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quinta-feira, 7 de março de 2019

Valores




Valores


As questões sobre «valores» - isto é, sobre o que é bom ou mau em si, independentemente dos seus efeitos - estão fora do domínio da ciência, como os defensores da religião afirmam veemente. Eu penso que nisto têm razão, mas retiro outra conclusão que eles não retiram - a de que as questões sobre «valores« estão completamente fora do domínio do conhecimento. Por outras palavras, quando afirmamos que isto ou aquilo tem «valor», estamos a exprimir as nossas emoções, e não a indicar algo que seria verdadeiro mesmo que os nossos sentimentos pessoais fossem diferentes. (...)
Qualquer tentativa de persuadir as pessoas de que algo é bom (ou mau) em si, e não apenas por causa dos seus efeitos, depende não de qualquer recurso a provas, mas da arte de suscitar sentimentos. O talento do pregador consiste sempre em criar nos outros emoções semelhantes às suas - ou diferentes, se ele for hipócrita. Ao dizer isto não estou a criticar o pregador, mas a analisar o carácter essencial da sua actividade.
Quando um homem diz «Isto é bom em si» parece estar a exprimir uma proposição, como se tivesse dito«Isto é um quadrado» ou «Isto é doce». Julgo que isto é um erro. Penso que aquilo que o homem quer realmente dizer é «Quero que toda a gente deseje isto», ou melhor, «Quem me dera que toda a gente desejasse isto» Se aquilo que ele diz for interpretado como uma proposição, esta é apenas sobre o seu desejo pessoal. Se for antes interpretado num sentido geral, nada afirma, exprimindo apenas um desejo. O desejo, enquanto acontecimento, é pessoal, mas o que se deseja é universal. Penso que foi este curioso entrelaçamento entre o particular e o universal que provocou tanta confusão na ética. (...)
Se esta análise está correcta, a ética não contém quaisquer proposições, sejam elas verdadeiras ou falsas, consistindo em desejos gerais de uma certa espécie, nomeadamente naqueles que dizem respeito aos desejos da humanidade em geral - e dos deuses, dos anjos e dos demónios, se eles existirem. A ciência pode discutir as causas dos desejos e os meios para os realizar, mas não contém quaisquer frases genuinamente éticas, pois esta diz respeito ao que é verdadeiro ou falso.

Bertrand Russell, «Ciência e Ética», 
1935, trad. de Paula Mateus, § 10-20


                                             Lola

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Valores, juízos de valor e teorias





Valores, juízos de valor e teorias

Hoje não há valores?


Paulo Gonçalves, um dos portugueses que participou no rali Dakar 2016, esteve em grande destaque na sétima etapa, depois de ter parado mais de dez minutos para ajudar Matthias Walkner — um piloto rival — que sofrera um acidente e partiu o fémur. Esta ação poderia ter custado a Paulo Gonçalves a liderança da classificação geral, mas ele não hesitou em parar para ajudar. Mais tarde, escreveria no Facebook:


Fiz aquilo que me competia. […] Não sou um herói, sou um ser humano com respeito pelos outros. A nossa vida vale mais que qualquer vitória, sem ela não vencemos.


O Público, onde li a notícia, refere que Paulo Gonçalves “protagonizou a boa ação do dia na sétima etapa do rali” (Pimentel, 2016).

As nossas ações podem ter várias características. Quando encaradas sob o aspeto pelo qual podem chamar-se boas ou más, têm um valor moral. Ao lermos as declarações de Paulo Gonçalves e a notícia do Público, formamos a crença de que é uma pessoa de valores, ou com valores, querendo com isto dizer que segue bons valores: foi solidário, bondoso e respeitoso com o seu rival. Mas também pode haver quem pense que ele agiu mal, que o importante era o êxito, e, por isso, não devia ter parado para ajudar, aproveitando para reforçar a sua posição de liderança. Perante a posição destes últimos, algumas pessoas dirão que eles “não têm valores”, ou, generalizando, poderão dizer que “hoje não há valores” ou que “vivemos uma crise de valores”. Quem afirma tal coisa é provavelmente quem não aprova que os outros se guiem por valores diferentes dos seus. É claro que hoje há valores como havia há cinquenta, cem ou mil anos. E continuará a haver valores enquanto existirem seres humanos ou outros capazes de valorizar coisas:


Quem declara que não há valores, quer na verdade dizer que a maior parte das pessoas valorizam o que ele não valoriza e não valorizam o que ele valoriza (Murcho, 2011, p. 46).



Valores e tipos de valor


Mas o que são os valores? Qual é a sua natureza? As coisas têm valor porque as valorizamos, ou valorizamo-las porque têm valor? A axiologia, também chamada filosofia dos valores ou teoria dos valores, procura responder a estas perguntas. A axiologia estuda a natureza dos valores em geral, o significado e as características das afirmações que referem valores (os juízos de valor), analisa a possibilidade de esses juízos serem verdadeiros ou falsos e as condições em que o poderão ser (Galvão, Lopes & Mateus, 2013, p. 76). Os filósofos discordam em relação ao que sejam os valores (como, de resto, em relação a quase tudo). Uns pensam que os valores são ideias que existem apenas na mente de quem neles pensa, outros pensam que os valores são realidades abstratas com alguma independência dos sujeitos. Uma definição neutra e consensual dos valores apresenta-no-los como “aquilo que nos leva a ter preferência e interesse por algumas coisas, pessoas, ações, situações, etc., e não por outras, e, por isso, a avaliá-las positiva ou negativamente” (Galvão & Lopes, 2012, p. 32). Entendidos deste modo, os valores são critérios de ação, orientam as nossas decisões, dão-nos uma linha de rumo:

Permitem avaliar pessoas e situações, e ajudam-nos a classificar as coisas como boas ou más, desejáveis ou indesejáveis, benéficas ou prejudiciais. (Ruas, 2013, p. 85)

Os valores são diversos. Vão desde as ações cotadas na bolsa — que têm um valor económico — aos mais elevados valores morais, desde o copo de água, capaz de matar a sede, até ao que pensamos que nos ajuda a aproximar-nos de Deus — como a fé. Dada a grande diversidade de valores, é costume agrupá-los em áreas ou domínios. Entre os mais estudados em filosofia, temos os valores éticos, os estéticos e os religiosos. Valores como a bondade, a solidariedade, o respeito, a honestidade, a lealdade, a justiça e a liberdade são valores éticos. Valores como a beleza, a graciosidade, a harmonia e a elegância são valores estéticos. Valores como a fé, o sagrado e a pureza são valores religiosos.



Juízos de facto e juízos de valor


Dizer que Paulo Gonçalves fez uma boa ação é um juízo de valor. Dizer que Matthias Walkner partiu o fémur é um juízo de facto. 

O que distingue estes dois juízos?

Um juízo de facto visa descrever a realidade tal como é. Mesmo que descreva a realidade erradamente, não deixa de ser um juízo de facto. Por exemplo, mesmo que Matthias Walkner não tivesse partido o fémur e os jornais noticiassem “Matthias Walkner partiu o fémur”, estaríamos perante um juízo de facto, mas falso. E seria falso, porque o juízo não estaria de acordo com os factos. Neste caso, há, portanto, factos que nos ajudam a decidir objetivamente se a notícia é verdadeira. 

Um juízo de valor não visa descrever a realidade tal como é. Um juízo de valor exprime uma preferência ou uma avaliação. Alguns juízos de valor são normativos: não dizem o que é ou como é a realidade, mas como gostaríamos que fosse.


Será que, no caso dos juízos de valor, podemos dizer que são verdadeiros ou falsos?

 Os emotivistas pensam que não: os juízos de valor não são verdadeiros nem falsos, uma vez que não passam de meras expressões das nossas emoções e servem para influenciar as emoções dos outros. O emotivismo foi desenvolvido principalmente pelo filósofo americano Charles L. Stevenson (1908–1979). Mas também há filósofos que pensam que os juízos de valor são verdadeiros ou falsos. Neste caso, será que podemos determinar objetivamente se são verdadeiros ou falsos?



Subjetivismo, relativismo e objetivismo


Será que podemos dizer que é verdadeiro que Paulo Gonçalves fez uma boa ação?


Um subjetivista diria que isso depende de cada sujeito, pois os juízos de valor são meras expressões das preferências das pessoas. Se uma pessoa aprovar a ação de Paulo Gonçalves, então, para esta pessoa, o juízo “Paulo Gonçalves fez uma boa ação” é verdadeiro. Se outra pessoa desaprovar a ação de Paulo Gonçalves, então, para esta outra pessoa, o juízo “Paulo Gonçalves fez uma boa ação” é falso. E nenhuma tem mais razão do que a outra, pois cada uma delas está apenas a manifestar a sua preferência. Protágoras (490–420 a.C.), que defendeu que o homem é a medida de todas as coisas, Sartre, ao afirmar que “[s]e admito que tal ato é bom, a mim compete a escolha de dizer que tal ato é bom e não mau” (Sartre, 1978, p. 223) e J. L. Mackie (1917–1981), que argumentou que os juízos de valor não podem ser objetivamente verdadeiros, porque não há factos que os tornem verdadeiros, podem ser considerados defensores do subjetivismo dos valores.


Um relativista diria que isso depende de cada sociedade, pois os juízos de valor são meras expressões das preferências sociais. Se uma sociedade aprovar a ação de Paulo Gonçalves, então, para esta sociedade, o juízo “Paulo Gonçalves fez uma boa ação” é verdadeiro. Se outra sociedade reprovar a ação de Paulo Gonçalves, então, para esta outra sociedade, o juízo “Paulo Gonçalves fez uma boa ação” é falso. E nenhuma sociedade tem mais razão do que a outra, pois cada uma delas está apenas a manifestar a sua preferência. Heródoto (cerca de 490–424 a.C.), que declarou que o “costume é o rei de todos nós” (citado por Rachels, 2009, p. 237), Benedict (1887–1948), que afirmou que a “moralidade varia em todas as sociedades, e é apenas um termo cómodo para os hábitos que uma sociedade aprova” (citada por Rachels, 2004, p. 33), e a Associação Antropológica Americana (citada por Almeida & Murcho, 2014, p. 40), que defendeu que os “padrões de valor são relativos à cultura de que derivam”, são alguns representantes do relativismo. O filósofo Gilbert Harman (n. 1938) é, atualmente, o principal defensor do relativismo ético.


Um objetivista diria que a verdade do juízo “Paulo Gonçalves fez uma boa ação” não depende das pessoas nem das sociedades, pois há maneiras objetivas de determinar se o juízo é verdadeiro, tal como acontece com os juízos de facto. O objetivista não defende que todos os juízos de valor são objetivos, defende que alguns o são. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1948, corresponde a uma perspetiva objetivista sobre os valores. Os filósofos James Rachels (1941–2003) e Thomas Nagel (n. 1937) são dois dos defensores do objetivismo.



Afinal, quem tem razão?
 Subjetivistas, relativistas ou objetivistas?


Os subjetivistas não parecem ter razão. Por um lado, o subjetivismo não dá conta da nossa falibilidade. Se o subjetivismo estivesse correto, então seríamos todos infalíveis no que respeita aos juízos de valor; mas é implausível que sejamos todos infalíveis quanto aos juízos de valor; logo, o subjetivismo não pode estar correto. Por outro lado, o subjetivismo não pode explicar a existência de desacordo a propósito dos juízos de valor. Se o subjetivismo estivesse correto, então quando eu afirmo “Paulo Gonçalves fez uma boa ação” e o leitor afirma “Paulo Gonçalves não fez uma boa ação” não estamos realmente a discordar. Cada um de nós está apenas a fazer uma afirmação sobre a sua atitude: eu estaria apenas a declarar que aprovo a ação de Paulo Gonçalves e o leitor estaria apenas a dizer que desaprova a ação de Paulo Gonçalves — e sobre isso estamos inteiramente de acordo. Mas é óbvio que quando digo “Paulo Gonçalves fez uma boa ação” e o leitor diz “Paulo Gonçalves não fez uma boa ação” estamos realmente em desacordo. Portanto, o subjetivismo não pode estar correto.


Terão os relativistas razão? Os relativistas também não parecem ter razão. Se os relativistas tivessem razão, “[d]eixaríamos de poder afirmar que os costumes de outras sociedades são moralmente inferiores aos nossos” (Rachels, 2004, p. 40) — eu ou o leitor, por exemplo, não poderíamos condenar o Holocausto ou a mutilação genital feminina e a escravatura, que se praticam noutras sociedades —, “[p]oderíamos decidir se as ações são certas ou erradas pela simples consulta dos padrões da nossa sociedade” (ib., p. 41) — por exemplo, se quiséssemos saber se a eutanásia é certa ou errada, bastar-nos-ia verificar se ela se conforma ou não com o código moral da nossa sociedade — e a “ideia de progresso moral é posta em dúvida” (ib.) — não poderemos, por exemplo, dizer que a sociedade portuguesa atual, onde as mulheres podem votar e deixaram de ser propriedade dos maridos, é melhor do que aquela em que eram consideradas propriedade dos maridos e não podiam votar.


Restam os objetivistas, que defendem que os valores são propriedades objetivas do mundo e que existem juízos de valor objetivos — e, portanto, os juízos de valor são, afinal, juízos de facto sobre valores. Mas em que sentido podemos dizer que alguns juízos de valor são objetivos?

Há várias conceções de objetividade, mas a mais relevante no que respeita à natureza dos valores considera que a imparcialidade é uma condição necessária da objetividade. O que isto significa é que os juízos de valor que são objetivos são imparciais. (Almeida & Murcho, 2014, p. 44)

Um juízo de valor é objetivamente verdadeiro, se tiver as melhores razões do seu lado, isto é, se for sustentado por razões melhores do que os juízos alternativos.


Tais verdades são objetivas no sentido em que são verdadeiras independentemente do que possamos querer ou pensar. Não podemos tornar algo bom ou mau pelo simples desejo de que seja assim, porque não podemos simplesmente querer que o peso da razão esteja a favor ou contra algo. (Rachels, 2004, p. 67)


Assim, os juízos de valor podem ser objetivos, no sentido em que são independentes das valorações realizadas pelos indivíduos e pelas sociedades.

Poderemos, então, dizer que o juízo “Paulo Gonçalves fez uma boa ação” é objetivo? Podemos, uma vez que o podemos justificar imparcialmente. Podemos dizer que Paulo Gonçalves fez uma boa ação, porque a sua ação foi exclusivamente motivada pelo cumprimento do dever (“Fiz aquilo que me competia”, disse Paulo Gonçalves) — seguindo o imperativo categórico de Kant (1724–1804). Ou podemos dizer que Paulo Gonçalves fez uma boa ação, porque a sua ação foi aquela que, entre as ações alternativas, produziu a maior felicidade para o maior número de agentes morais — seguindo o princípio da utilidade de John Stuart Mill (1806–1873). Em qualquer dos casos adotamos uma perspetiva imparcial. E se, afinal, Paulo Gonçalves só disse que fez o que lhe competia porque queria ficar bem visto e beneficiar-se a ele próprio, não tendo a sua ação as melhores consequências possíveis? Bem, isto não significa que o juízo “Paulo Gonçalves fez uma boa ação” não seja objetivo, significa que é objetivamente falso, tal como seria objetivamente falsa a notícia de que “Matthias Walkner partiu o fémur”.


E o leitor, o que pensa?


Referências bibliográficas


Almeida, A. & Murcho, D. (2013). Janelas para a filosofia. Lisboa: Gradiva.

Lopes, A., Galvão, P. & Mateus, P. (2013). Razões de ser: Filosofia 10.º ano. Porto: Porto Editora.

Galvão, P. & Lopes, A. (2012). Preparação para o exame nacional 2013: Filosofia 11.º ano. Porto: Porto Editora.

Murcho, D. (2011). Filosofia em direto. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Pimentel, T. (2016). “Não sou um herói”, diz Gonçalves, o líder que parou para ajudar. Público em linha, 09/01/2016 [consultado em 09/01/2016].

Rachels, J. (2004). Elementos de filosofia moral. Lisboa: Gradiva

Rachels, J. (2009). Problemas da filosofia. Lisboa: Gradiva.

Ruas, P. (2013). Diálogos de filosofia, vol.1. Lisboa: Texto.

Sartre, J-P. (1978). O existencialismo é um humanismo (4.ª ed.). Lisboa: Editorial Presença.


António Padrão
in Crítica



                                             Lola


domingo, 28 de dezembro de 2014

Valores





A Menina do Vestido Azul


Era uma vez um menino. Rebelde como muitos outros. Chamava-se Sortudo. Criança com traços de personalidade de cores intensas e variadas, num tecido frágil e emotivo.

Nasceu e vivia numa terra muito distante, chamada Sorte. Era uma terra longínqua, onde só poucas pessoas conseguem chegar. Situada num lugar ínfimo, para além da realidade.




Era a terra das oportunidades. Nessa terra, tudo acontecia sempre para o lado fácil. Facilidades e mais facilidades. As pessoas queriam, pediam e tinham o que desejavam.

Era a terra do positivo.

Os seus habitantes não precisavam de se esforçar muito para que as coisas boas acontecessem. Aliás, não se esforçavam nada. Aconteciam simplesmente os desejos. Queriam um bolo e, num instante a seguir, aparecia uma pessoa a dar-lhe um bolo. Pensavam numa bicicleta e instantes depois, apareciam pessoas a dar-lhes uma bicicleta Pensavam num sorriso e rapidamente apareciam várias pessoas a dar-lhe um sorriso.



O menino Sortudo vivia numa família chamada Facilidade. Os pais eram maravilhosos. Os irmãos adoráveis e a restante família era igualmente amorosa. Tudo parecia bom. Tudo parecia correr ás mil maravilhas.


E tudo, diziam, acontecia por causa do Sol. O Sol ali brilhava com imenso fulgor e intensidade. O Sol era a alegria. O Sol aquecia e alegrava. Era o Sol que fazia com que as pessoas rejubilassem de satisfação e felicidade .
Mas o Sol era enganador e simulado! As pessoas tinham a sorte das coisas boas acontecerem facilmente. Sem esforço. Não precisavam de ser determinadas. Não precisavam de se esforçar para conseguir as coisas. Não tinham necessidade de ter força de vontade, motivação ou persistência.
Não trabalhavam. Tudo era conseguido com....apenas sorte! Por isso, a terra se chamava Sorte.

Mas, a pouco e pouco, as pessoas aperceberam-se que tinham quase tudo, excepto a felicidade. As pessoas estavam numa espécie de torpor. Um torpor de ilusão. Estavam iludidas pelo prazer fácil, pelas boas e agradáveis sensações, pelo momentâneo, pelo esporádico.

Estavam iludidas pelo Ter e esqueceram-se do Ser. As pessoas tinham hipotecado a felicidade em troca do Ter. Tinham tudo, excepto a felicidade. Não eram felizes. Viviam só para o exterior, esquecendo-se de construir o interior.
E lá no fundo percebiam que lhes faltava algo mais.ar! Faltava-lhes o factor mais importante para vencer na vida: caminhar !Elas não caminhavam. Estavam imobilizadas pelo egoísmo e pela superficialidade. Estavam imobilizadas pelo egocentrismo. Viviam para elas próprias. Sentiam o prazer só para elas. Nunca pensavam nos outros, nem em fazer o bem ao próximo. Esqueceram-se da solidariedade. Esqueceram-se de viver com os outros e para os outros.

E, a pouco e pouco, perceberam que afinal aquilo que sentiam era apenas....um vazio! Um vazio existencial enorme.

Era atracção, era prazer enganador, era uma felicidade que se esfumava no instante a seguir.
As pessoas daquela terra nunca tinham percebido que aquilo não era felicidade. Nem sequer sabiam o que era a felicidade. Portanto, nem sequer sabiam que a felicidade era diferente: era permanente. A felicidade era um estado de iluminação, de plenitude. Era uma luz imensa que aquecia o coração e irradiava a luz do amor para os outros.

Até que um dia chegou àquela terra um velhinho. O velhinho chamava-se Azarado. Andava de terra em terra, à procura de sorte, coisa que nunca encontrou. A vida tinha sido sempre muito triste para ele. Nunca conseguia o que desejava. Nunca conseguia obter coisas boas. Tudo o que fazia era sempre errado. Sentia uma tristeza enorme por sempre ter ouvido falar na Sorte e nunca a ter encontrado. Acabava sempre por nunca ter o que desejava.
Mas não desistia facilmente.

E, por fim, após ter atravessado vales e montanhas, após ter quase desesperado por não a ter conseguir encontrar, chegou a uma placa de localidade, que se chamava.... Sorte.
Nesse instante, pensou que encontraria o objectivo da sua vida. Algo que tanto ambicionava, mas nunca tinha encontrado: o Ter.

 Ele possuía o Ser, mas não tinha o Ter. Mas queria Ter. Queria ser rico. Queria ter muitos carros, muitas casas, muitos bens materiais.

Ao chegar à terra da Sorte, encontrou o menino Sortudo. Olharam um para o outro, e ficaram a olhar e a pensar....Tão diferentes e tão iguais.
Nesse mesmo instante, o Sol radioso, o tal da alegria enganadora, esmoreceu e tremeu. E a luz que emanava perdeu intensidade.
Nesse instante, quando o Sr. Azarado encontrou o menino Sortudo, algo de especial aconteceu. A bondade e a generosidade apareceram na face do menino Sortudo. Mas o Sol não gostou. O Sol da Sociedade não gostava de actos de solidariedade.
O velhinho olhou para o menino e pediu:
Ofereça alguma coisa a um pobre homem, que é azarado.
O menino, que era muito rico, olhou para o velhinho e disse:
Ofereço-lhe o castelo das oportunidades. Tem a oportunidade de mudar, mas para isso acontecer vai depender só de si.
O velhinho ficou tão feliz com aquela oferta, que pegou em três saquinhos que trazia e entregou-os ao menino, com carinho:
Ofereço-te estes três saquinhos. Dentro deles está o ingrediente básico para a construção da ponte da felicidade.
O menino, intrigado, agradeceu os saquinhos e partiu.
Então a terra da Sorte transformou-se. E as facilidades, a pouco e pouco, desapareceram. E os desejos não mais se concretizaram.
Agora, quando as pessoas queriam algo, precisavam de se esforçar.
E tudo aconteceu quando o menino Sortudo olhou para o Sr Azarado. Nesse instante o menino, pela primeira vez, sentiu a solidariedade e quis ajudar o velhinho. 

A solidariedade transformou a Terra da facilidade.

O velhinho tentou, tentou, mas não conseguiu realizar o desejo. Percebeu então que não conseguia realizar o desejo antigo. O Sol radioso e enganador só servia para o eu próprio. Não servia para ajudar os outros. A solidariedade não existia. A generosidade não existia. A ajuda aos outros não existia
O Sol radioso afinal era uma hipocrisia. E partiu, para nunca mais voltar.
E o menino Sortudo percebeu então que a felicidade nunca poderia ser alcançada com o egoísmo.
A superficialidade de sentimentos apenas dava às pessoas um prazer momentâneo, que se desvanecia rapidamente.

O menino Sortudo percebeu que a sua existência não se podia resumir só aquilo. Queria mais! Quis perceber porque razão existia! Quis encontrar a felicidade!
Alguém lhe disse então que existia, muito longe, a casa da felicidade.
E um dia partiu! Deixou a terra da Sorte e partiu à procura dessa ilha.
Levou consigo pouco mais do que os três saquinhos, que o velhinho lhe tinha oferecido.
Andou, andou....correu mundo!
A dada altura encontrou-se no deserto. O deserto da vida. Triste, desanimado e com sede. Sem esperança de qualquer coisa, resolveu então abrir um dos saquinhos. E radiante ficou, quando se apercebeu que lá dentro estava água.
Saciou a sede e recuperou forças. Agora sabia que conseguiria atravessar o deserto.
E recomeçou a caminhada...
Continuou, continuou...........
Encontrou então a terra do fogo. Era uma terra imensa, devastada pelo fogo. Cinzas. Destruição. Tudo a preto e branco. Tristeza enorme nas pessoas. Não havia sorrisos. Tristeza enorme até na paisagem.
Cansado, sentou-se numa pedra e olhou para a paisagem destruída. Depois olhou para baixo e viu outro dos saquinhos. Abriu-o, e surpresa das surpresas, estava cheio de cores. Cores variadas e alegres. E então pintou todo o cenário. E pôde contemplar o regresso da alegria aquelas paragens.
Iniciou novamente a caminhada...
Encontrou a terra da escuridão. Uma escuridão imensa. As pessoas chocavam umas nas outras. Nem se conheciam. Tudo era triste.
O menino levou a mão ao último saquinho e apercebeu-se, para alegria de todos que o rodeavam, que lá dentro estava uma luz. Naquela terra as pessoas voltaram novamente a sorrir. E puderam então conhecer-se umas às outras.
Feliz e satisfeito pelas acções que efectuou iniciou nova caminhada, na certeza de que, a partir de agora, estaria então em condições de empreender a viagem final, que era o caminho da transformação interior.

Andou, andou......
Até que encontrou uma multidão desesperada junto a um rio.
Soube então que eram pessoas como ele, à procura da casa F de felicidade.
Soube também que estavam junto ao rio dos defeitos. E que poucas eram as pessoas que atingiam essa mesma casa F de felicidade.
Viu então, num alto duma árvore, na margem do rio dos defeitos, um senhor alto, o guardião do rio dos defeitos, a anunciar as regras para se entrar na casa F da felicidade.
Para que tal acontecesse era necessário:
primeiro, deitar os defeitos ao rio
segundo, trabalharmos o interior
terceiro, entrar primeiro na casa do amor e da bondade .
Era o único acesso possível para a casa F de felicidade.
A casa F de felicidade está na ilha da felicidade, ao lado da casa do amor e da casa da bondade.
A ponte só é visível para as pessoas que limarem os defeitos e aprenderem a cultivar as virtudes. Tem quatro pilares que são: os pilares da humildade, da tolerância, da honestidade e da generosidade.
Mas antes, é necessário eliminar primeiro os cinco defeitos básicos do ser humano, e deita-los para o rio dos defeitos e que são: a arrogância, o orgulho, a teimosia e a mentira e vaidade.
E, umas após outras, o guardião ia repetindo sempre os critérios para que as pessoas pudessem entrar na casa F de felicidade.
O menino ouviu aquilo e sentiu, como tantos outros, a tarefa impossível. Não acreditou que pudesse mudar a sua maneira de ser.

Desanimado, voltou para a casa, para a terra da Sorte. Desistiu. Como é fácil desistir. Como é fácil encolher os ombros. Quis partir. Quis voltar as costas ao destino. E voltou. Para casa, para a vivência conformista, para a apatia. Como muitos outros, pensou que não encontraria a casa F de Felicidade. Nem sequer tentou. Teve medo. Não teve coragem de tentar. E voltou. Para casa. Como muitos outros. Quase todos os outros.
Apenas olhou para o horizonte. Apenas sentiu o limite. Apenas olhou para o sonho. Sim, era um sonho. Olhar para o sonho. Como é belo, como é doce. É não sentir o tempo, é não sentir a vida. Olhou para o sonho e sonhou. Mas, mesmo assim, partiu. Partiu, mas....para a terra da Sorte, onde tudo era real, onde não havia espaço para sonhar. Mas que dizer? Era a vida a palpitar. È mais fácil sonhar, do que viver. È mais fácil não sonhar.
 E partiu...
No caminho, encontrou uma quinta. A quinta da família Verdade. À sua volta estava uma muralha alta e imensa. Apenas uma muralha. Uma muralha densa.
Sentiu curiosidade e espreitou ao portão. Uma pequena abertura e inúmeros jovens a tentar espreitar.
Por fim, conseguiu espreitar. Vislumbrou então, no interior da muralha, a presença de uma jovem a passear por entre as flores. Vestia um vestido azul, da cor do céu. Era linda e morena.
O menino ficou encantado. Era uma visão fascinante. A beleza em forma de azul. A menina do vestido azul. Beleza imensa. O arco-íris da beleza exterior e interior. Os olhos de amor do menino conseguiram ver uma imensa beleza interior no coração da menina do vestido azul. Beleza deslumbrante e humilde. A forma como acariciava os animais que a circundavam. A doçura dos gestos. A atitude meiguinha com que se relacionava com as pessoas dentro das muralhas. E, sobretudo, a beleza do seu sorriso. Um sorriso aberto de amor.
Conseguiu ainda ver uns olhos escuros e meigos, detrás de um olhar deslumbrante.
A menina do vestido azul.
A menina que encantou o coração do menino Sortudo.
Perguntou então aos outros jovens quem era aquela morena linda.
Logo lhe disseram:
É a menina do vestido azul. A menina verdade! Mas ninguém consegue entrar. Estas muralhas são impenetráveis. São as muralhas da falsidade. Têm um detector de falsidade. E a chave para o portão ninguém a consegue encontrar. É uma papoila azul. Ninguém sabe onde a encontrar. Muitos tentaram. Mas ninguém a consegue encontrar.
Disse então para ele próprio:
Eu vou conseguir! Sei que vou conseguir!
E partiu.
Correu mundo...
Um dia, cansado de tanto procurar, sentou-se junto a um campo de papoilas vermelhas. Eram imensas. As papoilas da paixão.
Sentou-se e fechou os olhos.
Sentiu o Sol forte a iluminar-lhe o rosto. Ouviu então uma voz ao longe:
Procura bem no centro do campo das papoilas vermelhas. No centro da paixão está uma papoila azul. É única. Só quem desenvolveu o amor profundo e verdadeiro a consegue ver.
Abriu os olhos, sobressaltado!
Não viu ninguém. Apenas uma ave a voar e a cantarolar, que por ele tinha passado.
Correu para o centro do campo de papoilas vermelhas e lá estava...a papoila azul.
Colheu-a e, correu, correu....até ao portão da quinta da família Verdade.
Abriu o portão e, de súbito, apareceu diante dele a menina do vestido azul. Linda. Morena. Beleza imensa.
A Princesinha do vestido azul . Olhos nos olhos. Coração a bater apressadamente. A menina do vestido azul apaixonou-se por ele também ao primeiro olhar. O tal grande amor que tanta gente aspira e sonha encontrar. O tal preâmbulo do paraíso que poucos encontram. Passaram dias encantados. Viveram a sensação, a emoção. Como se deliciaram com a vida, como quiseram viver o....Sonho. E como o viveram... Até que um dia a donzela, chamada Verdade, lhe mostrou um tesouro que guardava religiosamente: era uma caixa.A caixa do amor. Abriram os dois a caixa. Receosos, como todas as pessoas. Cativados, como muitos outros.
Abriram...e encontraram os seus corações a palpitar, a dançar no palco da vida. Ouviram o sonho das aves, sentiram o vento da bondade a aquecê-los com carinho. E viram o mar da acalmia, da tranqüilidade, a baloiçá-los. Tudo salpicado com amor, tudo envolvido em amor.
Um dia casaram. Dia, após dia, anos após anos, o Sr. Sortudo, tentou sempre melhorar como ser humano. Em cada dia que passava, tentava limar sempre um pouco as arestas dos defeitos. E trabalhava igualmente os pilares das virtudes, sem estar preocupado com a casa F de Felicidade. Aliás, nunca mais se lembrou, nem se preocupou com ela. Não sonhava com ela. Não estava obcecado com ela.
Apenas vivia o momento presente, apenas vivia.
E vivia...com amor. Conheceu a palavra, conheceu o conteúdo. Conheceu a capacidade de amar. Não só a ele próprio, mas, e sobretudo, aos outros. Aprendeu a sentir a importância de ajudar os outros. Aprendeu a importância do dar. Dar sem se preocupar com o receber. Dar pelo prazer de dar. E como foi bom aprender a dar e sentir o amor.
Um dia, sem que fizesse nada no sentido de isso acontecesse, surgiu, inesperadamente, à sua frente, uma ponte.
Olhou, estupefacto, mas.......não podia crer nos seus olhos. Era a ponte da Felicidade. Estava ali, defronte dele...aos seus pés. Receoso, andou, pé ante pé. Percorreu a ponte. Observou os pilares das virtudes. Estavam completos. Estavam perfeitos. Que milagre teria acontecido. O que lhe teria acontecido.
Olhou admirado para o rio dos Defeitos.
Viu os defeitos a serem levados pela corrente da vida. Ou melhor, a própria vida a levá-los para o mar da maldade.
Percorreu a ponte das virtudes e chegou junto à porta da casa F de Felicidade.
Que linda! Que sensação tão boa!
Percebeu então que o segredo estava na caixa do amor.
A caixa do amor mostrou.lhe o caminho. O caminho deveria ter sempre como acompanhantes a bondade e o amor. O amor era o motor, o engenheiro da construção da ponte das virtudes.
E, contrariamente, ao que as pessoas pensavam, a casa F de Felicidade estava em qualquer lado. E surgia em qualquer momento. Não quando as pessoas a procuram, mas quando a ponte está completa. Quando a ponte das virtudes está completa, encontramos o caminho e, nessa altura, conseguimos entrar na casa F da Felicidade.
O senhor Sortudo entrou na casa F da Felicidade. Conseguiu entrar. E nessa altura percebeu então a razão da vida, o objectivo da nossa existência. Em qualquer lugar, em qualquer momento, temos a oportunidade de viver o Sonho, de sermos felizes.
E ainda hoje, se diz que anda pelo Mundo, o senhor Sortudo, a tentar ensinar as pessoas a entrar na casa F de Felicidade. Ainda hoje se diz que, quando alguém pratica o bem, lá está ele a incentivar a continuação da obra.....porque a entrada na casa da Felicidade é possível. Ele existe. Só temos que construir a ponte.
Poucos conseguem, porque a maioria desiste de tentar, mas os que entraram na casa F de Felicidade, nunca mais quiseram regressar ao outro Mundo, ao mundo da superficialidade, ao mundo do egoísmo, ao mundo sem Felicidade.

António Ramalho





                                               Lola

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