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quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Desobediência Civil




Desobediência Civil

Catalunha: desobediência ou insurreição?

Levée en Masse
Perante um movimento popular e institucional alargado de recusa e de enfrentamento da ordem legal em vigor (cuja dimensão verdadeiramente ainda não conhecemos), julgo que o conceito que melhor nos ajuda a compreender e a lidar com o fenómeno político catalão é o de desobediência civil. Esta atuação, é verdade, partilha com o ato criminoso o desafio à autoridade e a violação da lei. Mas as duas desobediências – a criminal e a civil - têm também duas diferenças críticas. Na primeira, o criminoso age isoladamente (ou em pequeno grupo) e age sempre em segredo, na clandestinidade. Na segunda, na desobediência civil, a violação da lei é sempre assumida por um largo número de pessoas e é feita às claras, em público e perante todos. Na realidade, ela não existe sem essa exposição pública que a fundamenta e da qual se alimenta. Além disso, os motivos da desobediência criminal são sempre egoístas, os seus autores agem em busca de um beneficio e de um interesse próprios, ao contrário do desobediente civil que age em nome do grupo, de uma ideia partilhada, de uma dissidência alargada e em beneficio do conjunto que partilha com ele a mesma aspiração.
Esta diferença é decisiva para perceber como a resposta do Estado deve ser diferente perante as duas hipóteses. Ela ajuda-nos a compreender a primeira como caso de polícia e a segunda como caso de política. Só o preconceito e a cegueira política nos pode levar a pensar que, constituindo um caso como o outro violações à lei estabelecida, ambas requerem a mesma resposta do Estado - a invocação da lei, a ação dos tribunais e, em último caso, o recurso à força.



Acresce que a dissensão catalã não diz respeito a uma qualquer lei ou a uma qualquer decisão política. Ela assume uma questão de identidade, desafiando a ordem constitucional, o tratado originário, que alicerça a pertença à mesma comunidade. Na verdade, movimentos semelhantes – semelhantes, não idênticos - estiveram na base das transformações sociais democráticas mais importantes do século passado. O voto das mulheres, o direito à greve ou a legislação dos direitos civis nos Estados Unidos são exemplos de mudanças legais feitas com base em dissidências que triunfaram após vários anos de violência política. No entanto, o que transforma esta questão numa matéria política mais grave e séria é que ela se fundamenta não no rompimento com uma parte da ordem jurídica, mas na rotura com o contrato social que estrutura a vida em comum. Nesse sentido, ela representa um desafio maior ao Estado cuja ordem política é recusada, merecendo igualmente ser encarada com uma especial sensibilidade na forma com que é encarada pelo poder político rejeitado.
Quem sempre viu no projeto europeu o propósito político mais importante e generoso dos nossos dias, não pode deixar de olhar com desalento esta recusa catalã da ordem constitucional de uma Espanha unida. Ela vai, sem dúvida, em sentido contrário ao da integração política desejada, tal como já tinha acontecido com o referendo escocês, cujo resultado, para os europeístas, foi recebido com alívio. Todavia, perante uma tão essencial e íntima recusa de partilhar a mesma comunidade, julgo que devíamos evitar os argumentos paternalistas ancorados no chamado bom senso, como se este faltasse à mente dos provocadores catalães, incapazes de ver o que estão a fazer à história.
A história não ensina tudo, mas se alguma coisa nos diz é que no passado estes assuntos sempre foram resolvidos pelo recurso à força e pela violência. Tais desafios ou dissidências ou foram esmagados ou acabaram vitoriosos após confrontos de especial violência. As imagens dos elementos da Guardia Civil de partida para a Catalunha, aplaudidos pelos seus conterrâneos na sua missão de repor a ordem, não só evocam as expedições de outrora para esmagamento da revoltas nas províncias sublevadas mas também nos fazem lembrar que nunca a coação fez mudar de ideia os recalcitrantes.
O que vimos neste fim de semana na Catalunha foi uma região oscilando entre a desobediência e a insurreição. Infelizmente, a atuação do Estado espanhol parece querer inclinar a balança da primeira para a segunda. O verdadeiro talento político está em saber evitar este caminho. Para tal, não há alternativa senão usar as armas da democracia – a negociação, o diálogo, o compromisso. Esta batalha, se ainda pode ser vencida, só poderá sê-lo pela persuasão. A verdadeira autoridade política reside na legitimidade - o poder que dispensa a força.
José Sócrates



 Lola

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Desobediência Civil


Anos 60 - protesto contra a guerra do Vietnam


A desobediência civil



«Algumas pessoas argumentam que a violação da lei nunca se pode justificar: se não estamos satisfeitos com a lei, devemos tentar mudá-la através dos meios legais, como as campanhas, a redacção de cartas, etc. Mas há muitos casos em que tais protestos legais são completamente inúteis. 

Há uma tradição de violação da lei em tais circunstâncias conhecida por desobediência civil. A ocasião para a desobediência civil emerge quando as pessoas descobrem que lhes é pedido que obedeçam a leis ou a políticas governamentais que consideram injustas. 







A desobediência civil trouxe mudanças importantes no direito e na governação. Um exemplo famoso é o movimento das sufragistas britânicas, que conseguiu publicitar o seu objectivo de dar o voto às mulheres através de uma campanha de desobediência civil pública que incluía o auto-acorrentamento das manifestantes. A emancipação limitada foi finalmente alcançada em 1918, quando foi permitido o voto às mulheres com mais de 30 anos, em parte devido ao impacto da Primeira Guerra Mundial. No entanto, o movimento das sufragistas desempenhou um papel significativo na mudança da lei injusta que impedia as mulheres de participar em eleições supostamente democráticas. 





Mahatma Gandhi e Martin Luther King foram ambos defensores apaixonados da desobediência civil. O desafio de Martin Luther King ao preconceito racial através de métodos análogos aos de Ghandi ajudou a garantir direitos civis básicos para os Negros americanos nos estados americanos do Sul.







Outro exemplo de desobediência civil está patente na recusa de alguns americanos em participarem na Guerra do Vietname, apesar de serem requisitados pelo governo. Alguns americanos justificaram esta atitude afirmando acreditar que matar é moralmente errado, pensando por isso que era mais importante violar a lei do que lutar e possivelmente matar outros seres humanos. Outros havia que não objectavam a todas as guerras, mas sentiam que a guerra no Vietname era injusta e que sujeitava os civis a grandes riscos, sem nenhuma boa razão. A dimensão da oposição à guerra no Vietname acabou por conduzir os Estados Unidos à retirada. Sem dúvida que a violação pública da lei alimentou esta oposição. 




A desobediência civil corresponde a uma tradição de violação não violenta e pública da lei, concebida para chamar a atenção para leis ou políticas injustas. Os que agem nesta tradição de desobediência civil não violam a lei unicamente para seu benefício pessoal; fazem-no para chamar a atenção para uma lei injusta ou uma política moralmente objectável e para publicitar ao máximo a sua causa. 






Por isso é que estes protestos ocorrem habitualmente em lugares públicos, de preferência na presença de jornalistas, fotógrafos e câmaras de televisão».




Nigel Warburton, Elemento Básicos de Filosofia, 
Gradiva, pp. 132-133


Para saber mais:








Será que esta canção de Pedro Abrunhosa se relaciona com a desobediência Civil?






                                                Lola

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