Mostrar mensagens com a etiqueta Fenomenologia do Conhecimento. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Fenomenologia do Conhecimento. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Fenomenologia do Conhecimento




Fenomenologia do Conhecimento

Encontramos como primeiros elementos no conhecimento o sujeito pensante, o sujeito cognoscente e o objeto conhecido. Todo o conhecimento, qualquer conhecimento, há de ser de um sujeito sobre um objeto. De modo que o par sujeito cognoscente – objeto conhecido é essencial em qualquer conhecimento. 
Esta dualidade do objeto e do sujeito é uma separação completa; de maneira que o sujeito é sempre o sujeito e o objeto, sempre o objeto. Nunca se pode fundir o sujeito no objeto nem o objeto no sujeito. Se se fundissem, se deixassem de ser dois, não haveria conhecimento. O conhecimento é sempre, pois, essa dualidade de sujeito e objeto. 
Porém essa dualidade é, ao mesmo tempo, uma relação. Não se deve entender, não podemos entender essa dualidade como a dualidade de duas coisas que não tenham entre si a mais pequena relação. Vamos tentar ver agora em que consiste esta relação entre o sujeito cognoscente e o objeto conhecido. 
Esta relação aparece-nos, em primeiro lugar, como uma correlação; como uma relação dupla, de ida e de volta, que consiste em que o sujeito é sujeito para o objeto e em que o objeto é objeto para o sujeito. Tal como acontece com os termos que os lógicos chamam correlativos, a relação consiste em que não se pode pensar um sem o outro, nem o outro sem o um; do mesmo modo, os termos sujeito e objeto do conhecimento são correlativos. Tal como a esquerda não tem sentido nem significa nada se não é por contraposição à direita, e a direita não significa nada se não é por contraposição à esquerda; tal como o acima não significa nada se não é por contraposição ao abaixo e polo norte não significa nada senão por contraposição a polo sul, do mesmo modo, sujeito, no conhecimento, não tem sentido se não for por contraposição a objeto, e objeto não tem sentido se não for por contraposição a sujeito. A relação é, pois, uma correlação.
Mas além disso esta correlação é irreversível. As correlações que antes dei como exemplo são reversíveis. A esquerda converte-se em direita quando a direita se converte em esquerda; o acima converte-se em abaixo quando o abaixo se converte em acima. No entanto, o sujeito e o objeto são irreversíveis. Não há possibilidade de que o objeto se converta em sujeito ou que o sujeito se converta em objeto. Não há reversibilidade.
Mas podemos chegar mais fundo nesta relação entre o sujeito e o objeto. Esta relação consiste em que o sujeito faz algo. E o que é que o sujeito faz? Faz algo que consiste em sair de si em direção ao objeto; em sair de si em direção ao objeto para se apoderar do objeto, para o captar. Esse apoderar-se do objeto não consiste, contudo, em apanhar o objeto, agarrá-lo e metê-lo dentro do sujeito. Não. Isso acabaria com a correlação. O que o sujeito faz ao sair de si mesmo para tornar-se dono do objeto é captar o objeto mediante um pensamento. O sujeito apenas capta um pensamento do objeto. Vista a relação do outro lado, diremos que o objeto vai até ao sujeito, entrega-se ao sujeito, imprime-se no sujeito; mas não no sujeito todo, não na totalidade do sujeito, mas de forma tal que produz uma modificação no sujeito, uma modificação na totalidade do sujeito, modificação que é o pensamento. De modo que agora temos um terceiro elemento na correlação do conhecimento. Já não temos só o sujeito e o objeto, mas agora temos o pensamento; o pensamento que, visto do lado do sujeito é a modificação que o sujeito produziu em si mesmo ao sair em direção ao objeto para se apoderar dele; e, visto do lado do objeto, é a modificação que o objeto, ao entrar, por assim dizer, no sujeito, produziu nos pensamentos deste.

[GARCÍA MORENTE, Manuel. Lecciones preliminares de filosofía. Buenos Aires : Editorial Losada, 2004, p. 181-183. Tradução e negritos de António R. Gomes]



                                            Lola

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Fenomenologia do Conhecimento




Fenomenologia do Conhecimento



O que é a fenomenologia? 

 A palavra venha do grego phainomenón, que significa o que aparece, o que se mostra.
É a análise do conhecimento como acto que se dá entre quem conhece e aquilo que é conhecido. Para a fenomenologia interessa a essência ou estrutura comum a todo o conhecimento independentemente de quem seja o Sujeito e o Objecto.
A fenomenologia descreve ou faz um relato objectivo do essencial do conhecimento independente  ou anteriormente a qualquer interpretação.


 Analisemos o  texto de Nicolai Hartmann: 

Fenomenologia do conhecimento
(análise fenomenológica do acto de conhecer)

I. Em todo o conhecimento, um «cognoscente» e um «conhecido», um sujeito e um objecto encontram-se face a face. A relação que existe entre os dois é o próprio conhecimento. A oposição dos dois termos não pode ser suprimida: esta oposição significa que os dois termos são originariamente separados um do outro, transcendentes um ao outro. (...)

2.Os dois termos da relação não podem ser separados dela sem deixar de ser sujeito e objecto. O sujeito só é sujeito em relação a um objecto e o objecto só é objecto em relação a um sujeito. Cada um deles apenas é o que é pela sua relação com o outro. Estão ligados um ao outro por uma estreita relação; condicionam-se reciprocamente. A sua relação é uma correlação


3. A relação constitutiva do conhecimento é dupla, mas não reversível. O facto de desempenhar o papel de sujeito em relação a um objecto é diferente do facto de desempenhar o papel de objecto em relação a um sujeito. No interior da correlação, sujeito e objecto não são, portanto, intermutaveis; a sua função é essencialmente diferente. (...)

4. A função do sujeito consiste em apreender o objecto; a do objecto consiste em poder ser captado pelo sujeito e sê-lo efectivamente. 

5. Considerado do lado do sujeito, esta "apreensão" pode ser descrita como uma saída do sujeito, da sua própria esfera fazendo uma incursão na esfera do objecto, a qual é para o sujeito transcendente e heterogénea. O sujeito apreende as determinações do objecto e captando-as, introdu-las ou fá-las entrar na sua própria esfera.

6. O sujeito só pode captar as propriedades do objecto fora de si mesmo, porque a oposição do sujeito e do objecto não desaparece na união que o  acto de conhecimento estabelece entre eles: mas ela permanece indestrutível. A consciência desta oposição é um aspecto essencial da consciência do objecto. O objecto, mesmo quando é apreendido, permanece , para o sujeito, algo de exterior; é sempre "o objectum", quer dizer, o que está diante dele. O sujeito não pode captar o objecto sem sair de si (sem se transcender); mas não pode ter consciência do que é apreendido, sem reentrar em si, sem se reencontrar na sua própria esfera. O conhecimento realiza-se, pois, por assim dizer, em três tempos: o sujeito sai de si, está fora de si e regressa finalmente a si.

7. O facto de que o sujeito saia de si para apreender o objecto não muda nada neste. O objecto não se torna por isso imanente. As características do objecto, se bem que sejam apreendidas e como que introduzidas na esfera do sujeito, não são, contudo, deslocadas. 
Apreender o objecto não significa fazê-lo entrar no sujeito, mas sim reproduzir neste as determinações do objecto numa construção que terá um conteúdo idêntico ao do objecto. Esta construção operada no conhecimento é a "imagem" do objecto. O objecto não é modificado pelo sujeito, mas sim o sujeito pelo objecto. Apenas no sujeito alguma coisa se transforma pelo acto do conhecimento. No objecto nada de novo é criado; mas no sujeito nasce a consciência do objecto, com o seu conteúdo, a imagem do objecto.

Nicolai Hartmann, (1945) Les principes d´une méthaphisique de la connaissance, Vol. I, pp. 87-88, Aubier, Editions Montaigne, Paris






Análise do texto


1. S e O - face a face;
O conhecimento é uma relação
S e O são: separados, opostos e transcendentes (um está para além do outro)

2. S e O nunca desaparecem na relação do conhecimento
Um é-o em relação ao outro 
O S só o é em relação ao O e vice versa;
S e O condicionam-se: é uma correlação (relação com...)

3. A relação é dupla mas não reversível: 
S→O    Certo
S←O       O←S     Errado
S e O têm papeis/funções diferentes
Não podem “trocar de posição” - não são permutáveis

4. (...) porque se não for, não há conhecimento!

5. O S ao conhecer entra na esfera do O
                                       ↓
O Objecto permanece transcendente e heterogéneo
O S apreende as determinações, características e  propriedades  do O e fá-las entrar na sua própria esfera.

6. O conhecimento dá-se em três momentos:
O S sai de si (para conhecer)
Está fora de si (enquanto está a conhecer)
Regressa a si (com a consciência ou imagem do O)
Mesmo depois de o S ter consciência do O, estes continuam a ser opostos.
Depois de ser apreendido, o O permanece imutável - Objectum (o que está para além de....)

7. Após o conhecimento, o O permanece imutável - nunca se torna imanente (permanece transcendente);
As características do O apesar de apreendidas não são deslocadas;
O S fica com as determinações do O;
No S nasce a imagem do O ou representação mental na consciência.


Pelo conhecimento, só o S se altera pois nele surgem
 as: determinações, características, propriedades, conteúdo, imagem, representação
 ou consciência do O.



Exploração do texto:
  • O que é o conhecimento?
  • Que elementos intervêm no acto de conhecer?
  • Que relação mantêm entre si?
  • Qual o significado da oposição sujeito/objecto?
  • Como se caracteriza a relação sujeito/objecto?
  • Assinale a frase que exprime a ideia: "Ao conhecer só o sujeito se enriquece".



Lola

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...