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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Paixão, Amor e Ódio



Paixão, Amor e Ódio

AMOR E ÓDIO: AS PAIXÕES PRIMÁRIAS


Nas edições anteriores da Arraso iniciamos o catálogo das paixões com o afeto mais exaltado na hierarquia das emoções: o amor. Ocorre que o amor nunca vem sozinho – aliás, como a maioria dos afetos. As paixões sempre formam um par antagônico e antinômico sem o qual não haveria conflito. As contradições entre estados afetivos constituem o elemento primário das paixões.

Na cultura grega clássica a palavra páthos designava um estado de transbordamento de emoções e sentimentos incontroláveis. Nas narrativas míticas e no discurso filosófico desde a antiguidade, pathós era uma forma de nomear o conflito entre estados afetivos que causam perturbação, transtorno e obscuridade, afetando o juízo crítico e consciente. Os conflitos entre estados afetivos contraditórios causam os maiores transtornos. O caso exemplar é a oposição entre amor e ódio.
O ódio também é um estado afetivo, uma paixão. Embora seja relegado à condição de mal-dito e condenado ao silenciamento pelo recalque moral das idealizações, é preciso bem dizer o ódio, reconhecê-lo, chamá-lo pelo nome e, sobretudo, aprender a conviver com sua inefável e inexorável presença.
O psicanalista Jacques Lacan cunhou o neologismo “amódio” como síntese dialética entre amor e ódio. Somos todos seres amódicos: amamos e odiamos com igual intensidade, muitas vezes o mesmo objeto. Amar e odiar são paixões enlaçadas para todo o sempre. Por mais esforço civilizatório para silenciar e reprimir o ódio, todo este projeto está condenado ao fracasso. O retorno do recalcado se faz presente com mais força e intensidade. O ódio marca sua presença no macro e no microcosmo social. As noticias veiculadas diariamente pelas mais diferentes mídias demonstram com precisão a inexorável presença do ódio. Nos tempos atuais, ele habita o universo virtual das redes de comunicação social. Exemplos estão disponíveis por todos os lados.
Na condição de indizível, o ódio faz mais barulho e perturba o ideal de paz e harmonia que só o amor poderia proporcionar. Não sem motivo que o ódio é personificado na figura do diabo, demônio maligno que confunde e subtrai a razão. Como indesejável, o ódio se faz presente na forma de raiva, cólera, agressividade e, não raro, com muita crueldade. A associação entre amor e paz de um lado e ódio e guerra do outro também demonstra o caráter belicoso em jogo nas paixões.
O ódio é uma paixão que precisa entrar em nosso catálogo pelas razões que se seguem em três expoentes na história da cultura moderna: Thomas Hobbes, René Descartes e Sigmund Freud. Eles definiram nosso modo de ser e sentir, nossa constituição subjetiva. Vou apresentá-los na seqüência conforme a proposta inicial desta série.
Na gênese do pensamento ocidental moderno encontramos, na escrita de Thomas Hobbes de Malmesbury, a clássica distinção entre amor e ódio. No livro Leviatã, publicado em 1651, o filósofo inglês demonstra “a origem interna dos movimentos voluntários vulgarmente chamados paixões e da linguagem que os exprime”. A natureza humana é definida pela capacidade de desejar por aproximação ou aversão na relação com os objetos. Há um conatus (palavra latina, traduzida como esforço) que nos impulsiona em direção à apropriação de algo ou alguém. Tal impulso também conduz ao estado de aversão: quando o esforço é para evitar alguma coisa ou alguém. “Do que os humanos desejam se diz também que o amam, e que odeiam aquelas coisas pelas quais sentem aversão. De modo que o desejo e o amor são a mesma coisa, salvo que por desejo sempre se quer significar a ausência de objeto, e quando se fala em amor geralmente se quer indicar a presença do mesmo. Também por aversão se significa a ausência, e quando se fala de ódio pretende-se indicar a presença do objeto”.
Amar e odiar são estados afetivos que determinam a relação do Eu com os objetos do mundo exterior, sejam eles pessoas ou coisas. Amar é querer, desejar estar junto, ter o objeto próximo de si: incorporar, reunir num só corpo, fusionar. Odiar é o estado afetivo que nos impulsiona à aversão, à fuga do objeto hostil. O ódio é sempre aversivo e não raro tende a destruição do objeto. Aproximação e repulsa são ações determinadas pelo amor e pelo ódio.
René Descartes também se dedicou a construir um tratado das paixões catalogando o número e a ordem delas para demarcar a especificidade da natureza humana. No livro As Paixões da Alma, publicado em 1649, o filósofo francês definiu as seis paixões primárias que fundamentam todas as demais que podemos identificar: admiração, o amor, o ódio, o desejo, a alegria e a tristeza. No artigo 56, designou o amor e o ódio como paixões que estão relacionadas à existência do objeto e permitem estabelecer o juízo de valor bom ou mau. Quando o objeto é bom nós o amamos; quando é mau, nós o odiamos. “Quando uma coisa se nos apresenta como boa em relação a nós, isto é, como nos sendo conveniente, isso nos leva a ter amor por ela; e, quando se nos apresenta como má ou nociva, isso nos incita ao ódio”.
No artigo 79 encontramos as definições do amor e do ódio do ponto de vista psicológico: “o amor é uma emoção da alma causada pelo movimento dos espíritos que a incitam a unir-se voluntariamente aos objetos que lhe parecem convenientes e aprazíveis. E o ódio é uma emoção causada pelos espíritos que incitam a alma a querer estar separada (afastada) dos objetos que lhe apresentam nociva”. Pode-se ensinar a amar e, de igual modo, a odiar. Não são paixões involuntárias, ou seja, que não dependem da vontade. Ao contrário, são paixões que aprendemos a reconhecer e nomear pela relação entre o Eu e o objeto.
Na próxima edição, voltaremos a este aspecto para demonstrar os efeitos do ódio dirigido a si mesmo, ao Eu como objeto. Pois, como nos ensinou Sigmund Freud, o maior sofrimento psíquico é determinado pelo ódio investido contra o próprio Eu e, por extensão, aos outros com os quais convivemos.
fonte:Revista ARRASO / Design & Decor – 
Ano 6, nº 40, 2014 – 
Publicação do Jornal de Piracicaba
 MÁRCIO MARIGUELA






                                                Lola

Paixão, Amor e Ódio




Paixão, Amor e Ódio

ODIAR A SI MESMO É AUTOFLAGELO

A palavra  paixão carrega consigo dupla rede de significação: por um lado, estar apaixonado é sentir um amor ardente, um estado de arrebatamento, contentamento, entusiasmo, bem querer; por outro, é provocar aflição, flagelo, tristeza intensa em alguém ou a si mesmo, mal querer. Amar e odiar são paixões primárias mobilizadoras de afetos e definem a relação pulsional entre o Eu e o objeto.
O problema consiste quando o próprio Eu é o objeto de investimento do ódio. Pode parecer trivial quando no momento de raiva, a sentença “Eu me odeio” é enunciada. Há, no entanto, uma dimensão inconsciente deste ódio a si que se revela na forma de um gozo masoquista: o prazer em sofrer, em imputar-se sofrimento sem causalidade somática, orgânica. Obter prazer na dor é um autoflagelo.
Na edição anterior da Arraso destaquei o argumento do filósofo René Descartes no tratado As Paixões da Alma, publicado em 1649. Definiu seis paixões primárias que fundamentam todas as demais passíveis de catalogação: admiração, o amor, o ódio, o desejo, a alegria e a tristeza. No artigo 56, o amor e o ódio são designados como paixões e estão relacionadas à existência do objeto, permitindo estabelecer o juízo de valor bom e mau e, por extensão, o juízo moral bem e mal. Quando o objeto é bom nós o amamos; quando é mau, nós o odiamos. “Quando uma coisa se nos apresenta como boa em relação a nós, isto é, como nos sendo conveniente e aprazível, isso nos leva a ter amor por ela; e, quando se nos apresenta como má, nociva ou desprezível, isso nos incita ao ódio”.
A relevância de tal argumento está no fato de constituir o alicerce do edifício moral na modernidade. Desde o século 17, nosso modo de pensar e sentir estão determinados pelo racionalismo cartesiano – quer tenhamos consciência disso ou não, toda cultura ocidental moderna se fundamenta no pensamento de Descartes. Seja para afirmá-lo ou negá-lo: a história do pensamento ocidental está atravessada pelas ideias que sua obra filosófica transmitiu.
É no cenário da filosofia moral de Descartes que o médico vienense Sigmund Freud se confrontou, no final do século 19, com o sofrimento psíquico, ao iniciar sua prática clínica de tratamento dos sintomas psiconeuróticos. Desde os primórdios da invenção da psicanálise, Freud reconheceu nas queixas e lamentos de seus pacientes um modo singular de autoflagelo: os sintomas psíquicos são atos inconscientes de ódio a si mesmo. O Eu é investido como objeto de paixões primárias. O ódio a si mesmo é atividade de estado patológico reconhecidamente sádico que produz uma espécie de gozo masoquista. O ódio dirigido ao outro como objeto externo é tão somente a expressão inconsciente de um modo de odiar-se por extensão.
No artigo As pulsões e seus destinos, publicado na Revista Internacional de Psicanálise em 1915, Freud investigou as paixões (amor e ódio) como estados pulsionais (pulsão de vida e pulsão de morte) que determinam o funcionamento do aparelho psíquico do animal falante. As pulsões são o combustível para o funcionamento do aparelho. O pressuposto básico da teoria psicanalítica está na concepção de um aparelho psíquico dotado de virtualidade, ou seja, não é localizável anatomicamente. É, em suma, um aparelho de linguagem capaz de representar estados afetivos para realizar sua finalidade básica: escoar, descarregar, eliminar excitações provenientes de estímulos exógenos (vindos de fora, do mundo exterior) e estímulos endógenos (provenientes do interior do organismo).
O aparelho psíquico, estruturado em três sistemas (Inconsciente, Eu e Supereu), é constituído por três pares de opostos: Eu-objeto; prazer-desprazer; ativo-passivo. Assim, atuam no sujeito humano duas posições que definem a finalidade das pulsões: amar e ser amado. A primeira (amar) corresponde à posição ativa do sujeito no ato de desejar; a segunda (ser amado) corresponde à posição passiva em se fazer objeto do desejo do outro. Freud considerou ainda que a indiferença, o odiar e o ser amado são os opostos de amar. A oposição amor-ódio reproduz a polaridade prazer-desprazer. Amamos o que nos causa prazer e odiamos o que nos causa desprazer.
“Quando o objeto se torna fonte de sensações prazerosas, produz-se uma tendência motora que busca aproximá-lo do Eu, incorporá-lo ao Eu; fala-se então da atração que o objeto dispensador de prazer exerce, e diz-se que ama o objeto. Inversamente, quando o objeto é fonte de sensações desprazerosas, há uma tendência que se esforça para aumentar a distinção entre ele e o Eu. Sentimos a repulsão do objeto e o odiamos; esse ódio pode então se exacerbar em propensão a agredir o objeto, em intenção de aniquilá-lo”. Parece familiar admitir que a pulsão conduza a amar o objeto com o qual poderá se realizar na forma de prazer. No entanto, que a pulsão possa conduzir a odiar um objeto é algo que nos aparece estranho; sobretudo quando esse objeto é o próprio Eu.
Freud solicitou ao leitor que admita uma premissa básica: as designações amor e ódio não se aplicam às relações entre as pulsões e os objetos, mas sim às relações do Eu com os objetos. A palavra amar se avizinha à esfera da pura relação de prazer do Eu com o objeto; e a palavra odiar se refere à esfera da relação de desprazer do Eu com o objeto. “O Eu odeia, abomina, persegue com propósitos destrutivos todos os objetos que lhe tornam fonte de sensações desprazerosas, não importando se para ele significam uma frustração de satisfação sexual ou da satisfação de necessidades de conservação. Pode-se mesmo afirmar que os autênticos modelos da relação de ódio não provêm da vida sexual, mas da luta do Eu por sua conservação e afirmação”.
O desafio, como sempre, é encontrar um equilíbrio: certa moderação entre forças psíquicas ambivalentes. O excesso de amor a si conduz ao narcisismo e o excesso de ódio a si conduz ao masoquismo. Decorre destes fenômenos o problema econômico do narcisismo e do masoquismo ocupar, na atualidade, o centro de investigação, diagnóstico e tratamento na prática clínica da psicanálise.
fonte:Revista ARRASO / Edição de Aniversário – Ano 6, nº 41, 2014 –
 Publicação do Jornal de Piracicaba
ilustração: Erasmo Spadotto






 Lola


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