovida de significado. A totalidade do mundo, nua perante os olhos do homem, torna-se absurda por seu caráter contingente. Nesse sentido, Sartre afirma que
"o essencial é a contingência. (...) a existência não é a necessidade. Existir é simplesmente estar presente; os entes aparecem, deixam que os encontremos, mas nunca podemos deduzi-los. (...) há pessoas que já compreenderam isso. Só que tentaram superar essa contingência inventando um ser necessário e causa de si próprio". (A Náusea. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986, p. 193-194. Rita Braga, tradutora de A Náusea, pode não ter tido um contato real com a obra filosófica de Sartre: o termo francês être la na verdade significa estar aí, e não estar presente, como consta nesta tradução.)
Para Sartre, o absurdo do mundo é absoluto por sua constante possibilidade, isto é, tudo é gratuito: a vida humana não tem sentido algum, e para superar este caráter contingente da existência, o homem inventa Deus. Cabe exclusivamente ao homem dar um sentido à sua vida.
A contingência faz do homem um ser solitário, que conta somente com sua subjetividade para agir. É pura ilusão acreditar que a vida humana possui um sentido dado por Deus. A única coisa que a vida oferece ao homem é sua própria liberdade, pois já que a vida não possui um significado preestabelecido, só podemos contar com nossa solidão, nossa absoluta individualidade. "A ausência de Deus era visível em todos os lugares. As coisas estavam sós, sobretudo o homem estava só. Estava só como um absoluto" (Beauvoir, op. cit., p. 591). Se Deus não existe, somente o homem pode decidir, sozinho, o melhor caminho para suas escolhas que determinarão sua vida e sua essência.

O olhar de Deus

Uma outra característica importante e decisiva na obra de Sartre é a questão do olhar de Deus. Se o homem está só, como explicar esse olhar direcionado aos homens? EmSursis, romance que compõe a segunda parte da trilogia Os caminhos da liberdade,Sartre descreve a experiência de Daniel, um homossexual que se sente atravessado por esse olhar:
"um olhar que o perscrutava até o fundo, que o penetrava a golpes de punhal e que não era no seu olhar; um olhar opaco, a própria noite, que o esperava no fundo dele mesmo e o condenava a ser ele mesmo, covarde, hipócrita, pederasta para sempre (...). O olhar (...). Estou sendo visto, transparente, transpassado". (Sursis. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983, p. 124-125)
Na presença do olhar de Deus, Daniel sentia ao mesmo tempo repulsa e tranqüilidade, pois havia encontrado, no olhar, uma justificação, um lugar que o livrava de sua culpa. Em outra passagem, Daniel afirma: "Dizer-te o que é esse olhar ser-me-ia fácil: porque não é nada: é uma ausência" (idem, p. 366).
Laurent Gagnebin irá situar o olhar de Deus, na obra de Sartre, como um importuno, que possui uma função que "revient à nous transformer en chose inerte et sans défense devant un jugement qui nous transperce sans respect" ("La Foi" in Connaître Sartre. Paris: Resma, 1972, p. 100; tradução livre: "volta a nos transformar em coisa inerte e sem defesa diante de uma sentença que nos atravessa sem respeito"). Em As palavras, Sartre fala de sua própria existência quanto a este olhar:
"Uma só vez experimentei a sensação de que Ele existia. Eu brincara com fósforos e queimara um pequeno tapete; estava dissimulando meu crime, quando de súbito Deus me viu; senti seu olhar dentro de minha cabeça e sobre minhas mãos; eu rodopiava pelo banheiro, horrivelmente visível, um alvo vivo". (As Palavras, p. 75)
Para Sartre, o olhar de Deus é imaginário, que ele mesmo confessa ter sentido na infância (Beauvoir, op. cit., p. 589). A presença deste olhar está no fato de que, ao agir, o ser humano projeta no olhar do homem uma espécie de "valor transumano" (idem, p. 597.), e este olhar representaria a aprovação dos homens perante nossos atos. Ao situar sua própria obra neste plano, Sartre escreve: "de maneira que há como que um olhar sobre a obra, e que é, no fundo, o olhar dos homens, um pouco multiplicado, um pouco modificado (...). Ou seja, algo como Deus" (ibidem, p. 598).

A negação de Deus e a impossibilidade de sua existência

O existencialismo ateu de Sartre também encontra seu fundamento e sua consistência no fato de que o homem só é realmente livre quando ele contesta Deus e recusa a alienação religiosa. Em As moscas, podemos observar como o pensamento sartreano atribui à religião e à superstição um caráter anulatório da prática da liberdade dos homens. Gagnebin situa esta obra como a expressão original do receio e da escravização humana, pois "le peuple sur lequel règne ce Dieu est un peuple servile et terrorisé, obsédé par ses fautes et annihilé par ses remords toujours égocentriques" (Gagnebin, op. cit., p. 104; tradução livre: "o povo sobre o reinado de Deus é um povo servil e aterrorizado, obsidiado por suas faltas e anulado por seus remorsos sempre egocêntricos"). É preciso ser mais que isso: se o homem é livre, ele só pode escapar e se distanciar de Deus. Orestes, personagem de As moscas, representa o caminho que deve conduzir o homem à negação de Deus, isto é, Júpiter. Com efeito, Orestes afirma: "não sou senhor, nem escravo, Júpiter. Sou a minha liberdade. Mal tu me criaste, deixei de te pertencer" (As Moscas. Lisboa: Editorial Presença, 1986, p. 165). A liberdade humana faz da idéia de Deus uma possibilidade contraditória, pois nega de modo prático sua presença (Gagnebin, op. cit., p. 105), tomando como encargo a recusa referencial à transcendência. A vida do homem "começa para além do desespero" (Sartre, op. cit, p. 165), e este pode ser evitado aceitando sem restrições a angústia da própria gratuidade existencial. O crente, neste caso, está condenado ao desespero, pois só encontra o fundamento de sua existência em sua relação com o Eterno. Contudo, a fé em Deus não prejudica o homem, pois corresponde à possível construção de sua vida enquanto parte da humanidade.
A idéia de que o homem só se realiza enquanto negação da divindade será retomada emO Diabo e o Bom Deus, obra onde a existência de Deus e a do homem livre são, na realidade, desprovidas de qualquer relação concreta, isto é, para que o homem viva, é necessário que Deus desapareça. O homem é o indivíduo que deve escolher a si mesmo e, consequentemente, amar a humanidade em oposição ao amor a Deus. Antes de ser um ataque radical à religião, O Diabo e o Bom Deus reflete o aspecto da moral existencialista, que suprime os valores preestabelecidos num céu inteligível e situa o Bem e o Mal como relativos. Para Sartre, o Bem "é o que se presta à liberdade humana", enquanto o Mal "o que prejudica a liberdade humana" (Beauvoir, op. cit., p. 596). Neste contexto, Deus seria então um mal para os homens?
Em torno da noção de Deus, Sartre irá justificar a impossibilidade de sua existência em sua obra O ser e o nada. O homem, possuidor de uma consciência, definido como "para-si" ou consciência de si próprio e captador das coisas exteriores, busca a consistência do ser "em-si", fechado em si mesmo, sem consciência de sua existência. Deus seria algo como "a impossível síntese do para-si e do em-si" (O Ser e o Nada. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997, p. 140). Ora, a consciência existe somente na medida de consciência e captação do "em-si". Por isso, o conceito de Deus é contraditório, pois é impossível existir, num mesmo ser, a plenitude como causa de si mesmo e a consciência de si como fundamento necessário de si mesmo, isto é,
"um ser que seria seu próprio fundamento, não enquanto nada, mas enquanto ser, e manteria em si a translucidez necessária da consciência, ao mesmo tempo que a coincidência consigo mesmo do ser-em-si. (Idem, p. 140)
Analogamente, o ser humano acaba por tornar-se fracassado em seu projeto, pois o que ele busca é exatamente ser esta síntese: possuir a consciência de si mesmo e a fixidez do em-si. A consciência, como nadificadora da realidade, não suporta o seu próprio vazio, procurando assim realizar-se em termos de absoluto (Bornheim, Sartre. São Paulo: Perspectiva, p. 307). "Ser homem é propender a ser Deus; ou, se preferirmos, o homem é fundamentalmente desejo de ser Deus" (Sartre, op. cit., p. 693).
O homem, na sua relação com o mundo, só se apreende e se realiza na sua relação com o outro, pois o outro é o único que pode apreendê-lo como objeto. O homem tem consciência de sua existência através do olhar do outro, e vice-versa. Ao conceber a humanidade como um todo, só podemos imaginar Deus como o "Outro", pois este seria o único possível em presença atuante em toda a humanidade. Mas se Deus é ausência radical, o projeto da humanidade em se fixar como objeto resulta num fracasso incessante. Nesse sentido, Sartre afirma que "o conceito-limite da humanidade e o conceito-limite de Deus implicam-se mutuamente e são correlatos" (idem, p. 524).

Conclusão

O percurso que fizemos até aqui permitiu-nos observar que a afirmação de Sartre acerca da condição humana perpassa toda a sua obra, e se resume no fato de o homem ser um Deus fracassado, pois projeta-se na realização de uma síntese impossível. Desta forma, a recusa de Deus, ainda que pouco evidente, está presente em todo seu pensamento.
É importante novamente ressaltar que o homem só descobre o peso de sua liberdade quando, de fato, elimina Deus de seus horizontes. Apesar de o homem, psicologicamente, representar o desejo de realizar-se enquanto Deus, ou seja, consciência e plenitude, acreditar na existência de Deus não deixa de ser um exercício de liberdade, de escolha da própria ação do homem.
Partindo do pressuposto de que o homem contemporâneo vive mais em função da ciência e da técnica do que propriamente da religião, Sartre também vê no significado da crença em Deus um certo anacronismo, a sobrevivência de uma noção já ultrapassada:
"Penso que houve um tempo em que era normal crer em Deus, no século XVII, por exemplo. Atualmente, considerando a maneira pela qual vivemos, o modo pelo qual tomamos consciência e pelo qual percebemos que Deus nos escapa, não há intuição do divino. Penso que neste momento a noção de Deus é uma noção anacrônica já, e sempre senti algo de caduco, de ultrapassado nas pessoas que me falaram de Deus acreditando nisso. (Beauvoir, op. cit., p. 601)
Ao afirmar em As Palavras que "o ateísmo é uma empresa cruel e de longo fôlego" (p. 181), Sartre se reporta à questão de ter abandonado o ateísmo idealista em função do ateísmo materialista. E esta passagem, ao contrário do que se pode pensar, é um exercício difícil, pois o ateísmo idealista é simplesmente a negação de uma idéia, a recusa da idéia de Deus em substituição à um nada espiritual, enquanto o ateísmo materialista é uma nova concepção de um ser, isto é, a visão do universo sem Deus (Beauvoir, op. cit., pp. 591, 594, 595, 598). E já que acreditar em Deus representa uma escolha, seria conveniente escolhê-lo para imputar a Ele a obra da síntese do mundo, onde todas as ações e sofrimentos humanos seriam "uma provação tolerada ou desejada pelo Ser supremo" (idem, p. 602). De maneira semelhante, Sartre vê no fato de ser ateu um certo enriquecimento moral e psicológico para o homem, mas isso é algo que está a caminho e ainda vai levar tempo para se concretizar. Antes, é preciso esquecer o princípio do Bem e do Mal, que é Deus, e "reconstruir um mundo liberado de todas as noções divinas que se apresentam como uma dimensão do em-si" (ibidem, p. 604), pois mesmo aqueles que não crêem em Deus possuem ainda certos valores, noções "divinas" que são difíceis de eliminar e fazem com que o ateísmo não alcance seu real objetivo. Sartre encontrou na descrença a afirmação de sua própria liberdade, que fez com que ele mesmo determinasse suas ações e tivesse uma relação direta com os homens, sem a necessidade de passar pelo infinito. Não crer em Deus é a primeira das desalienações do homem, pois este, ao se desalienar, torna-se medida e futuro da humanidade. O homem só desenvolve uma verdadeira relação consigo mesmo quando elimina Deus de sua vida, pois passa a ter uma relação direta com o mundo, e não efetivamente com algo de Transcendente.
O ateísmo de Sartre lembra a filosofia de Feuerbach, o qual afirma que não é Deus que cria o homem, mas o homem quem cria Deus (Feuerbach (1804-1872), com a polêmica de sua filosofia, buscou em toda sua trajetória demonstrar que a religião era simplesmente um fato humano, criação do homem a partir da consciência que ele tinha de si mesmo. Sua obra mais importante, A Essência do Cristianismo, reflete seu desejo em transformar a teologia e a religião em uma verdadeira antropologia). A fé religiosa representa assim as próprias qualidades e aspirações do homem que, ao se sentir fracassado, aliena-se e constrói uma divindade superior. No esforço de Feuerbach, Sartre pretende desenvolver um pensamento puramente humano, que explique o próprio ser do homem em sua relação concreta com a humanidade.
Sartre não quer matar Deus, pois a morte, em extensão, deixa resquícios da presença de quem morreu na consciência das pessoas. O que Sartre pretende com seu ateísmo é suprimir Deus simplesmente, retirar do mundo todos os obstáculos transcendentes que impedem o exercício do homem em ser livre, fundamentar na vida humana uma real antropologia, onde a Transcendência e a teologia se transformariam em descoberta do humano. Suprimir Deus é situar o homem como pura subjetividade, liberdade, responsabilidade.
Visto isso, pode-se afirmar que o existencialismo não quer mergulhar o homem no desespero, pois o desespero é superado quando aceita-se a angústia de viver a liberdade e a gratuidade da vida. O problema existencial não é tão ligado, nesse sentido, na questão da existência de Deus. O que Sartre quer dizer é que, mesmo que Deus realmente exista, nada vai mudar na vida do homem, pois nada pode salvá-lo de si mesmo. "Nesse sentido, o existencialismo é um otimismo, uma doutrina da ação, e só por má fé é que os cristãos, confundindo o seu desespero com o nosso, podem chamar-nos de desesperados" (O Existencialismo é um Humanismo, p. 22).
Rogério A. Bettoni

Bibliografia


· Abbagnano, Nicola. A Sabedoria da Filosofia. Petrópolis, RJ: Vozes, 1989.
· Beauvoir, Simone de. A Cerimônia do Adeus. Trad. Rita Braga. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.
· Bornheim, Gerd A. Sartre: Metafísica e Existencialismo. São Paulo: Perspectiva, 1984.
· Gagnebin, Laurent. "La Foi", in Connaître Sartre. Paris: Resma, 1972.
· Jeanson, Francis. Sartre. Trad.: Elisa Sales. Rio de Janeiro: José Olympio, 1987.
· Nogare, Pedro Dalle. Humanismos e Anti-Humanismos. Petrópolis, RJ: Vozes, 1988.
· Sartre, Jean-Paul. A Náusea. Trad. Rita Braga. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.
· ——. As Moscas. Trad. Nuno Valadares. Lisboa: Editorial Presença, 1986.
· ——. As Palavras. Trad. J. Guinsburg. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
· ——. Diário de uma Guerra Estranha: Novembro de 1939, Março de 1940. Trad. Aulyde Soares Rodrigues. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983.
· ——. O Diabo e o Bom Deus. Trad. Maria Jacintha. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1965.
· ——. O Existencialismo é um Humanismo. Trad.: Rita Correia Guedes. São Paulo: Nova Cultural, 1987. (Os Pensadores).
· ——. O Ser e o Nada: Ensaio de Ontologia Fenomenológica. Trad. Paulo Perdigão. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.
· ——. Sursis: Os Caminhos da Liberdade, 2. Trad. Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983.

Comunicação apresentada na V Semana de Filosofia, FUNREI, 1999. Publicado integralmente na Revista Anais de Filosofia (SJDR), e parcialmente na revista Idéias Bizarras (BH).




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