Mostrar mensagens com a etiqueta Perder um filho. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Perder um filho. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Perder um filho




Perder um filho

Vinte anos, quase vinte e um


Termino dedicando esta simples crónica a quem sente que sofre mais do que consegue suportar e, em especial, aos queridos pais de um querido filho que morreu com vinte anos, quase a fazer vinte e um.
Escrevo a partir de uma sucessão de momentos que vivi nestes últimos dias e de imagens que jamais conseguirei apagar da memória. Uma mãe e um pai unidos, muito abraçados, destroçados pela morte do seu filho. Amorosamente inclinados um sobre o outro, os dois debruçados sobre o corpo do seu menino de vinte anos, quase vinte e um. Ajoelhados ao seu lado ainda como que a precisarem de conversar com ele antes de o deixarem ir. Muitas vezes comunicaram assim com ele, em casa, sem palavras, mas isso era quando a vida parecia a todos cheia e eterna. Quando havia tempo para tanta coisa que pensavam fazer juntos. Agora tiveram que se despedir dele sem colo nem gestos, apenas lágrimas. Abraçados um ao outro, num tempo dolorosamente demorado, partilhado com a família e os amigos.
Dizem que a morte de um filho é a única dor que o tempo não cura nem apaga, mas também dizem que morre cedo quem os deuses amam. Nunca saberemos os ‘porquês’, porque não nos pertence saber tudo sobre a vida e a morte, só temos a certeza de que nenhuma vida se mede pelos anos vividos, por mais breve que seja. Há velhos, muito velhos, que se apagam sem terem conseguido deixar uma verdadeira marca no mundo, assim como há novos muito novos que morrem e o mundo fica cheio, inundado da sua vida. Também por isso nunca saberemos ao certo como contar os anos, para compreendermos se foram muitos ou poucos. Para quem fica, a ausência dos que partem parece insuportável e a vida aparentemente perde o sentido, mas o testemunho de outros pais que perderam os seus filhos interpela por essa mesma capacidade que revelam de permanecer de pé, honrando a memória dos seus filhos, tentando ser em cada dia como eles gostariam que continuassem a ser.
Nietzsche dizia que quem tem uma razão para viver, suporta quase tudo, e para muitos pais em luto a razão para viver passa a ser a existência de outros filhos. Ao mesmo tempo, passa por manter intacta e viva a memória do filho que perderam. Por amor a quem, mesmo sem querer, lhes provoca a maior dor, são capazes de voltar a casa, de olhar para a realidade de um quarto vazio, de tocar as suas roupas e os objectos que lhe pertenceram. Tudo feito num tempo em bolha, desfasado do tempo mundano, em que precisam de toda a coragem que humana e legitimamente se espera nos dias verdadeiramente difíceis. Ter uma razão para viver permite suportar os ‘como’ da existência. A força interior do ser humano pode elevá-lo acima das suas circunstâncias, mas é necessária muita bravura e muitos apoios. Todos os que têm à sua volta nunca serão demais para devolver o sentido e as forças.
Quando a fortaleza interior de uma mãe e um pai se desmoronam e tudo por dentro fica em ruínas, como fazer para os ajudar a recuperar, para que se mantenham vivos para a família que os espera em casa, bem como para os amigos e os outros? Como contribuir para que consigam voltar a encarar o mundo, a ser funcionais, a retomar as rotinas e até o trabalho?
Viktor E. Frankl, que sobreviveu a quatro campos de concentração, perdeu a mulher e o filho, para além de quase todos os familiares e amigos, escreveu um dos livros mais lidos de sempre. “O Homem em Busca de um Sentido” fala dessa espécie de ‘existência nua’ dos que foram despidos e despojados de tudo o que lhes pertenceu. O autor fala da realidade-real dos campos de concentração nazis, mas a sua narrativa também serve de metáfora a quem se sente abandonado, atordoado, agredido e desamparado pela morte súbita de um filho. Pela perda inesperada de alguém muito querido para quem não houve tempo de despedidas.
A dor física nunca é a que mais dói. Frankl experimentou a dor física, a dor emocional e a dor mental e, por isso, sabe que a agonia mental é a mais dilacerante de todas. A agonia mental provocada pela injustiça de um acontecimento dramático ou a perda de alguém muito querido e muito novo, mais o absurdo de tudo. O absurdo e o sem-sentido cavam muito fundo todas as dores que sentimos. Daí a necessidade tantas vezes sentida por crentes e não crentes no aprofundamento da vida espiritual. Para além de todas as crenças ou qualquer religião, a vida espiritual pode ser um caminho reparador, resgatador depois de todas as perdas.
Cito Frankl, pensando nestes e noutros pais que perderam o seu filho de forma brutal e súbita, mas também nos filhos que perderam os seus pais e em todos os que sofreram perdas irreparáveis, para que possam guardar as palavras sábias de alguém que soube por experiência própria que o amor vai muito para além da pessoa física do ser amado. Para que estas palavras façam eco e dêm esperança a quem sente que ficou sem chão e perdeu o sentido da sua vida. Para que através da intensificação da sua vida interior possam encontrar cada vez mais refúgios que os protejam do vazio e de todos os absurdos que lhes estão associados .
“Numa situação de completa desolação, quando um ser humano não pode exprimir-se em acções positivas, quando o seu único triunfo consiste em resistir aos sofrimentos da melhor maneira — de uma maneira honrada –, numa tal situação o homem pode alcançar a plenitude por meio da contemplação amorosa da imagems que recorda do ser amado”.
Resistir ao desânimo e sobreviver à maior de todas as dores pode passar pela certeza de que o amor vai muito para além da existência física da pessoa que amamos. Sto Agostinho interrogava-se: “como podem dizer que morreu quem permanece tão vivo no meu coração?” E assim termino dedicando esta simples crónica a quem sente que sofre mais do que consegue suportar e, em especial, aos queridos pais de um querido filho que morreu com vinte anos, quase a fazer vinte e um.

30/1/2017, 20:532
in observador



                                                Lola

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Perder um filho



Getty Images

Perder um filho



Perder um filho. Não é ser órfão nem viúvo. O que é então? "É perder o futuro"



Um vazio absoluto. A falta de ar. O desespero, a raiva e a descrença. As palavras mais fortes não são capazes de definir a dor, na opinião de especialistas ouvidos pelo i

Perder os pais custa muito, mas a maioria encara essa fatalidade como um percurso natural da vida. Mas o que dizer dos pais que perdem os filhos? "É o mais duro golpe no paradigma em que aprendemos a acreditar, é uma experiencia que contraria o ciclo normal da vida", conta Ana Granja que, em seis meses, viu desaparecer-lhe a filha, devido a uma anorexia que a deixou vulnerável a uma pneumonia. Perder um filho é, por isso, um luto imprevisível e sem qualquer comparação: "Quando se perde um filho, perde-se o futuro."
As palavras, por mais fortes que sejam, são incapazes de mostrar até onde vai a dor. Nem sequer os especialistas conseguem diagnosticar com frieza os sintomas da perda. Assistir à morte de um filho é "completamente contranatura, é uma inversão do que supomos ser a lógica da vida", começa por explicar a psicóloga Joana Marafuz.
E é por isso que este sofrimento é o que mais destabiliza o ser humano. Os processos de substituição da presença pela memória e de recolocação no mundo ficam muito mais lentos e dolorosos, porque os pais não conseguem lidar com seus sentimentos: "Existe uma quebra das expectativas, uma perda da esperança e do sonho" em que os pais passam pelo "choque, pela raiva, pela solidão, pelo sentimento de injustiça e pelo desânimo em relação à vida."
Em boa parte das vezes, as manifestações desta perda são também físicas, podendo existir associadas, entre outros sintomas, a um grande cansaço, dificuldade em dormir, cefaleias, náuseas e vómitos. Mas, paradoxalmente, estas são as ferramentas para o trabalho de luto, conta a psicóloga: "Quanto mais próxima a relação com o filho, maior o impacto da perda no quotidiano e, quanto mais repentina, inesperada e catastrófica for a causa de morte, maior a dificuldade de aceitação deste acontecimento", diz Joana Marafuz.
Apesar de diversos autores ressalvarem que não há um luto igual, José Eduardo Rebelo, especialista e fundador da Associação do Apoio à Pessoa em Luto (Apelo), consegue definir quatro fases deste processo: o choque, que se traduz na negação da realidade; a descrença, um período em que não se está preparado para aceitar a perda e se procura a pessoa nos objectos, nas conversas com os outros, na tentativa de querer transformar as memórias em realidade. Estas são as duas primeiras etapas até se dar o reconhecimento da perda, com raiva, culpa, explosões de tristeza e, por vezes, a depressão. Por fim surge a aceitação, a redefinição do "eu".
Este é o processo de luto normal, mas a perda de um filho não é normal, alerta o fundador da Apelo, que há 21 anos perdeu a mulher e as filhas num acidente: "Não há uma palavra que designe o estado de um pai em luto - não é órfão, não é viúvo. O que é então? A palavra não existe porque a sociedade não está preparada para este tipo de perda, defende José Eduardo Rebelo que, em 2013, publicou o livro "Defilhar: como viver a perda de um filho". Se há quem espere que o tempo cure a dor, o especialista diz não haver treino para este luto: "Para os pais, um filho é sempre um filho único, mesmo numa família numerosa."




Mas será que o casal vive o luto da mesma forma? Joana Marafuz explica que pais e mães têm diferentes reacções emocionais face à perda e, "muitas vezes, é expectável que o companheiro tenha a força necessária para apoiar a mulher e os restantes filhos". O fundador da Apelo acrescenta ainda que vários estudos mostram que muitos dos casais que passam por este tipo de situações acabam por divorciar-se, embora "noutras situações, que parecem ser estatisticamente mais raras, exista uma reaproximação do casal".
Outra das questões que se coloca é se estes pais conseguem superar a perda sem recorrer a um apoio especializado. "Há quem consiga enfrentar o luto; no entanto, nunca iremos saber a que custo", explica Joana Marafuz. Também há os que procuram ajuda especializada, e são-lhes fornecidas estratégias para, do melhor modo possível, dentro do inerente sofrimento, superarem a intensidade da dor e a realidade da perda", explica a psicóloga. Já o autor de "Defilhar" acrescenta dois tipos de ajuda: os conselheiros e os terapeutas de luto, destinando-se os primeiros ao apoio de luto convencional, enquanto os segundos são indicados para o luto com características de índole psicopatológica.
Ana Granja, que perdeu a filha e escreveu posteriormente "Sem Ti, Inês", recorda que encontrou "muito consolo" na poesia e nos "esforços" para conviver com a dor. "Para lidar com alguém em profundo sofrimento, há que olhá-lo nos olhos, aprender a não fingir que não se passou nada, a não sentir constrangimento perante as lágrimas do outro. É preciso aprender a suportar o silêncio porque, às vezes, não há nada para dizer", aconselha a mãe de Inês, justificando que o "luto depende, obviamente, da rede social disponível", onde o apoio da família e dos amigos é essencial para a reconstrução do universo afectivo. "Infelizmente, numa sociedade que tem muita dificuldade em enfrentar a morte e o luto, nem sempre os amigos e a família conseguem dar-nos o apoio de que precisamos", conclui.
O processo de luto, diz José Eduardo Rebelo, termina com a superação por duas vias: aceitação ou conformação. "A aceitação é quando as vivências são transformadas em suaves e doces memórias, o passado não perturba o presente. Já na conformação, mantemos as vivências do passado e não se transformam em doces memórias." Na maioria dos casos "é invariavelmente por conformação", porque "não se aceita a perda de um filho, o defilhar, supera-se apenas", remata.
É necessário reivindicar o direito ao luto, "sem pressas, sem prazos culturalmente impostos por uma sociedade que lida muito mal com a dor e o sofrimento", defende Ana Granja. Porque o luto por um filho "é mesmo para doer". E o sofrimento é "proporcional ao amor", conclui. É um caminho "devastador", mas que não se compadece com fugas ou desvios inúteis, sendo "necessário percorrê-lo, esgotá-lo, senão corremos o risco de não lhe ver o fim".

In ionline.pt
Por Bárbara Marinho
publicado em 19 Fev 2015 - 10:00







E porque eu sei bem como se chama e sente esta que é a dor maior, 
sinto a amargura das palavras que se seguem...




                                                Lola

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...