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quarta-feira, 7 de março de 2018

Conhecimento como crença racional justificada




Conhecimento como crença racional justificada


Platão  apresenta uma teoria que explica como ocorre um dos tipos de conhecimento estudados: o "saber que" ( conhecimento proposicional ou conhecimento de verdades).



  • Platão defende que o conhecimento parte sempre de uma crença, de uma convicção.
  • Uma crença é uma atitude de adesão, é acreditar em algo.
  • Qualquer pessoa que sabe alguma coisa tem que acreditar nessa mesma coisa.
  • Para Platão, não podemos ter conhecimento de algo em que não acreditamos.
  • A crença é, portanto, a primeira condição necessária para o conhecimento, mas não é suficiente.
  • A crença é um ponto de partida para o conhecimento.
  • Se admitimos que existe a verdade temos que admitir que existe a falsidade.
  • A verdade ou a falsidade só existem relativamente a uma crença, opinião ou proposição.
  • A verdade ou falsidade de uma crença depende de algo exterior à crença.
  • Uma crença pode ser verdadeira ou falsa.
  • Uma crença falsa não poderá conduzir a qualquer conhecimento.
  • A segunda condição necessária para que ocorra o conhecimento é a verdade.
  • Para haver conhecimento, é necessário que uma pessoa acredite em algo e que este algo seja verdadeiro.
  • Contudo, podemos ter uma crença verdadeira e não se tratar de conhecimento, pois podemos ter uma crença e ela ser verdadeira por sorte ou por coincidência.
  • Assim, uma crença verdadeira ainda não é conhecimento.
  • Segundo Platão, é necessário que ocorra uma terceira condição para que haja conhecimento.
  • A terceira condição necessária para que aconteça o conhecimento é a justificação.
  • Uma opinião verdadeira só por si ainda não é conhecimento, é necessário que se possua uma justificação que comprove a verdade da crença.
  • A justificação consiste na razão (ou razões) que suporta a verdade da crença.
  • Platão defende que só quando estamos perante as três condições necessárias (crença, verdade e justificação) é que podemos afirmar estar na posse de um efectivo conhecimento.
  • Assim, só podemos conhecer aquilo que se pode justificar e não podemos conhecer aquilo que não é possível justificar.
  • Consideradas isoladamente, nenhuma das condições é suficiente para que haja conhecimento.

Então...

  • Elementos constitutivos do conhecimento: Crença– convicção; opinião; acreditar em algo; Conhecimento e verdade – Factividade (remeter para factos)
  • Nenhuma crença falsa pode ser conhecimento - Proposições Verdadeiras e Falsas
  • O conhecimento é factivo; so se pode conhecer o que é verdadeiro, ou seja, aquilo que, de facto, acontece;
  • A verdade é condição necessária para o conhecimento
  •  Crença e ilusão:  Saber realmente algo é diferente de pensar que se sabe algo A verdade ou falsidade de uma crença depende de algo exterior à crença ou seja,depende dos factos. 
  • Crença e conhecimento - Para haver conhecimento, é necessário que uma pessoa acredite em algo e que este algo seja verdadeiro.Mas não há conhecimento por coincidência ou sorte Exemplo: Eu sabia que ia ganhar!
  • A crença verdadeira não é suficiente para o conhecimento.
  •  Conhecimento e justificação- É necessário uma justificação que comprove a verdade da crença. Têm de existir boas razões que suportem a verdade da crença.Justificação é uma condição necessária para o conhecimento
  •  Justificar e ter justificação Não é necessário que se saiba explicar correctamente quais as razões da justificação. Conhecimento a priori 
  • O que interessa é que haja uma justificação que torne válida a crença!
  • Justificação e verdade -  A existência de justificação para acreditar em algo não garante a verdade da crença, simplesmente mostra que há boas razões a seu favor. Assim, também podemos não ter justificação para acreditar em certas verdades. Existência de fantasmas - não há boas razões para acreditar nisso, mesmo que seja verdade. 
  • A crença justificada não é suficiente para o conhecimento, segundo alguns autores como E. Gettier que apresenta contra exemplos.

CONHECIMENTO como CRENÇA VERDADEIRA JUSTIFICADA 
 O que é? 

  •  Cada uma das condições - crença, verdade e justificação - é necessária, mas não suficiente, para a existência de conhecimento. Mas, uma condição necessária e suficiente para haver conhecimento é ter uma crença verdadeira justificada.
  •  S sabe que P se, e só se:  -S acredita que P. - P é verdadeira. - S tem uma justificação para acreditar que P é verdadeira.

Tarefa:

- Apresente um contra argumento que refute a concepção tradicional de conhecimento.


                                            Lola

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Conhecimento como crença racional justificada




Conhecimento como crença racional justificada


Platão  apresenta uma teoria que explica como ocorre um dos tipos de conhecimento estudados: o "saber que" ( conhecimento proposicional ou conhecimento de verdades).







  • Platão defende que o conhecimento parte sempre de uma crença, de uma convicção.
  • Uma crença é uma atitude de adesão, é acreditar em algo.
  • Qualquer pessoa que sabe alguma coisa tem que acreditar nessa mesma coisa.
  • Para Platão, não podemos ter conhecimento de algo em que não acreditamos.
  • A crença é, portanto, a primeira condição necessária para o conhecimento, mas não é suficiente.
  • A crença é um ponto de partida para o conhecimento.
  • Se admitimos que existe a verdade temos que admitir que existe a falsidade.
  • A verdade ou a falsidade só existem relativamente a uma crença, opinião ou proposição.
  • A verdade ou falsidade de uma crença depende de algo exterior à crença.
  • Uma crença pode ser verdadeira ou falsa.
  • Uma crença falsa não poderá conduzir a qualquer conhecimento.
  • A segunda condição necessária para que ocorra o conhecimento é a verdade.
  • Para haver conhecimento, é necessário que uma pessoa acredite em algo e que este algo seja verdadeiro.
  • Contudo, podemos ter uma crença verdadeira e não se tratar de conhecimento, pois podemos ter uma crença e ela ser verdadeira por sorte ou por coincidência.
  • Assim, uma crença verdadeira ainda não é conhecimento.
  • Segundo Platão, é necessário que ocorra uma terceira condição para que haja conhecimento.
  • A terceira condição necessária para que aconteça o conhecimento é a justificação.
  • Uma opinião verdadeira só por si ainda não é conhecimento, é necessário que se possua uma justificação que comprove a verdade da crença.
  • A justificação consiste na razão (ou razões) que suporta a verdade da crença.
  • Platão defende que só quando estamos perante as três condições necessárias (crença, verdade e justificação) é que podemos afirmar estar na posse de um efectivo conhecimento.
  • Assim, só podemos conhecer aquilo que se pode justificar e não podemos conhecer aquilo que não é possível justificar.
  • Consideradas isoladamente, nenhuma das condições é suficiente para que haja conhecimento.

Então...

  • Elementos constitutivos do conhecimento: Crença– convicção; opinião; acreditar em algo; Conhecimento e verdade – Factividade (remeter para factos)
  • Nenhuma crença falsa pode ser conhecimento - Proposições Verdadeiras e Falsas
  • O conhecimento é factivo; so se pode conhecer o que é verdadeiro, ou seja, aquilo que, de facto, acontece;
  • A verdade é condição necessària para o conhecimento
  •  Crença e ilusão:  Saber realmente algo ≠pensar que se sabe algo A verdade ou falsidade de uma crença depende de algo exterior à crença ou seja,depende dos factos
  • Crença e conhecimento - Para haver conhecimento, é necessário que uma pessoa acredite em algo e que este algo seja verdadeiro.Mas não há conhecimento coincidência ou sorte Eu sabia que ia ganhar!
  • A crença verdadeira não é suficiente para o conhecimento.
  •  Conhecimento e justificação- É necessário uma justificação que comprove a verdade da crença. Têm de existir boas razões que suportem a verdade da crença.A Justificaço é uma condição necessária para o conhecimento
  •  Justificar e ter justificação Não é necessário que se saiba explicar correctamente quais as razões da justificação. Conhecimento a priori 
  • O que interessa é que haja uma justificação que torne válida a crença!
  • Justificação e verdade -  A existência de justificação para acreditar em algo não garante a verdade da crença, simplesmente mostra que há boas razões a seu favor. Assim, também podemos não ter justificação para acreditar em certas verdades.Existência de fantasmas - não há boas razões para acreditar nisso, mesmo que seja verdade. A crença justificada não é suficiente para o conhecimento.

CONHECIMENTO como CRENÇA VERDADEIRA JUSTIFICADA - O que é? 

  •  Cada uma das condições - crença, verdade e justificação - é necessária, mas não suficiente, para a existência de conhecimento. Mas, uma condição necessária e suficiente para haver conhecimento é ter uma crença verdadeira justificada.
  •  S sabe que P se, e só se, - S acredita que P. - P é verdadeira. - S tem uma justificação para acreditar que P





PlATÃO E O CONHECIMENTO COMO CRENÇA VERDADEIRA JUSTIFICADA


"A temática do conhecimento é uma das mais discutidas na Filosofia desde a antiguidade, as questões sobre o que é conhecimento e como nós podemos conhecer suscitam e norteiam significativas discussões e foram temas de grandes obras. Mas, como mencionado, já na filosofia clássica antiga esse tema era motivo de discussões, e foi Platão por volta do ano 400 a. C que deu a primeira definição de conhecimento, essa definição é o conhecimento como crença verdadeira e justificada. Na qual a crença ‘é considerada a primeira condição necessária para o conhecimento’, porém, não é suficiente. A segunda condição necessária para o conhecimento é a verdade. Para haver conhecimento é necessário que uma pessoa emita juízo sobre determinado assunto ou objeto, e esse juízo corresponda com a verdade. A verdade, por conseguinte, é algo que já está em nós, de acordo com Platão, assim como as ideias verdadeiras e universais, está no nosso intelecto e o que se deve fazer é associar a verdade com o objeto a ser conhecido. E por fim é colocada a necessidade de que o conhecimento seja uma opinião verdadeira que possa ser justificada. Portanto, a justificação consiste em apresentar as razões de “o porquê a crença” é verdadeira. A partir do momento em que se fizer uma explicação racional de uma opinião se dará chances para torná-la verdadeira. A razão é capaz de se referir e abstrair as essências, aquilo que há de comum entre os conhecimentos. Tal definição não teve refutações tão relevantes a ponto de superá-la e por isso é a mais aceita até hoje, no entanto apareceram algumas objeções, as quais iremos apresentar. A principal delas é os contra exemplos apresentados por Edmund Gettier, na obra “É a crença verdadeira justificada conhecimento?” de 1963. O sucesso de tais objeções  dá-se pela forma de como os contra exemplos são estruturados, onde aparecem crenças verdadeiras e supostamente justificadas, mas que não podem ser consideradas conhecimento. 

Os contra-exemplos de Gettier  estruturam-se mais ou menos nos seguintes moldes: um sujeito “A” observa por várias vezes que um indivíduo “B” anda com um carro vermelho. O indivíduo “A” trabalha na mesma empresa que o indivíduo “B”, e percebe todos os dias o indivíduo “B” chegar dirigindo o carro, e com um indivíduo “C” de carona. O indivíduo “A” infere a partir das suas evidências que, dentre os funcionários da empresa, um é dono de um carro vermelho. Nesse caso, ele tem uma crença verdadeira e justificada. Mas o indivíduo “A” infere que “B” é o dono do carro, sendo que na verdade o carro é do indivíduo “C”, e o “B” o utilizava porque o indivíduo “C” estava com sua habilitação apreendida. Assim, o indivíduo “A” possui uma crença justificada, mas que é falsa. Percebe-se claramente que o ponto de ataque de Gettier é a justificação, ou seja, como explicar casos como esse do exemplo. 
Por outras palavras, em que medida a justificação será de fato suficiente? 
Por fim, abordaremos Bertrand Russell, utilizando-nos do Fundacionismo moderado como uma possível solução para as críticas de Gettier. 

Russell continua sustentando que a melhor definição do que é conhecimento é aquela apresentada no Teeteto de Platão, mas para que uma crença seja considerada conhecimento, ela precisa ser verdadeira, estar justificada e, além disso, não haver novas informações que o contradigam até o presente momento, ou seja, estar justificada dentro de um determinado tempo e contexto".

Leonardo De Bortoli, Cristina de Moraes Nunes





A quem interessar:

A definição de conhecimento como crença verdadeira justificada exclui outras formas de conhecimento que não sejam a ciência?


A definição de conhecimento como crença verdadeira justificada exclui outras formas de conhecimento que não sejam a ciência

Definitivamente, o conhecimento científico é um conhecimento empírico aposteriori, e não a priori. Penso que há uma grande possibilidade de partir para a busca do conhecimento que não venha a ser necessariamente em bases científicas. O conhecimento como causa de uma crença verdadeira justificada, poderia, ou pode, se fundamentar em bases científicas, mas o que falar, por exemplo, de dogmas ditos por conhecimentos incontestáveis? No caso da filosofia da ciência em contraposição com a filosofia da religião podemos sustentar uma grande oposição de ideais, onde o conhecimento científico não adere ás crenças religiosas para a explicação de fatos contestados pela própria ciência, por isso penso que há outras formas de conhecimento que não sejam necessariamente em bases científicas. Claro que as teses científicas procuram expor uma clareza necessária. Observamos a filosofia cartesiana, onde se procura o método exato onde não há a possibilidade de qualquer erro, procurando-se o conhecimento exato e verdadeiro, como é também o caso da lógica matemática.


O conhecimento científico, penso eu, não pode ser tomado como o conhecimento supremo, pois a ciência não é permanente, ela muda, pode vir outra teoria e derrubar uma que está em evidência. Portanto, a definição de conhecimento como crença verdadeira justificada não exclui outras formas de conhecimento que não seja a própria ciência.

Escritos filosóficos blog






Lola

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Conhecimento como crença racional justificada

Foto André Teixeira

A definição de conhecimento no Teeteto

Anthony Kenny- Universidade de Oxford


Teeteto começa ao estilo de um diálogo do primeiro período. A questão proposta é "O que é o conhecimento?", e Sócrates oferece-se para fazer de parteira de modo a permitir que o jovem e brilhante matemático Teeteto dê à luz a resposta.
 A primeira sugestão é a de que o conhecimento consiste em coisas como a geometria e a carpintaria; mas isto não serve como definição, pois a própria palavra "conhecimento" teria de ser usada se tentássemos dar definições de geometria e de carpintaria. Aquilo de que Sócrates está à procura é aquilo que é comum a todos estes tipos de conhecimento.
A segunda proposta de Teeteto é a de que o conhecimento é a percepção: conhecer algo é tomar contacto com ela por meio dos sentidos. Sócrates observa que os sentidos de pessoas diferentes são diferentemente afectados: a mesma rajada de vento pode ser sentida por um pessoa como quente e por outra como fria. "É sentida como fria" significa "parece fria", de modo que apreender através dos sentidos é o mesmo que parecer. Apenas o que é verdadeiro pode ser conhecido; assim, se o conhecimento é a percepção sensorial, teremos de aceitar a doutrina de Protágoras segundo a qual aquilo que parece é verdadeiro, ou pelo menos aquilo que parece a uma pessoa específica é verdadeiro para essa pessoa.
Por detrás de Protágoras está Heraclito. Se é verdade que tudo, no mundo, está constantemente a sofrer mudanças, então as cores que vemos e as qualidades que sentimos não podem ser realidades objectivas e estáveis. Cada uma é, pelo contrário, o produto do encontro momentâneo entre um dos nossos sentidos e algum elemento transitório no fluxo universal que lhe corresponda. Quando um olho, por exemplo, entra em contacto com um seu correspondente visível, começa a ver a brancura, e o objecto começa a parecer branco. A brancura propriamente dita é gerada pela relação entre estes dois progenitores, o olho e o objecto. O olho e o objecto, do mesmo modo que a brancura a que dão origem, fazem eles próprios parte do fluxo universal; não são imóveis, embora o seu movimento seja lento por comparação com a velocidade com que as impressões dos sentidos vão e vêm. A visão que o olho tem do objecto branco e a brancura do próprio objecto são dois gémeos que nascem e morrem um com o outro. Uma descrição semelhante pode ser feita para os outros sentidos; e assim podemos ver, pelo menos no que diz respeito ao reino dos sentidos, a razão por que Protágoras dizia que aquilo que parece, é; pois a existência de uma qualidade e a sua aparição ao sentido apropriado são inseparáveis uma da outra.
Mas a vida não é toda feita de sensações. Nós temos sonhos, nos quais aparecemos com asas e voamos; os loucos sofrem delírios, nos quais acham que são deuses. Certamente que estas são aparências que não estão de acordo com a realidade! Metade da nossa vida é passada a dormir; e talvez nunca possamos ter a certeza se estamos acordados ou a sonhar; portanto, como pode qualquer de nós dizer que aquilo que lhe parece num dado momento é verdade?
Para responder a isto, Protágoras pode apelar de novo a Heraclito. Suponhamos que Sócrates fica doente e que o vinho doce lhe sabe a amargo. Segundo a descrição dada antes, a amargura nasce de dois progenitores, o vinho e aquele que saboreia. Mas o Sócrates doente é um saboreador diferente do Sócrates saudável, e de um progenitor diferente nascerá naturalmente um filho diferente. Como cada pessoa que tem sensações está constantemente a mudar, cada sensação é uma experiência única e irrepetível. Pode não ser verdade que o vinho é amargo, mas é verdade que é amargo para Sócrates. Nenhuma outra pessoa está em condições de corrigir o Sócrates doente quanto a isto, de modo que também aqui Protágoras é corroborado: aquilo que me parece a mim, é verdadeiro para mim. Teeteto pode continuar a defender que a percepção é conhecimento.
Mas será que todo o conhecimento é percepção? Saber uma língua, por exemplo, é mais do que simplesmente ouvir os sons pronunciados, coisa que podemos fazer com uma língua que não conheçamos. É verdade, evidentemente, que muitas vezes aprendo algo - por exemplo, que o Parténon fica na Acrópole - vendo-o com os meus olhos. Mas, mesmo depois de fechar os olhos, ou de me ir embora, continuo a saber que o Parténon é na Acrópole. Portanto, a memória é um exemplo de conhecimento sem percepção. Mas talvez Teeteto ainda não tenha sido derrotado: Protágoras pode vir em seu auxílio replicando que é possível saber e não saber algo ao mesmo tempo, como quando pomos uma mão à frente de um dos olhos: tanto podemos ver como não ver a mesma coisa ao mesmo tempo.
Sócrates parece ficar reduzido a uma reacção ad hominem. Como pode Protágoras ser professor e levar dinheiro por isso se ninguém está em melhor posição do que qualquer outra pessoa no que diz respeito ao conhecimento, visto que o que parece a cada homem é verdadeiro para ele? Protágoras replicaria que, ao passo que não é possível ensinar alguém de modo a que substitua os pensamentos falsos por verdadeiros, um professor pode fazer-nos substituir maus pensamentos por bons pensamentos, pois, apesar de todas as aparências serem igualmente verdadeiras, nem todas são igualmente boas. Um sofista como Protágoras pode levar um aluno a ficar em melhor estado, tal como um médico poderia curar Sócrates da doença que lhe afectava o paladar, fazendo com que o vinho lhe soubesse de novo a doce.
Em resposta a isto, Sócrates apoia-se no argumento de Demócrito para mostrar que a doutrina de Protágoras se derrota a si mesma. Parece verdade a todos os homens que alguns deles conhecem melhor do que outros diversas áreas de especialidade; nesse caso, tal deve ser verdade para todos os homens. Parece à maior parte das pessoas que a tese de Protágoras é falsa; nesse caso, a sua tese tem de ser mais falsa do que verdadeira, pois os que nela não acreditam são mais do que os que nela acreditam. A teoria de Protágoras pode parecer estar assente em alicerces sólidos quando aplicada à percepção sensorial, mas é deveras implausível se for aplicada aos diagnósticos médicos ou às previsões políticas. Cada homem pode ser a medida do que é, mas mesmo no caso das sensações ele não é a medida do queserá: um médico sabe melhor do que o doente se ele terá febre e um comerciante de vinhos saberá melhor do que um consumidor se um vinho ficará doce ou seco.
Mas mesmo onde é mais forte, no domínio da sensação, a tese de Protágoras é vulnerável, argumenta Sócrates, pois depende da tese do fluxo universal, que é, ela própria, inconsistente. De acordo com os heracliteanos, tudo está constantemente a mudar, quer no que diz respeito ao movimento local (o movimento de lugar para lugar), quer no que diz respeito à alteração qualitativa (como, por exemplo, a mudança de branco para preto). Ora, se uma coisa permanecesse no mesmo sítio, poderíamos descrever o modo como mudaria qualitativamente, e, se tivéssemos uma porção de cor constante, poderíamos descrever o modo como ela se moveria de lugar para lugar. Mas se ambos os tipos de mudança tiverem lugar simultaneamente, ficamos reduzidos ao silêncio; não somos capazes de dizer que coisaestá a mover-se, nem que coisa está a sofrer uma alteração. A própria percepção sensorial estará em fluxo: um episódio de visão transformar-se-á de repente num episódio de não-visão; a audição e a não-audição seguir-se-ão uma à outra incessantemente. Isto é tão diferente daquilo que tomamos como conhecimento que se o conhecimento for idêntico à percepção, será tanto conhecimento como não conhecimento.
Sócrates prepara-se então para dar a estocada final examinando os órgãos corpóreos dos sentidos: os olhos e os ouvidos, os meios por meio dos quais vemos as cores e ouvimos os sons. Aquilo que é objecto de um dos sentidos não pode ser percepcionado por outro sentido: não podemos ouvir as cores ou ver os sons. Mas, nesse caso, o pensamento de que um som e uma cor não são uma e a mesma coisa, mas duas coisas diferentes, não pode ser o produto nem da vista nem do ouvido. Teeteto tem de conceder que não há órgãos para a percepção da mesmidade e da diferença nem da unidade e da multiplicidade; é a própria alma que contempla os termos comuns que se aplicam a tudo. Mas a verdade acerca das propriedades corpóreas mais tangíveis só pode ser alcançada por meio do recurso a estes termos comuns, que pertencem não aos sentidos mas à alma. O conhecimento não reside nas impressões sensoriais, mas na reflexão que a alma faz sobre elas.
Por fim, Teeteto abandona a tese de que o conhecimento é a percepção; propõe que, em vez disso, consiste nos juízos da alma que reflecte. Sócrates aprova esta mudança de rumo. Quando a alma pensa, diz ele, é como se estivesse a falar para si própria, fazendo perguntas e respondendo-lhes, dizendo sim e não. Quando conclui a sua discussão interna consigo própria e produz silenciosamente uma resposta, isso é um juízo.
O conhecimento não pode ser identificado sem mais nem menos com a capacidade de produzir juízos, pois tanto há juízos falsos como verdadeiros. Não é fácil explicar o que é o juízo falso: como posso eu produzir o juízo de que se não souber o que é nem o que é B? Mas, nesse caso, como é possível que me engane no juízo que fiz? A possibilidade dos juízos falsos parece ameaçar-nos com a necessidade de admitirmos que alguém pode saber e não saber a mesma coisa ao mesmo tempo.
Suponhamos, sugere agora Sócrates, que a alma é uma tábua de cera. Quando queremos memorizar qualquer coisa, inscrevemos uma impressão ou uma ideia nesta tábua; e, enquanto a inscrição se mantiver, nós lembramo-nos. Os juízos falsos podem originar-se do seguinte modo: Sócrates conhece Teeteto e o seu professor Teodoro e tem imagens de cada um deles inscritas na sua memória; mas, vendo Teeteto ao longe, identifica-o erradamente não com a sua imagem, mas com a de Teodoro. Quanto mais indistintas se tornam as imagens na cera, mais se torna possível que tais erros sejam cometidos. Os juízos falsos têm origem, portanto, numa discrepância entre a percepção e o pensamento.
Mas não há casos em que fazemos juízos falsos quando não está em causa qualquer percepção? Um exemplo é quando cometemos um erro ao fazer uma soma aritmética. De modo a dar conta destes casos, Sócrates diz que é possível possuir conhecimento sem o ter na alma numa ocasião específica, tal como se pode possuir um casaco e não o vestir. Tomemos a alma, agora, não como uma tábua de cera, mas como um aviário. Nascemos com uma alma que é um aviário vazio; à medida que aprendemos coisas novas, adquirimos novos pássaros, e saber algo é possuir o pássaro correspondente na nossa colecção. Mas, se quisermos usar algum conhecimento, temos de apanhar o pássaro apropriado e segurá-lo na nossa mão antes de o libertar de novo. Assim se explicam os erros aritméticos: alguém que não saiba aritmética não tem quaisquer pássaros relativos aos números no seu aviário; uma pessoa que julgue que 7 + 5 = 11 tem todos os pássaros apropriados esvoaçando à sua volta, mas em vez de apanhar o décimo segundo apanha o décimo primeiro.
Quer estes símiles sejam suficientes para clarificar a natureza dos juízos falsos quer não, há uma dificuldade, aponta Sócrates, na tese de que o conhecimento é o juízo verdadeiro. Se um júri for persuadido por um causídico inteligente a produzir um certo veredicto, então, mesmo que o veredicto esteja de acordo com os factos, os jurados não possuem o conhecimento que uma testemunha ocular possuiria. Teeteto modifica então a sua definição de modo a que o conhecimento seja um juízo ou crença que seja não apenas verdadeiro mas também articulado.
Sócrates explora então três maneiras diferentes segundo as quais se poderia dizer que uma crença poderia ser articulada.

A-  A mais óbvia de todas é quando alguém tem uma crença que é capaz de exprimir por meio de palavras; mas toda a gente que tenha uma crença verdadeira e que não seja surdo ou mudo é capaz de fazer isto, de modo que este dificilmente contaria como um critério para distinguir entre a crença verdadeira e o conhecimento
.
B - A segunda maneira é a que Sócrates leva mais a sério: ter uma crença articulada acerca de um objecto é ser capaz de proporcionar uma análise dela. O conhecimento de algo é adquirido ao reduzi-lo aos seus elementos. Mas, nesse caso, não pode haver conhecimento dos elementos básicos, que não são analisáveis. Os elementos que formam as substâncias do mundo são como as letras que formam as palavras de uma língua; e analisar uma substância pode ser comparado a soletrar uma palavra. Mas, ao passo que se pode soletrar "Sócrates", não se pode soletrar a letra "S". Assim como uma letra não pode ser soletrada, também os elementos básicos do mundo não podem ser analisados e, portanto, não podem ser conhecidos. Mas, se os elementos não podem ser conhecidos, como podem os complexos formados por eles ser conhecidos? Além disso, apesar de o conhecimento dos elementos ser necessário ao conhecimento dos complexos, não é suficiente; uma criança pode saber todas as letras e, mesmo assim, não ser capaz de soletrar proficientemente.

3 - Segundo a terceira interpretação, uma pessoa tem uma crença articulada acerca de um objecto se for capaz de produzir uma descrição que só se aplique a esse objecto. Assim, podemos descrever o Sol como o mais brilhante dos corpos celestes. Mas, deste ponto de vista, como pode alguém ter qualquer ideia que seja acerca do que quer que seja sem ter uma crença articulada acerca disso? Eu não posso estar realmente a pensar em Teeteto se tudo o que eu for capaz de incluir na descrição forem coisas que ele tem em comum com as outras pessoas, como ter nariz, olhos e boca.

Sócrates conclui, um pouco precipitadamente, que a terceira definição que Teeteto faz de conhecimento não é melhor do que as duas anteriores. O diálogo termina numa atmosfera de perplexidade, como os diálogos socráticos do primeiro período. Mas, de facto, chegou bastante longe. A explicação que dá da percepção sensorial, modificada depois por Aristóteles, viria a ser moeda corrente até ao fim da Idade Média.
 A definição de conhecimento como crença verdadeira articulada, interpretada como significando crença verdadeira justificada, foi ainda aceite por muitos filósofos do nosso século. Mas aquilo que Platão provavelmente via como o maior feito do Teeteto foi a cura que proporcionou para o cepticismo de Heraclito, ao mostrar que a doutrina do fluxo universal se derrotava a si mesma.
Anthony Kenny

Retirado de História Concisa da Filosofia Ocidental, de Anthony Kenny. Trad. Desidério Murcho, Fernando Martinho, Maria José Figueiredo, Pedro Santos e Rui Cabral (Temas e Debates, 1999)



Lola

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