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segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Descartes: Deus


Descartes: Deus


 - Como afasta Descartes a existência do Génio Maligno?

- Descartes mostrou que a razão, só por si, é capaz de produzir conhecimentos verdadeiros, pois ela alcançou uma verdade inquestionável.

- Mas apesar da razão ter chegado ao conhecimento verdadeiro, ainda não está excluída a hipótese do Deus enganador.

- O cogito deu a Descartes o critério para distinguir o verdadeiro do falso;

- Poderá Descartes procurar outras ideias claras e distintas e descobrir outras verdades?

- Mas o que garante que Descartes não se engana quando concebe algo muito clara e distintamente?

- Como o génio maligno poderia fazer conceber clara e distintamente coisas erradas é necessária uma garantia do critério de clareza e distinção.

- Só Deus pode garantir que Descartes não se engana quando pensa clara e distintamente;

- Como sabemos, no terceiro nível da dúvida , Descartes admitiu a existência de um Deus enganador , mas, uma vez provada a existência de Deus essa hipótese é afastada, pois enganar seria uma imperfeição;

- A existência de Deus como ser perfeito , afasta a existência de um génio maligno e garante a verdade das ideias claras e distintas, logo evidentes;

-Deus, sendo perfeito, não pode ser enganador. Enquanto perfeição, Deus é garantia da verdade das nossas ideias claras e distintas (por exemplo: 2+2=4 ou «penso,logo, existo»).
-Se Deus é perfeito e criador do homem e da realidade, então é também o criador das verdades incontestáveis e o fundamento da certeza.
-Segundo Descartes, é Deus que garante a adequação entre o pensamento evidente (verdadeiro) e a realidade, conferindo assim validade ao conhecimento.
-Deus é a perfeição, ou seja, é o bem, a virtude, a eternidade, logo, não poderá ser o autor do mal nem responsável pelos nossos erros.
-Se Deus não existisse e não fosse perfeito, não teríamos a garantia da verdade dos conhecimentos produzidos pela razão, nem teríamos a garantia de que um pensamento claro e distinto corresponde a uma evidência, isto é, a uma verdade incontestável. Se Deus não é enganador, então as nossas evidências racionais são absolutamente verdadeiras.
-Se Deus não existisse, para Descartes, seria «o caos» e nunca poderíamos ter a garantia do funcionamento coerente da nossa razão nem ter noção de como se tornou possível a nossa existência.

Qual o papel de Deus na filosofia cartesiana?

- Deus assume, na filosofia cartesiana, um papel fundamental - Porquê?
- Garante a verdade das ideias inatas e do critério de verdade
- Garante a validade das evidencias e a objectividade do conhecimento
- Deus, que não é enganador, criou tudo que existe
Deus é a garantia da existência do mundo exterior, pois Descartes concebe, de forma clara e distinta, que o mundo físico consiste em extensão e movimento
- Não há, por isso mesmo, razão para duvidar que o mundo existe
- Deus valida o conhecimento humano e garante a adequação entre o pensamento e a realidade
- Deus valida o critério de verdade
- Deus permite chegar à certeza da existência do mundo exterior
- A razão , bem conduzida, e apoiada pela veracidade divina, pode conhecer toda a realidade
- Deus é o fundamento e a garantia de toda a verdade.


Lola

Descartes: Deus



Descartes: Deus


TEXTO A


"Depois, tendo refletido que duvidava, e, por consequência, o meu ser não era inteiramente perfeito, pois claramente via que o conhecer é uma maior perfeição que o duvidar, lembrei-me de procurar donde me teria vindo o pensamento de alguma cousa de mais perfeito do que eu era; e conheci com evidência que deveria ter vindo de alguma natureza que fosse efetivamente mais perfeita.

Não me era difícil saber donde me teriam vindo os pensamentos que tinha de muitas outras cousas exteriores a mim, como do céu, da terra, da luz, do calor e de muitas outras, por­que, não notando neles nada de superior a mim, podia admitir que, caso fossem verdadeiros, dependiam da minha natureza, do que ela tem de perfeito; e no caso de serem falsos era de mim ainda que dependeriam, vindos do nada, isto é, do que de imperfeito existe na minha natureza. Mas o mesmo não acontecia já com a ideia dum ser mais perfeito do que o meu; porque tê-la formado do nada era manifestamente impossível; e, porque não repugna menos admitir que o mais perfeito seja uma consequência e uma dependência do menos perfeito do que admitir que do nada alguma cousa proceda, não podia também aceitar que tivesse sido criada por mim próprio. De maneira que restava apenas admitir que tivesse sido posta em mim por um ser cuja natureza fosse verdadeiramente mais perfeita do que a minha, e que mesmo tivesse em si todas as perfeições que eu poderia idealizar, isto é, que fosse Deus, para tudo dizer numa palavra. ­
A isso acrescentei que, visto conhecer algumas perfeições que não possuía, não era o único ser que existia (empregarei aqui, se o consentirdes, alguns termos de escolástica), mas que necessariamente devia existir algum outro mais perfeito, do qual dependesse e de quem tivesse recebido tudo o que possuía. Porque, se eu fosse o único ser, independente de qualquer outro, e de mim próprio tivesse recebido todo esse pouco pelo qual participava do ser perfeito, teria podido dar a mim próprio, pela mesma razão, todo o muito que reconhecia faltar-me, e ser dessa maneira eu próprio infinito, imutável, omnisciente, omnipotente, em suma ter todas as perfeições que atribuía a Deus.


- Que percurso faz Descartes da dúvida a Deus?
- Que características possui Deus e que faltam a Descartes?


TEXTO B

[…]
Depois disso, quis ainda pensar outras verdades, e, tomando por tema a matéria dos geómetras, a qual concebia como um corpo contínuo, ou, um espaço indefinidamente extenso em comprimento, largura e altura ou profundidade, divisível em muitas partes, que podem ter diversas formas e grandezas, pois os geómetras supõem tudo isto na sua matéria, revi algu­mas das suas demonstrações mais simples. E, tendo notado que essa grande certeza, que todos lhes atribuem, se funda apenas em serem compreendidas com evidência, segundo a regra por mim há pouco indicada, notei também que nada existia nelas que me garantisse a existência dos objetos a que se referem.

Porque, por exemplo, eu compreendia bem que sendo dado um triângulo, é necessário que os seus três ângulos sejam iguais a dois ângulos rectos; mas, apesar disso, nada via que me garan­tisse que no mundo existe qualquer triângulo. Ao passo que, voltando a examinar a ideia dum ser perfeito, notava que a existência está contida nessa ideia, do mesmo modo, ou mais evidentemente ainda, que na dum triângulo está compreendido serem os seus três ângulos iguais a dois rectos, ou na esfera serem todos os seus pontos equidistantes do centro; e que, por conseguinte, é pelo menos tão certo como qualquer demons­tração de geometria que Deus, que é esse ser perfeito, é ou existe".

                                            Descartes, Discurso do Método, 
Sá da Costa

- Identifique e explique a analogia feia no texto, por Descartes.


TEXTO C

“Assim, dado que temos em nós a ideia de Deus ou do ser supremo, com razão podemos examinar a causa por que a temos; e encontraremos nela tanta imensidade que por isso nos certificamos absolutamente de que ela só pode ter sido posta em nós por um ser em que exista efectivamente a plenitude de todas as perfeições, ou seja, por um Deus realmente existente. Com efeito, pela luz natural é evidente não só que do nada nada se faz, mas também que não se produz o que é mais perfeito pelo que é menos perfeito, como causa eficiente e total; e, ainda, que não pode haver em nós a ideia ou imagem de alguma coisa da qual não exista algures, seja em nós, seja fora de nós, algum arquétipo que contenha a coisa e todas as suas perfeições. E porque de modo nenhum encontramos em nós aquelas supremas perfeições cuja ideia possuímos, disso concluímos correctamente que elas existem, ou certamente existiram alguma vez, em algum ser diferente de nós, a saber, em Deus; do que se segue com total evidência que elas ainda existem.” 

Descartes, Princípios da Filosofia

- De onde vem a ideia de ser perfeito?


TEXTO D

"Mas desde que reconheci que existe um Deus, ao mesmo tempo compreendi também que tudo o resto depende dele e que ele não é enganador, e daí concluí que tudo o que concebo clara e distintamente é necessariamente verdadeiro, mesmo que não atente nas razões pelas quais julguei que isso era verdadeiro, mas apenas me recorde de o ter visto clara e distintamente.  

Por conseguinte, não se pode alegar em contrário nenhuma razão que me leve a duvidar, mas tenho disso ciência verdadeira e certa. Ciência certa e verdadeira, não apenas disso, mas também de todas as outras coisas que me recordo de alguma vez ter demonstrado, como as da geometria e semelhantes. Então, o que se me pode agora objetar? Talvez que sou feito de tal modo que muitas vezes me engano? Mas já sei que não me posso enganar daquilo que concebo com evidência. Talvez que tivesse como verdadeiras e certas muitas outras coisas, que depois depreendi serem falsas? Mas eu não depreendera clara e distintamente nenhuma delas, pois, ignorante desta regra da verdade, acreditara-as talvez por outras causas que depois descobri serem menos firmes. O que se me dirá ainda? Que possivelmente sonho, ou que todas as coisas que agora penso não são mais verdadeiras do que as que me ocorrem quando durmo? Ainda assim, isto não altera nada, porque, seguramente, mesmo que eu sonhasse, se alguma coisa é evidente ao meu espírito, é absolutamente verdadeira. 

E assim vejo perfeitamente que a certeza e a verdade de toda a ciência dependem unicamente do conhecimento de Deus verdadeiro, a tal ponto que, antes de o conhecer, eu não podia saber nada, de modo perfeito, de qualquer outra coisa. Porém, agora podem ser perfeitamente conhecidas e certas, para mim, inúmeras coisas, quer do próprio Deus e das coisas intelectuais, quer também de toda a natureza corpórea, que é o objeto da matemática pura.

                                             

Descartes, Meditações sobre a Filosofia Primeira


 - Qual a importância de Deus na Filosofia de Descartes?


TEXTO E 

" Há, contudo, uma ideia que se pode provar ter origem no exterior da mente do próprio Descartes. (...) As perfeições reunidas na sua ideia de Deus são tão superiores a tudo o que Descartes pode encontrar em si mesmo que tal ideia não pode ser criação sua.  Mas a causa de uma ideia não deve ser menos real do que a ideia ela mesma. por consequência , Descartes pode concluir que não está só no Universo: existe também na realidade um Deus que corresponde à sua ideia. Deus, ele próprio é fonte dessa ideia, tendo-a inculcado em Descartes à nascença (...). Assim, Deus é a primeira entidade fora da sua própria mente que Descartes reconhece. E Deus tem um papel essencial na reconstrução subsequente do edifício das ciências. Porque Deus não tem qualquer defeito, argumenta Descartes, não pode ser enganador, porque o dolo ou o engano dependem sempre de algum defeito da parte de quem engana. O princípio de que Deus não é enganador é o fio condutor que permite a Descartes fazer-nos sair do labirinto do ceticismo."


A Kenny, Nova História da Filosofia Ocidental, 

vol.3,Gradiva, 2011, pp. 137, 138


Nota: O sublinhado é nosso



Lola


domingo, 20 de outubro de 2019

Descartes: Deus




Descartes
 Deus


Mas desde que reconheci que existe um Deus, ao mesmo tempo compreendi também que tudo o resto depende dele e que ele não é enganador, e daí concluí que tudo o que concebo clara e distintamente é necessariamente verdadeiro, mesmo que não atente nas razões pelas quais julguei que isso era verdadeiro, mas apenas me recorde de o ter visto clara e distintamente. 

Por conseguinte, não se pode alegar em contrário nenhuma razão que me leve a duvidar, mas tenho disso ciência verdadeira e certa. Ciência certa e verdadeira, não apenas disso, mas também de todas as outras coisas que me recordo de alguma vez ter demonstrado, como as da geometria e semelhantes. Então, o que se me pode agora objetar? Talvez que sou feito de tal modo que muitas vezes me engano? Mas já sei que não me posso enganar daquilo que concebo com evidência. Talvez que tivesse como verdadeiras e certas muitas outras coisas, que depois depreendi serem falsas? Mas eu não depreendera clara e distintamente nenhuma delas, pois, ignorante desta regra da verdade, acreditara-as talvez por outras causas que depois descobri serem menos firmes. O que se me dirá ainda? Que possivelmente sonho, ou que todas as coisas que agora penso não são mais verdadeiras do que as que me ocorrem quando durmo? Ainda assim, isto não altera nada, porque, seguramente, mesmo que eu sonhasse, se alguma coisa é evidente ao meu espírito, é absolutamente verdadeira.

E assim vejo perfeitamente que a certeza e a verdade de toda a ciência dependem unicamente do conhecimento de Deus verdadeiro, a tal ponto que, antes de o conhecer, eu não podia saber nada, de modo perfeito, de qualquer outra coisa. Porém, agora podem ser perfeitamente conhecidas e certas, para mim, inúmeras coisas, quer do próprio Deus e das coisas intelectuais, quer também de toda a natureza corpórea, que é o objeto da matemática pura.
                                             
Descartes, Meditações sobre a Filosofia Primeira
  

Qual o papel de Deus na Filosofia cartesiana?


- Fundamento e garante de toda a verdade
. Ser perfeito e criador de verdades eternas
-É a origem de tudo o que existe
- Fundamento do saber e da certeza
- Garantia do pensamento evidente e de toda a realidade
- É o fundamento da Ciência
- É infinito, eterno, omnipotente, omnisciente e imutável.
- É o criador do universo mas...não criou o mal nem é responsável por ele.


 O que sabe Descartes neste momento?

·  Sabe que existe  o cogito (RES COGITAS) e que Deus existe (RES DIVINA)

·  Neste momento, o solipsismo não tem razão de ser uma vez que o cogito não é tudo que existe

·  Este conhecimento do cogito, porém, não permite, ainda, recuperar as crenças que a duvida metódica pôs em suspenso – as verdades da Matemática e a existência do mundo exterior – mas permite, definitivamente afirmar que a hipótese da existência de um deus enganador não tem razão de ser

·  Descartes está, finalmente, em condições de afastar o mais poderoso dos argumentos (hipótese da existência de um Génio Maligno) que suportam a dúvida metódica

·  Deus não é enganador pois enganar seria uma imperfeição e Deus é perfeito.



Como afasta Descartes a existência do Génio Maligno?


·  O cogito deu a Descartes o critério para distinguir o verdadeiro do falso.

·  Assim, pode Descartes procurar outras ideias claras e distintas e descobrir outras verdades?

·  Mas, o que garante que não se engana quando concebe algo muito clara e distintamente? 

·  Como o Génio  Maligno poderia fazer conceber clara e distintamente coisas erradas, é necessária uma garantia do critério de clareza e distinção.

·  Só Deus pode garantir que Descartes não se engana quando pensa clara e distintamente.

·  No terceiro nível da dúvida, Descartes admitia a existência de um Deus enganador, no entanto, uma vez provada a existência de Deus, como ser perfeito, é afastada essa hipótese, pois “enganar” seria próprio da imperfeição.

·  A existência de Deus, como ser perfeito, afasta a existência de um génio maligno e garante a verdade das ideias claras e distintas - evidentes.


Qual o papel de Deus na Filosofia cartesiana?

. Deus assume um papel fundamental no sistema cartesiano porque vai garantir a verdade das ideias inatas, do critério de verdade.
·  Deus é garantia da validade das evidências e da objetividade do conhecimento. As nossas faculdades de conhecimento foram criadas por Deus, que não é enganador.

·  Também Deus é a garantia que a crença no mundo exterior é verdadeira pois o facto de Descartes conceber, de forma clara e distinta, que o mundo físico consiste na extensão e no movimento é razão para não duvidar que o mundo exista.

·  Deus valida o conhecimento humano e garante a adequação entre o pensamento evidente e a realidade.

·  Deus valida o critério de verdade.

·  Deus permite chegar à certeza da existência do mundo exterior - RES EXTENSA

·  A razão, bem conduzida, e apoiada pela veracidade divina, pode conhecer toda a realidade.




                                                Lola




segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Descartes: Deus







Descartes

Deus



“Assim, dado que temos em nós a ideia de Deus ou do ser supremo, com razão podemos examinar a causa por que a temos; e encontraremos nela tanta imensidade que por isso nos certificamos absolutamente de que ela só pode ter sido posta em nós por um ser em que exista efectivamente a plenitude de todas as perfeições, ou seja, por um Deus realmente existente. Com efeito, pela luz natural é evidente não só que do nada nada se faz, mas também que não se produz o que é mais perfeito pelo que é menos perfeito, como causa eficiente e total; e, ainda, que não pode haver em nós a ideia ou imagem de alguma coisa da qual não exista algures, seja em nós, seja fora de nós, algum arquétipo que contenha a coisa e todas as suas perfeições. E porque de modo nenhum encontramos em nós aquelas supremas perfeições cuja ideia possuímos, disso concluímos correctamente que elas existem, ou certamente existiram alguma vez, em algum ser diferente de nós, a saber, em Deus; do que se segue com total evidência que elas ainda existem.”



Descartes, Princípios da Filosofia, I Parte, p. 64.






                                                
                                                Lola

domingo, 15 de abril de 2018

Descartes: Deus




René Descartes
A ideia de Deus


" Há, contudo, uma ideia que se pode provar ter origem no exterior da mente do próprio Descartes. (...) As perfeições reunidas na sua ideia de Deus são tão superiores a tudo o que Descartes pode encontrar em si mesmo que tal ideia não pode ser criação sua.  Mas a causa de uma ideia não deve ser menos real do que a ideia ela mesma. por consequência , Descartes pode concluir que não está só no Universo: existe também na realidade um Deus que corresponde à sua ideia. Deus, ele próprio é fonte dessa ideia, tendo-a inculcado em Descartes à nascença (...). Assim, Deus é a primeira entidade fora da sua própria mente que Descartes reconhece. E Deus tem um papel essencial na reconstrução subsequente do edifício das ciências. Porque Deus não tem qualquer defeito, argumenta Descartes, não pode ser enganador, porque o dolo ou o engano dependem sempre de algum defeito da parte de quem engana. O princípio de que Deus não é enganador é o fio condutor que permite a Descartes fazer-nos sair do labirinto do ceticismo."



A Kenny, Nova História da Filosofia Ocidental, 

vol.3,Gradiva, 2011, pp. 137, 138




                                            Lola

segunda-feira, 17 de março de 2014

Descartes: Deus



Descartes: Deus


A EXISTÊNCIA DE DEUS 

-Descartes considera que termos a percepção que existimos não chega para a fundamentação do conhecimento.
-Para Descartes, é essencial descobrir a causa de o nosso pensamento, compreender como funciona e explicar a causa da existência do sujeito pensante.
-Descartes parte das ideias que estão presentes no sujeito para provar a existência de Deus.
-As ideias que qualquer indivíduo possui são de três tipos: adventícias, factícias e inatas.
-Uma das ideias inatas que todos nós temos na mente é a ideia de perfeição. É esta ideia que Descartes vai usar como ponto de partida para as provas da existência de Deus.





PROVAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS



Descartes mostrou que a razão, só por si, é capaz de produzir conhecimentos verdadeiros, pois ela alcançou uma verdade inquestionável.
Mas apesar da razão ter chegado ao conhecimento verdadeiro, ainda não está excluída a hipótese do Deus enganador.
Descartes considera fundamental demonstrar a existência de Deus, um Deus que traga segurança e seja garantia das verdades.
E porquê?

 Descartes, pela aplicação da dúvida metódica, assumiu a existência do cogito, isto é, da sua existência como ser pensante. Contudo, levantava-se a questão de existência do mundo que o rodeava. A negação do valor dos sentidos como meio de acesso ao conhecimento verdadeiro colocava-o, de facto, perante a situação de ter que duvidar da existência da árvore que estava naquele momento a ver.

Descartes aceitava que o mundo tivesse sido criado por Deus, aceitava que, se Deus existisse, ele seria garantia e suporte de todas as outras verdades. Mas, 
como saber se Deus existe ou não? 
Como provar a sua existência se apenas podia ter a certeza da existência do cogito?

 Nas suas obras, Descartes apresentou três provas da existência de Deus
.

1ª Prova a priori pela simples consideração da ideia de ser perfeito

    “Dado que, no nosso conceito de Deus, está contida a existência, é correctamente que se conclui que Deus existe.
    Considerando, portanto, entre as diversas ideias que uma é a do ente sumamente inteligente, sumamente potente e sumamente perfeito, a qual é, de longe, a principal de todas, reconhecemos nela a existência, não apenas como possível e contingente, como acontece nas ideias de todas as outras coisas que percepcionamos distintamente, mas como totalmente necessária e eterna. E, da mesma forma que, por exemplo, percebemos que na ideia de triângulo está necessariamente contido que os seus três ângulos iguais são iguais a dois ângulos rectos, assim, pela simples percepção de que a existência necessária e eterna está contida na ideia do ser sumamente perfeito, devemos concluir sem ambiguidade que o ente sumamente perfeito existe.”
Descartes, Princípios da Filosofia, I Parte, p. 61-62.
  
  A prova é magistralmente simples -  consiste em mostrar que, porque existe em nós a simples ideia de um ser perfeito e infinito, daí resulta que esse ser necessariamente tem que existir.

2ª Prova a posteriori pela causalidade das ideias

    Descartes conclui que Deus existe pelo facto de a sua ideia existir em nós. Uma das passagens onde ele exprime melhor esta ideia é:
  
    “Assim, dado que temos em nós a ideia de Deus ou do ser supremo, com razão podemos examinar a causa por que a temos; e encontraremos nela tanta imensidade que por isso nos certificamos absolutamente de que ela só pode ter sido posta em nós por um ser em que exista efectivamente a plenitude de todas as perfeições, ou seja, por um Deus realmente existente. Com efeito, pela luz natural é evidente não só que do nada nada se faz, mas também que não se produz o que é mais perfeito pelo que é menos perfeito, como causa eficiente e total; e, ainda, que não pode haver em nós a ideia ou imagem de alguma coisa da qual não exista algures, seja em nós, seja fora de nós, algum arquétipo que contenha a coisa e todas as suas perfeições. E porque de modo nenhum encontramos em nós aquelas supremas perfeições cuja ideia possuímos, disso concluímos correctamente que elas existem, ou certamente existiram alguma vez, em algum ser diferente de nós, a saber, em Deus; do que se segue com total evidência que elas ainda existem.”
Descartes, Princípios da Filosofia, I Parte, p. 64.

    A prova consiste agora em mostrar que, porque possuímos  a ideia de Deus como ser perfeitíssimo, somos levados a concluir que esse ser efectivamente existe como causa da nossa ideia da sua perfeição. De facto, como poderíamos nós ter a ideia de perfeição, se somos seres imperfeitos? Como poderia o menos perfeito ser causa do mais perfeito?
    Deste modo, conclui,  já que nenhum homem possui tais perfeições, deve existir algum ser perfeito que é a causa dessa nossa ideia de perfeição. Esse ser é Deus.

3ª Prova a posteriori baseada na contingência do espírito

    “Se tivesse poder para me conservar a mim mesmo, tanto mais poder teria para me dar as perfeições que me faltam; pois elas são apenas atributos da substância, e eu sou substância. Mas não tenho poder para dar a mim mesmo estas perfeições; se o tivesse, já as possuiria. Por conseguinte, não tenho poder para me conservar a mim mesmo.
    Assim, não posso existir, a não ser que seja conservado enquanto existo, seja por mim próprio, se tivesse poder para tal, seja por outro que o possui. Ora, eu existo, e contudo não possuo poder para me conservar a mim próprio, como já foi provado. Logo, sou conservado por outro.
    Além disso, aquele pelo qual sou conservado possui formal e eminentemente tudo aquilo que em mim existe. Mas em mim existe a percepção de muitas perfeições que me faltam, ao mesmo tempo que tenho a percepção da ideia de Deus. Logo, também nele, que me conserva, existe percepção das mesmas perfeições.
    Assim, ele próprio não pode ter percepção de algumas perfeições que lhe faltem, ou que não possua formal ou eminentemente. Como, porém, tem o poder para me conservar, como foi dito, muito mais poder terá para as dar a si mesmo, se lhe faltassem. Tem pois a percepção de todas aquelas que me faltam e que concebo poderem só existir em Deus, como foi provado. Portanto, possui-as formal e eminentemente, e assim é Deus.”
Descartes, Oeuvres, VII, pp. 166-169.


    Descartes demonstra agora a existência de Deus a partir do facto de que não nos podemos conservar a nós próprios. Se não podemos garantir a nossa existência, mas apesar disso existimos, é porque alguém nos pode garantir essa existência.


A IMPORTÂNCIA DE DEUS NO SISTEMA CARTESIANO 

-Deus, sendo perfeito, não pode ser enganador. Enquanto perfeição, Deus é garantia da verdade das nossas ideias claras e distintas (por exemplo: 2+2=4 ou «penso,logo, existo»).
-Se Deus é perfeito e criador do homem e da realidade, então é também o criador das verdades incontestáveis e o fundamento da certeza.
-Segundo Descartes, é Deus que garante a adequação entre o pensamento evidente (verdadeiro) e a realidade, conferindo assim validade ao conhecimento.
-Deus é a perfeição, ou seja, é o bem, a virtude, a eternidade, logo, não poderá ser o autor do mal nem responsável pelos nossos erros.
-Se Deus não existisse e não fosse perfeito, não teríamos a garantia da verdade dos conhecimentos produzidos pela razão, nem teríamos a garantia de que um pensamento claro e distinto corresponde a uma evidência, isto é, a uma verdade incontestável. Se Deus não é enganador, então as nossas evidências racionais são absolutamente verdadeiras.
-Se Deus não existisse, para Descartes, seria «o caos» e nunca poderíamos ter a garantia do funcionamento coerente da nossa razão nem ter noção de como se tornou possível a nossa existência.



Lola
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