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domingo, 2 de abril de 2017

Violência




Violência imparável




"Porque ela está ali". À mão de semear... :(. E o empate de ontem na Luz permite-me que conte história acerca do contexto cultural sem ferir susceptibilidades: muitas vezes ouvi mulheres dizerem " não gosta de mim, já nem sequer me bate quando o Porto perde!". A agressão física como prova de que, pelo menos!, não se tornara ainda invisível na relação :(. E também aqui a violência é "democrática", colegas meus contavam as mesmas histórias sobre outras regiões e outros clubes. O erro do árbitro, avançado ou guarda-redes era pago pela mulher. "Porque ela estava ali", como escreve António Barreto. Sempre ali estiveram, as mulheres. E as (lentas) mudanças a que fomos assistindo saíram-lhes, amiúde, literalmente dos corpos. Contra cavalos e bastões, na prisão, em suicídios para chamar a atenção do mundo. Nada lhes caiu no regaço, foi conquistado. Ombro a ombro com uma minoria de homens que recusaram uma superioridade "tradicional", justificada pelo Plano de Deus ou os "factos" da Natureza. Mas a vergonha continua escandalosamente viva. E o facto de também existir violência exercida sobre homens não a apaga, "apenas" a agrava...

in dn
 Julio Machado Vaz



Lola

Violência






Violência

Mulheres batidas


   Há termos em voga: assédio sexual e violência doméstica, por exemplo. 
Nenhum é falso. 
Mas ambos escondem qualquer coisa: a violência masculina! 
          É sobretudo disso que se trata.
Pode haver estudos e análises. Consultas e exames. Nunca se chegará bem a saber o que leva um homem a espancar a mulher, a bater na mãe, a desancar a namorada, a surrar a amante e a sovar a filha! Mas sobretudo a mulher, a mãe dos seus filhos, a pessoa que se ocupa dele, lhe faz as refeições e trata da casa! Ou simplesmente a pessoa que com ele vive e dorme.
É uma das piores baixezas da humanidade! A violência masculina tem razões estranhas: sexo, ciúme, insegurança, impotência, desconfiança, exibicionismo, ignorância, vingança, álcool, prepotência... Não é de esquerda nem de direita. Não é do Norte, nem do Sul. Não é do crente, nem do ateu. Não é do rico, nem do pobre. Não é do doutor, nem do analfabeto. Não é do inteligente, nem do estúpido. Não é do velho, nem do novo. Não é do português, nem do estrangeiro. Não é do rústico, nem do citadino.
Que animal é este, difícil de compreender, impossível de entender? Podemos recorrer a psicólogos, médicos, psicanalistas, sociólogos, polícias e juristas: nenhum satisfaz a necessidade de compreender.
São anualmente cinco a dez mil mulheres as que, após violência continuada, apresentam queixa. Mas são cinquenta a cem mil as que nunca apresentaram queixa, não se sabe bem porquê, mas suspeita-se com certeza. Por medo e pavor. Por timidez e vergonha. Ou por pobreza e miséria. E são cerca de cinquenta as que, anualmente, já não apresentam queixa, pela simples razão de que foram assassinadas. Isso mesmo, assassinadas! Há homens assim, que assassinam a mãe dos seus filhos! Nem animais!
O homem bate-lhe porque tem ciúmes, porque ela olhou para outro, no restaurante, porque ela sorriu para outro, no emprego, porque ela falou com outro, ao telemóvel, porque ela ouviu as histórias do outro, no autocarro.
Bate-lhe porque o patrão se zangou, porque o chefe o censurou, porque teve má avaliação no emprego e, ao chegar a casa, bateu em quem tinha à mão.
Bate-lhe porque deu uma nega, porque esteve impotente com a amante, porque não conseguiu sair com uma namorada.
Bate-lhe porque ela não obedeceu a uma ordem dele, porque respondeu ou resmungou, porque ela lhe disse que estava cansada, que precisava de dormir ou porque não quis fazer amor com ele.
Bate-lhe porque ela lhe disse que ele bem podia ajudar em casa, com os filhos, com os pais ou os sogros, nas compras, na louça, nos pagamentos e no lixo.
Bate-lhe porque, no golfe, as coisas não correram bem, porque as acções na bolsa baixaram 5% num só dia ou porque o banco exigiu o pagamento da dívida.
Bate-lhe porque bebeu uns copos a mais, porque o seu clube de futebol perdeu e um amigo lhe estragou o carro.
Bate-lhe porque ela lhe disse que ele bebia de mais, que podia passar um pouco menos de tempo diante da televisão, ou no escritório, à noite, ou no café, com os amigos.
Bate-lhe porque é como o Sebastião, que come tudo, tudo, tudo, que come tudo sem colher, que fica todo barrigudo e depois dá pancada na mulher.
Bate-lhe porque o peixe estava queimado e a carne estava crua, porque a mesa não estava posta a horas, porque ele chegou tarde e o jantar estava frio.
Bate-lhe porque ela esteve a ler livros que não devia ler, a ver filmes que não devia ver e a ouvir música que não devia ouvir.
Bate-lhe porque é o seu direito, porque é a sua mulher, para lhe lembrar que quem manda é ele, porque ela não sabe cuidar dos filhos, porque os filhos têm más notas, porque é frustrado e traumatizado, já o pai dele batia na mãe e consta que o avô batia na avó.
Bate-lhe porque ela estava mesmo a pedi-las, com aquela maneira de se vestir e de se comportar diante de toda a gente.
Bate-lhe porque ela disse que se queria separar ou pedir o divórcio.
Bate-lhe porque uns tabefes nunca fizeram mal a ninguém.
Bate-lhe porque ela gosta.
         Bate-lhe porque ela está ali.

In DN
02 DE ABRIL DE 2017
00:01



                                                Lola

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Violência






VIOLÊNCIA NO NAMORO – um

 alerta...uma sensibilização!



Realizou-se, na Escola Secundária de Arouca, uma acção de sensibilização subordinada ao tema “Violência no Namoro”.
Assisti a esta palestra acompanhando a turma G do 9º Ano – um conjunto de quinze miúdas que frequenta um curso EFA – Curso de Assistente Familiar e Apoio à Comunidade.
Nada mais indicado para uma turma de meninas precocemente adultas, com histórias de vida marcantes, com experiências sexuais irresponsavelmente assumidas, e, quatro delas institucionalizadas.
Vidas amargas estas! Uma delas disse-me, um dia, numa aula, com um despudor que indigna: “O meu primo violou uma criança e está cá fora...”.
Há intervenções que nos calam a alma pela impossibilidade que sentimos em aceitar contextos de vida de uma miséria humana tão duramente monstruosa. E, porque reais...chocam demasiadamente.
O tema da palestra seduzia! Mais pelo namoro e menos pela violência. Ouviram, atentamente, que, cada vez mais, esta começa cedo, que é um conceito abrangente, que é uma atitude que surge camuflada em diferentes práticas que vão desde as mais Hard (insulto verbal, pressão, agressão) às mais Soft (controle de amizades, de horários e de telemóvel).
Sentiram experiências vividas pelas técnicas que, no contacto com casos reais, descreveram pormenorizadamente, casos de violência em casamentos julgados exteriormente como imaculados.
E porquê? É que, muitas das vezes, a violência entre casais não é mais nem menos que o prolongamento, o patamar seguinte de uma violência que se iniciou, levemente, no namoro.
Mas, esta temática é extremamente complexa, assumimos nós! É necessário establecer barreiras seguras entre o amor e, inevitavelmente, o ciúme a ele associado e o controle e a violência que, subrepticiamente, se instala numa relação castrando-a e sufocando-a de forma progressiva.


As meninas ouviram com atenção. Algumas delas, estou certa, pensaram as suas próprias vidas e reflectiram práticas de e num quotidiano que as surpreende na sua imaturidade.
Instadas a questionar sobre possíveis dúvidas acerca do tema –  fizeram - no a medo. È que isto é sempre coisa dos outros...Sei que muito haveria a dizer se, provavelmente, o encontro fosse na privacidade e num conhecimento interpessoal mais consolidado. Ficará para mais tarde!
E eu, insatisfeita no saber, orgulhosa de tudo querer repôr permanentemente em questâo, falo do limite ténue entre ciúme e controle, entre interesse, paixão e pressão, entre chantagem emocional e desejo de exclusividade. Fica, no entanto, por perceber se o fenómeno tem maior incidência (ou não) nos países latinos (e porquê), ou mesmo se ele tem vindo a crescer ou são os organismos que estão mais atentos e a sociedade mais permeavel à análise e denuncia destes protagonistas de virtudes públicas e vícios privados.
E porque demasiadamente privados...quero partilhar um caso paradigmático de uma destas meninas da turma que vou tentando não perder de vista.
Marta (nome ficticio). Olhar azul e aspecto frágil. Dezasseis anos. Será mãe nos inícios de Dezembro. Vive há cerca de dois anos com Xavier (nome ficticio) e gosta muito dele. “Foi ele quem me desonrou...”, diz com orgulho.
Esta vida em comum tem sido intervalada por zangas e afastamentos – traições por parte dele. Tem, também, sido salpicada por momentos de agressão física. Mas, Marta afirma que desde que está grávida “ele nunca mais lhe bateu e que até é seu amigo”.
Lá em casa (vivem sozinhos numa casa alugada) o ambiente, porém, não agrada a Marta. O dinheiro está num pequeno cofre de onde ela só tira mediante pedido prévio a Xavier. Mesmo agora que está a receber o subsídio pré-natal não pode fazer uso desse dinheiro com liberdade.
Às vezes (e não são poucas) a mãe de Xavier (pessoa de porte duvidoso) planta-se na casa de ambos e controla-lhe o que come, o caixote do lixo (para ver o que ela estraga...) e remexe as gavetas – fazendo, posteriormente, queixas ao filho.
Xavier defende a mãe (esta ter-lhe-á dado dinheiro para a carta de condução) e vai cedendo às ingerências da progenitora. Marta não gosta. “Detesta a velha!”. Um dia destes, encontrou-a parcialmente nua, na cama, ao lado do filho. Não gostou e chamou a atenção de Xavier que nada disse.
Há uns dias Marta, com a mãe veio passar a tarde a minha casa. Falamos disto e de muito mais. Xavier (numa das zangas com Marta) envolveu-se com uma miúda, de doze anos, desta escola, que largou mediante pressão da Comissão de Protecção de Menores. Marta fala desta ligação e quer saber como está esta menina que, curiosamente, ainda não tem catorze anos, será mãe em Novembro, vivendo já com o namorado de vinte anos, a vinte kilómetros a norte do Porto.
Vidas demasiadamente entrelaçadas!
Marta sabe que se algo acontecer à sua filha esta será institucionalizada. Sabe, também, porque eu lho disse (terá ela interiorizado?) que no caso de ter de optar, a sua filha terá de estar sempre em primeiro lugar.
Penso que sabe que a violência não pode voltar porque quem ama respeita e aceita o outro como um EU-OUTRO e nunca como um OUTRO-EU.
Não será a diferença e os olhares diferenciadores do real aquilo que, precisamente, nos aproxima?

                                           Lola




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