“Sobre a questão da
retórica é necessário fazer uma distinção: há oradores que falam tendo em vista
o interesse público e outros que tratando os cidadãos como crianças, tentam
agradar-lhes a todo o custo, sem tratar de saber se os tornam melhores ou piores.
A primeira visa a verdade e procura o bem do auditório, a segunda é pressão e
máscara de verdade”.
Górgias, Platão (adaptado)
PERSUASÃO
É o bom uso da retórica. Tenta levar um auditório a aderir a uma tese que se defende. Não se impõe nada, dá-se liberdade ao auditório para reflectir e decidir individualmente. O orador procura ajudar a ultrapassar as limitações da racionalidade do
auditório. Há uma relação de igualdade entre orador e auditório, estes são respeitados por
aquele. Os objectivos da argumentação estão definidos e são claros, há transparência. Há autores que chamam à persuasão "retórica branca" ou persuasão
racional. Fomenta-se o espírito crítico e a autonomia de cada um. O orador vê o auditório como seres iguais a si e aceita a decisão deles. A persuasão é moralmente aceitável porque há um uso racional da palavra e
"o outro" é visto como um outro "eu".
1.Convenhamos
que não é a retórica que manipula, mas sim o manipulador. É que se este se
apodera do discurso e do debate para enganar ou prejudicar o seu interlocutor,
então é porque, certamente, já era um manipulador antes de recorrer à retórica.
A retórica não contamina ninguém. Nenhum homem é um, fora da retórica e outro,
quando recorre a ela”.
Américo de Sousa, A persuasão
MANIPULAÇÃO
É o mau uso da retórica. É fazer com que outros aceitem ou realizem algo contra os seus melhores
interesses. Há uma imposição, tentando evitar a reflexão e a liberdade de decisão do auditório. O manipulador procura usar a seu favor as limitações da racionalidade do
auditório. Há uma relação vertical, desigual, em que o auditório é usado como
instrumento ao serviço do manipulador. Os objectivos são escondidos ou apresentam-se de forma confusa para não
suscitar reflexão, não há transparência. Há autores que chamam à manipulação "retórica negra" ou persuasão
irracional. O manipulador tenta evitar o espírito crítico e procura desviar as atenções do
próprio tema que se devia debater, anulando ao máximo a autonomia do auditório e a sua capacidade de avaliação da situação. Na manipulação há um desprezo claro pela individualidade e liberdade de
decisão do auditório . O manipulador vê o auditório como um conjunto de seres inferiores, que ele usa em proveito
próprio. A manipulação é moralmente inaceitável porque há má fé e desrespeito pelos
outros, os quais são considerados como meios ao serviço de alguém com
objectivos ocultos
A
argumentação é distinta da persuasão. Se podemos dizer que todo o discurso
argumentativo é persuasivo, o contrário não é verdadeiro, pois nem todo o
discurso persuasivo é argumentativo.
A
argumentação para poder ser convincente tem que fazer apelo à razão, ao
julgamento de quem participa ou assiste ao confronto de ideias.
A persuasão está ligada à sedução.
A adesão de alguém a certas ideias é feita através de gestos, palavras ou
imagens que estimulam nela sentimentos ou desejos ocultos, acabando por gerar
falsas crenças. Através da persuasão o orador reforça os seus argumentos
despertando emoções, de modo a criar uma adesão emotiva às suas teses. Na
persuasão ao contrário da argumentação faz-se apelo a processos menos
racionais. Como veremos, os actuais meios de comunicação de massas, veiculam
discursos publicitários que utilizam sofisticadas técnicas de persuasão
dirigidas a públicos-alvo bem determinados.
Chaim Perelman
questiona este critério de distinção. Segundo este autor, o critério de
distinçãonão assenta na dicotomia razão/emoção, mas sim na dimensão do
auditório: os discursos argumentativos dirigem-se a públicos particulares,
capazes de avaliarem as teses em confronto. Os discursos persuasivos dirigem-se
a públicos universais, pouco versados nos tema em discussão e por isso mais
receptivos à sedução.
Persuasão e Manipulação
Persuadir
não é a mesma coisa que manipular. A grande diferença reside na intenção do
orador. No caso da persuasão o objectivo é apenas provocar a adesão, apelando a
factores racionais e emocionais. No caso da manipulação, existe uma intenção
deliberada de desvalorizar os factores racionais, apelando a uma adesão
emocional. O próprio discurso é baseado em falácias, onde é patente a intenção
de confundir o auditório.
As
técnicas de persuasão (manipulação ) ensinadas pelos sofistas, apesar da sua
eficácia, podem ser consideradas muito rudimentares face às aplicadas no século
XX para manipularem milhões de pessoas.
A
persuasão dos sofistas estava muito confinada às capacidades manifestadas pelo
orador. A palavra tinha ainda uma lugar central. As técnicas de persuasão
actuais, ornaram os oradores parte de uma vasta encenação, onde se recorre a
uma enorme variedade de mais para seduzir, persuadir e manipular.
O
ditador Adolfo Hitler, foi o primeiro a integrar a retórica em gigantescos
espectáculos de propaganda, produzindo um poderoso efeito hipnótico sobre os
auditórios.
Os
discursos Hitler eram cuidadosamente ensaiados. Modelações no tom de voz,
gestos dramáticos, olhares acutilantes, e expressões faciais acentuavam os
momentos mais importantes nos seus discursos. Os discursos abordavam de forma
muito emocional quase sempre os mesmos temas: o ódio aos judeus, o desemprego e
o orgulho ferido da Alemanha. Os locais eram decorados de forma a acentuar a
sua presença. As paradas militares, bandeiras e símbolos conferiam à sua figura
e palavras uma dimensão sobrenatural.
4. Novas Formas de Manipulação
As
práticas de manipulação são milenares. Estão intrinsecamente ligadas à vontade
de domínio. Há manipulação sempre que
alguém procura controlar o conhecimento de outro tendem em vista condicionar ou
alterar o seu comportamento. As formas de manipulação ligadas ao poder
político são as mais conhecidas, mas não são as únicas existentes.
Formas Directas de Manipulação
As
formas manipulação mais conhecidas são as realizadas pelos regimes ditatoriais.
Podemos neste caso identificar facilmente quem as faz, com que objectivos e os
meios que utiliza. Trata-se de um manipulação com rosto, que coloca desde logo
os cidadãos de sobreaviso em relação àqueles que as planeiam e executam. A
censura, a propaganda e a violência repressiva sobre os "desviantes" são
os seus meios privilegiados .
Censura:
a informação é manipulada não apenas tendo em vista omitir factos relevantes,
mas também deformar o conteúdo da informação veiculada de modo a que a mesma se
ajuste às ideias dos censores. Em Portugal a censura foi um dos instrumentos
mais utilizados pela ditadura (1926-1974) para a manipulação da opinião
pública: a informação que era autorizada era previamente mutilada. A restante
era simplesmente proibida.
Propaganda:
a informação é forjada de forma provocar a uma adesão imediata a certos
estímulos, explorando para tal as emoções ou os medos das pessoas. Durante a
1ª. Guerra Mundial (1914-1945), as técnicas de propaganda aos serviços dos
Estados tornaram-se enormes máquinas de mobilização de massa, dotadas de
enormes recursos técnicos, que foram depois eficazmente aplicados e
desenvolvidos pelos diferente regimes totalitários.
Em
Portugal, uma das primeiras acções da ditadura (1926-1974) foi a de criar
importantes orgãos de propaganda do regime ( consultar ). O regime de nazi, foi
contudo aquele mais desenvolveu as técnicas de propaganda e as aplicou com
grande êxito. No Congresso de Nuremberg, em 1936, Hitler afirmou: "a propaganda conduziu-nos ao poder, a propaganda permitiu-nos
conservar depois o poder, a propaganda, ainda, dar-nos-à a possibilidade deconquistar o mundo". Uma das suas acções mal
conquistou o poder foi criar um Ministério da Propaganda, dotando-o de enormes
recursos. A propaganda nazi assentava em ideias muitos simples, que podia ser
facilmente apreendidas pelas pessoas. Estas ideias apelavam à emoção,
estimulando reacções de medo, ódio, violência e desejo de vingança.
Formas
Difusas Manipulação
Os
processos de manipulação da informação
são todavia mais amplos, e estão largamente disseminados nas sociedades
democráticas ocidentais, utilizando-se técnicas muito sofisticadas, mas não
menos eficazes, nomeadamente porque os cidadãos estão desprevenidos.
Televisão: Um Perigo para a
Democracia ?
Karl Popper,
no início da década de 90, acusou a televisões de estarem a destruir os regimes
democráticos. Afirmando:
1.
A finalidade das televisões não é a educação ou a melhoria das pessoas, mas
apenas o lucro.
2.
Aquilo que oferecem às pessoas não é o que é melhor para a sua educação, mas
apenas aquilo que as seduz e as mantém presas aos ecrans de televisão, fazendo
desta forma subir as audiências. A receita que utilizam é sempre a mesma: sexo,
violência, sensacionalismo, etc. Uma receita que cansa, por isso mesmo
obriga-as a um reforço continuo das suas doses diárias (mais sexo, mais
violência, mais sensacionalismo…).
3.Com
o aumento do número de canais de televisão, cresceu também o número de pessoas
mediocres ou gente sem escrúpulos ligadas à produção de programas televisivos.
Gente que apesar da sua enorme influência social, trabalha na mais completa
impunidade e sem qualquer controlo democrático.
4.
As pessoas mais vulneráveis a esta influência nefasta da televisão são as que
possuem um nível de formação e maturidade insuficiente para estabelecerem uma
distinção entre a ficção e a realidade.
Exemplos de Manipulação
A -
Os meses que precederam a ocupação do
Iraque, em 19 de Março de 2003, assistiu-se a uma campanha de manipulação
da informação a nível mundial.
As
principais agências de comunicação social divulgavam informações provenientes
das mais diversas fontes e origens todas num único sentido: sustentarem a tese
dos EUA de que a o ditador do Iraque possui armas de destruição maciça .
Em
vários países, como Portugal, muitos jornalistas e especialistas em questões
militares apoiaram activamente esta campanha preparando a opinião pública para
aceitar a inevitabilidade de uma intervenção no Iraque, a fim de acabar com os
arsenais e a produção das alegadas armas de destruição maciça.
Um
ano depois da ocupação, os governos dos EUA e da Grã-Bretanha reconheciam que
estas armas não existiam e que haviam enganado a opinião pública. Acusaram na
altura os seus serviços de espionagem de lhes terem fornecido de informações
forjadas.
Objectivo da
manipulação: o controlo das enormes reservas de petróleo existentes no Iraque.
B
- Logo após o atentado de Madrid de 11
de Março de 2004, o governo espanhol procurou deliberadamente manipular a
comunicação social, veiculando informações no sentido de fazer crer à população
que a ETA era a autora do atentado ( A ETA é uma organização fundada em finais
dos anos 50 do século XX e que luta pela Independência do país Basco
(Euskadia). O próprio primeiro-ministro da altura (José Maria Aznar) pressionou
directamente directores de jornais para veicularem uma informação que sabia ser
falsa.
Objectivo da manipulação:
vencer uma disputa eleitoral.
Quais
as diferentes formas de manipulação? Distinga–as.
Dentro
da manipulação dos afectos, identifique, explicando, os principais
tópicos.
Dentro
da manipulação cognitiva, identifique os principais tópicos explicando o
seu significado.
“A
persuasão e a manipulação são conceitos bem distintos.” Comente a
afirmação.
Quais
os perigos da manipulação? Distinga-os.
Identifique
as diferenças entre retórica branca e retórica negra.
Qual
o significado de “competência retórico-argumentativa”?
Porque
razão é necessário estabelecer regras para limitar a persuasão?
A
manipulação é própria só da Grécia? Dê exemplos de manipulação
contemporânea.
Todo o discurso
argumentativo é persuasivo. Isto justifica-se pela análise da intenção do
orador que, num discurso argumentativo tem como principal objectivo provocar a
adesão do auditório às suas teses.
Contudo, para persuadir
não basta argumentar pelo lado racional. É necessário procurar apelar aos
afectos, sentimentos e emoções do auditório; utilizando gestos, argumentos,
tudo o que for preciso para estimular um auditório a agir emocionalmente.
Como
se relaciona a argumentação e a manipulação?
A argumentação
comporta dois aspectos que são a persuasão
e a manipulação. A manipulação
(associada à retórica sofista da Grécia Antiga) consiste em sobrevalorizar
factores emocionais através de discursos falaciosos com a intenção de confundir
o auditório.
Enquanto que na
argumentação há uma livre comunicação entre o emissor (orador) e o receptor
(auditório), permitindo assim uma liberdade de escolha da posição a tomar pelo
auditório face a uma tese do orador (persuasão), na manipulação há uma
imposição da tese do orador e o auditório, é assim, obrigado a aderir à tese
imposta.
Actualmente podemos
distinguir várias formas de manipulação, nomeadamente a manipulação dos afectos –
apela à emoção e sentimentos do receptor – e manipulação cognitivia –
alltera, falsificando o conteúdo do discurso.
Manipulação
Manipulação dos afectos
Manipulação
cognitiva
ØSedução pela pessoa
ØSedução pelo estilo
ØEsteticização da mensagem
ØRecurso ao medo
ØRepetição da mensagem
ØHipnose e sincronização
ØRecurso ao tacto
ØEnquadramento
mentiroso
ØReenquadramento
abusivo
ØEnquadramento
coercivo
ØAmálgama
Com o evoluir da sociedade os
mass-media tomaram um novo estatuto e uma grande importância, pois nestes a
argumentação tende a que mudemos os nossos ideais e o nosso comportamento – o
que geralmente condiciona a nossa liberdade de pensar e agir.
Serão os mass-media
agentes de manipulação?
O
facto é que cada vez mais as técnicas de persuasão são mais dificéis de
distinguir da manipulação. Por isso é importante considerar legítimas todas as
técnicas de persuasão não abusivas, ou seja, que o auditório tenha a liberdade de optar pela posição que
quer tomar face a uma determinada tese. À situação contrária consideraria-se
manipulação.
Será a manipulação
uma ameaça para a sociedade?
Na realidade a nossa
sociedade, sendo democrática, permite a liberdade de expressão e de pensamento,
de maneira a que a manipulação, condicionante destes factores, põe em risco o
conceito de democracia e condiciona a autonomia e a própria
identidade/personalidade de um indivíduo. Podemos assim afirmar que sim, a
manipulação representa uma grande perigo para a nossa sociedade na medida em
que impõe ideias e falsifica conteúdos.
Alguns autores
distinguiram retórica branca e retórica negra.
Qual
a diferença?
A retórica
negra consiste num uso ilegítimo do discurso argumentativo, pois este
pretende enganar, iludir e manipular o auditório. Assim, a retórica negra
difere da retórica branca uma vez que esta é uma crítica lúcida e
consciente dos vários problemas que envolvem a comunicação, e por isso descobre
e evidencia os procedimentos da retórica negra. É na retórica branca que encontramos formas de combater a manipulação.
Como
prevenir ou combater a manipulação?
Contudo a capacidade retórico-argumentativapermite uma prevenção da manipulação. O
saber argumentar é uma arma essencial para desmascarar a manipulação.
Uma boa forma de
lutar contra algo, nomeadamente a manipulação, é conhecer as várias formas que
ela assume. É necessária uma reflexão crítica sobre a questão do uso da manipulação.
Sendo, por isso, fundamental impor limites e regras na própria persuasão. Apesar
de «impor»e«regras»serem dois conceitos
que aparentam inibir a liberdade, é necessário haver a imposição de regras para
a liberdade de pensamento e expressão.
Persuasão e manipulação ou os dois
usos da retórica
Persuadir, do latim persuadere, significa levar
alguém a optar por uma determinada
posição.
Todo o discurso
argumentativo é persuasivo. A sua intenção é convencer um
auditório a aderir a uma determinada tese apoiada por um orador.
Ao falarmos de argumentação temos que
aceitar a existência de persuasão, visto que é essencial para atingir o seu
objectivo. São, por isso, conceitos imediatos/contíguos.
A persuasão tem adquirido uma conotação
negativa com o desenvolvimento de técnicas persuasivas dos meios de
comunicação, aproximando-se ao conceito de manipulação. É
também associado à retórica sofística (da Grécia antiga).
Entende-se por manipulação, a restrição
à liberdade de pensamento e de opção assim como a uma imposição para
aceitar qualquer conteúdo sem que passe por um “filtro” pessoal.
A manipulação não permite um discurso
livre entre emissor e receptor, acaba por se tornar um discurso
unidireccional sem benefícios para o conhecimento da verdade.
Já a persuasão, não pretende forçar a
aceitação, mas através da argumentação, corrobora com uma determinada
tese que é a mais aceitável.
P
·
Existem diferentes formas de manipular o
auditório.
Estas estratégias manipulativas podem resumir-se em dois tópicos:cognitivoeafectivo.
A manipulação cognitiva baseia o
discurso numa argumentação puramente falaciosa, distorcendo factos de uma forma
bastante subtil.
A manipulação afectiva apela
essencialmente aoPathos,ou seja, impressiona o público
pelos sentimentos e pelas emoções.
Existe uma linha muito ténue a separar
a manipulação e a persuasão, o que torna difícil a sua distinção na prática.
Aidentidadee aautonomiaprópria do ser humano ficam
comprometidas com o uso frequente de um discurso manipulador já que este impede
o exercício crítico do que se lê e do que se ouve, baseando-se apenas em ideias
já feitas.
Ademocraciaé desrespeitada já que os indivíduos
não expressam as suas próprias opiniões.
Devemos, assim, considerar a distinção
que alguns autores fazem entreretórica
brancaeretórica negra.
A retórica negra corresponde a um uso ilegítimo do discurso, porque visa enganar, iludir, manipular
o interlocutor, sendo, portanto, equivalente à manipulação; a retórica brancaprocura
pôr a descoberto os procedimentos da segunda, e, por isso, evidencia-se como
crítica, lúcida e consciente, das diferentes formas e dos vários problemas que
envolvem a comunicação, sendo, portanto, equivalente à persuasão, e por isso
ela inclui o estudo da retórica e do seu uso.
Assim, é através deuma retórica branca, ou seja, é
no interior da própria retórica que podemos encontrar as armas para lutar contra
a manipulação.
A questão do mau uso ou abuso da
retórica exige uma reflexão critica sobre os efeitos que ela produz e
remete-nos para odomínio da
ética. Por outras palavras, impõe-se como necessário o estabelecimento delimitesà própriapersuasão, ou se quisermos
dizer de uma outra maneira,torna-se
urgente a imposição de regras que impeçam a manipulação
Acompetência
retórico-argumentativaconsiste,
sobretudo, em saber argumentar e desmascarar a manipulação e urge delinear
limites à persuasão necessários para que a manipulação não limite a liberdade
do ser humano e não interfira nas questões éticas.
Porque se
deixa o homem manipular e porque manipula são questões éticas que intrigam
desde os tempos antigos até à actualidade.
Quais
as diferentes formas de manipulação? Distinga–as.
Dentro
da manipulação dos afectos, identifique, explicando, os principais
tópicos.
Dentro
da manipulação cognitiva, identifique os principais tópicos explicando o
seu significado.
“A
persuasão e a manipulação são conceitos bem distintos.” Comente a
afirmação.
Quais
os perigos da manipulação? Distinga-os.
Identifique
as diferenças entre retórica branca e retórica negra.
Qual
o significado de “competência retórico-argumentativa”?
Porque
razão é necessário estabelecer regras para limitar a persuasão?
A
manipulação é própria só da Grécia?
Dê exemplos de manipulação
contemporânea.
O que é a retórica?
·A
retórica é conhecida como a arte de bem falar, de ser eloquente diante de um
público para ganhar a sua causa.
·Na
Grécia Antiga a retórica era o discurso do Poder ou dos que aspiravam
exercê-lo.
Os dois usos da retorica:
Existem dois modos
de utilizar a retórica: a persuasão
e a manipulação:
Persuasão:
·É
o bom uso da retórica;
·Persuadir
é levar alguém a aceitar ou optar por uma determinada posição;
·Nada
é imposto ao ouvinte que é livre de refletir e decidir se quer ou não tomar uma
determinada posição;
·Há
uma relação de respeito mútuo entre orador e ouvinte;
·O
orador vê os ouvintes como seres iguais a si e aceita a posição deles.
Manipulação:
·É
o mau uso da retórica;
·Segundo
Philippe Breton consiste "em paralisar o juízo e em tudo fazer para que o
recetor abra ele próprio a sua porta mental a um conteúdo que de outro modo não
aprovaria;
·Tem
como objectivo uma prática abusiva do discurso, na medida em que , obriga o
recetor a aderir a uma mensagem que o emissor pretende impôr;
·Manipular
é tratar uma pessoa ou grupo de pessoas como se fossem objetos, a fim de
dominá-los facilmente;
·O
manipulador procura usar a seu favor as limitações da racionalidade do
auditório;
·O
manipulador vê os ouvintes como seres inferiores, que ele usa em proveito
próprio;
·Há
um desprezo claro pela individualidade e liberdade de decisão dos ouvintes.
Argumentação e persuasão são conceitos parecidos
·A
persuasão por vezes adquire um sentido negativo, próximo do conceito da
manipulação com o uso das técnicas de persuasão do jornalismo, da publicidade e
das propagandas.
Porém, manipulação
e persuasão são conceitos diferentes!
·Persuadir
não é o mesmo que manipular. A grande diferença encontra-se na intenção do
orador:
vNa persuasão o objetivo é apenas provocar a adesão,
apelando a fatores racionais e emocionais;
vNa manipulação, existe uma intenção de desvalorizar a
racionalidade, apelando a uma adesão emocional. O próprio discurso é baseado em
falácias, onde é patente a intenção de confundir o auditório;
vAo contrário da manipulação, que obriga o auditório a
adotar uma determinada posição, privando-o da sua liberdade, a persuasão tem
como base o respeito pelo outro;
vPersuadir, ao contrário de manipular, é convencer e não
obrigar;
vPersuadir é tomar uma determinada posição e defendê-la
com argumentos, mas nunca obrigar o outro a tomar uma posição por obrigação e
que nunca de outro modo a aprovaria.
As diferentes
formas de manipulação
·Manipulação dos afetos: centrada no apelo à emoção e aos sentimentos do recetor;
·Manipulação cognitiva: opera por falsificação do conteúdo do discurso.
Diferentes tipos de manipulação dos afetos
·Sedução demagógica: o discurso demagógico típico altera a sua mensagem
consoante o público que tem pela frente, recorrendo a comportamentos e atitudes
falsas que possam impressionar o público.
Exemplo: -Eu gosto de cor de
rosa.
-Eu também!
-Pensando
bem, prefiro amarelo!
-Olha que agora que estás a dizer isso, eu também prefiro
amarelo.
-Não sei como existem pessoas que gostam de
amarelo.
-Eu também não entendo isso. Qual é a tua cor preferida?
-
Adoro azul.
-Eu
também!
·Sedução pelo estilo: Neste caso, a manipulação começa quando o bem falar
substitui o argumento em si.
Através do recurso às figuras de
estilo é distorcido o conteúdo do discurso e tenta-se impressionar pela forma.
Por vezes a clareza anda a par com a
brevidade da mensagem, a qual convence pela sua simplicidade e pela ausência de
esforço em aceitá-la.
·Esteticização da mensagem: Recurso à arte por
forma a seduzir.
Na publicidade, por exemplo, é
frequente o recurso a figuras públicas, artistas de cinema, de televisão ...
·Recurso ao medo: Recorre-se ao medo, por vezes, disfarçado sob a forma de
autoridade, para fazer aceitar a todo custo uma opinião ou provocar um
comportamento, sem discussão.
A manipulação das crianças é um bom
exemplo.
·Repetição da mensagem: "Esta técnica cria a impressão de que o que foi dito
e repetido, já foi argumentado em algum momento anterior"
São repetidas palavras, idéias, sons ou
imagens de forma a que as pessoas se conformem, de certa forma, com a idéia que
inicialmente parecia inaceitável.
·Hipnose e sincronização: É uma técnica metódica cujo objetivo é manipular e fazer
mudar comportamentos, através da forma como a mensagem é transmitida e não
tanto pelo seu conteúdo. Primeiramente é essencial contruir uma relação com o
auditório através da sincronização de gestos, do ritmo respiratório, tom e
ritmo de voz para, de seguida, se atingir o vocabulário, idéias e conceitos. Em
determinado momento a pessoa está praticamente hipnotizada e torna-se incapaz
de resistir à entrada da mensagem no seu espírito. Esta empatia criada leva À
manipulação, desde que a pessoa manipulada não se aperceba das técnicas usadas.
·Recurso ao tato: O contacto físico pode ser utilizado com a finalidade de
aumentar a adesão à mensagem.
Há estados que comprovam que quando um
vendedor toca o possível comprador, este tem mais probabilidade de efectuar a
compra.
Diferentes
tipos de manipulação cognitiva
·Enquadramento
mentiroso: Mente-se acerca dos
factos ou então omite-se, isto é, não se diz tudo em relação aos mesmos.
·Reenquadramento
abusivo: Os factos são
orientados por forma a deformar a realidade, induzindo à ilusão.
É a transformação de uma opinião
em informação.
Exemplo: Certo anúncio publicitário diz-nos "Certa lixívia
lava mais branco", mas mais branco do que o quê?
·Enquadramento
coercivo: Alguns factos são
omitidos e cria-se uma situação de aceitação de uma primeira mensagem que tem
como objetivo impôr ao recetor a real mensagem em relação à qual se pretende a
adesão.
Um exemplo deste tipo de manipulação é o
que algumas empresas fazem ao recorrer à promoção dos seus produtos através da
atribuição de prémios a potênciais clientes. Primeiro telefonam,
comunicando-lhes a sua sorte e de seguida indicando-lhes que se devem dirigir à
sua loja para levantar o prémio. Só na loja é que apresentam as contrapartidas
do negócio. Isto é muito usual acontecer com "ofertas"
de viagens.
·Amálgama:
Na amálgama a mensagem é misturada com
elementos exteriores ao produto, de forma a que pareça que há uma certa lógica
nessa mistura.
Este tipo de estratégia é muito usual
nas campanhas natalícias em que se apresentam nos anúncios árvores de Natal,
prendas (...), sendo que na maior parte das vezes esses elementos nada tem a
ver com o produto em questão.
A manipulação - Uma arma
poderosa
Hitler afirmava:
"a propaganda conduziu-nos ao poder, a propaganda permitiu-nos conservar
depois o poder, a propaganda, ainda, darnos-à a possibilidade de conquistar o
mundo".
A manipulação
associada às propagandas políticas, às ideologias e à publicidade é um perigo
real, na medida em que, é capaz de mudar mentalidades.
Este perigo
manifesta-se em dois sentidos:
·põe
em causa os príncipios da democracia na medida em que impõe a palavra, tentando
evitar a reflexão e a liberdade de decisão do auditório;
·põe
em causa a autonomia e a identidade das pessoas ao negar a liberdade do
pensamento e a sua expressão.
A
retórica branca e a retórica negra
·Retórica negra: - Diz respeito ao mau uso da retórica;
-Tem como objetivo enganar, iludir
e manipular o interlocutor;
-É o uso da manipulação.
·Retórica branca: -Diz respeito ao bom uso da retórica, isto é, quando o
público pode expressar e criticar o que foi dito;
-É o uso ético da retórica ou persuasão;
-Procura desmascarar os procedimentos da
retórica negra, apresentando por isso uma crítica à mesma.
Como lutar contra a manipulação?
É atavés da retórica branca que podemos lutar contra a
manipulação.
Para isso é necessário desenvolver o espírito crítico,
que implica:
·Analisar
a consciência dos argumentos e questionar as crenças que se aceitam sem
fundamento;
·Atitude de observação atenta;
·Domínio
de competências retórico-argumentativas.
Mas
o que significa dominar competências retórico-argumentativas?
A - saber argumentar e ao mesmo tempo pôr a descoberto os procedimentos da
manipulação. Num primeiro momento é necessário conhecer a manipulação a fundo e
as suas diversas formas.
B - Num segundo momento é necessária uma reflexão sobre os
efeitos que o abuso da retórica produzem.
É necessário impôr
regras e limites à persuasão que impeça a manipulação.
Esta imposição de
regras é fundamental para o exercício da liberdade.